ANEXO G – Entrevista com Wagner Silva de Araujo (STI)

Entrevista com Wagner Silva de Araujo, Departamento de Governança e Sistemas de Informação da nova Secretaria de Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão

A SLTI está se desmembrando?

A SLTI a parte de logística agora faz parte da SEGS, que é a Secretaria de Gestão Pública, e a gente considera uma vitória ter a primeira Secretaria de Tecnologia da Informação em anos de governo. Já houve, mas bem incipiente, lá no iniciozinho, e a gente entende que em momento de Estratégia de Governança Digital é fenomenal termos uma secretaria especializada, ainda mais em tempos que o governo está enxugando a gente, ao contrário de outras unidades, nos mantivemos nos mesmos patamares com três diretorias de TI, como existia ainda na época da SLTI.

Essa mudança ainda não foi formalizada, está em processo?

Foi desde ontem, por isso que eu estou falando aqui com muito orgulho. Tem um mês que ela já foi publicada no decreto, há um mês atrás, com validade a partir do dia 17 de dezembro, 16 de dezembro… Não, 17, isso, foi ontem. E aí, desde ontem a gente está com essa nova vibe aí. E aí, não sei se isso é importante pro teu contexto, mas os países que tanto invejamos em termos de governo digital, já já eu falo um pouquinho da governança digital, mas em termos de governo digital que, indubitavelmente, é o termo mais comum hoje utilizado no mundo, têm o que eles chamam de CIO de governo. Canadá tem há sete anos, Uruguai tem há muito mais tempo, México tem vinculado diretamente ao ministério que é quase um primeiro-ministro lá do governo mexicano, Colômbia é muito forte nisso também, a Estônia, que é o top one lá da lista da ONU tem um CIO governamental, Nova Zelândia. Que aí a gente entende que a STI abre caminho pra uma discussão como essa. É uma discussão de médio prazo, sabemos disso. Mas hoje se a gente for listar agências governamentais que lidam com tecnologia da informação no Brasil – incluindo as duas empresas públicas, Dataprev e Serpro, coloca a Telebrás aí também, três – você tem mais do que 14 agências lidando com o tema. É muita coisa. E aí não faz sentido se o mundo todo trata isso como um problema de uma única liderança, o Brasil ainda tratar dessa forma. Por isso que a gente comemora o lançamento da STI.

Governança digital é um termo relativamente novo. Entende-se governança digital sob a perspectiva da governança, então governança enquanto processo de governo, um termo que oriunda lá da administração pública, pros mais puristas lá na ciência política, e que por acaso hoje tem uma gama de ferramentas digitais à sua disposição. Então o processo de governo tradicional, vamos pegar aí os três poderes tradicionais, Executivo, Legislativo e o Judiciário. Num processo de governo tradicional todos são agentes políticos, em alguns países são todos eleitos – no Brasil, por exemplo, não; os membros do Poder Judiciário estão ali não eleitos. Mas em todos esses países… Bom, quando se fala em processo de governo digital, começa-se perguntar nos alicerces desse processo democrático, o que que a tecnologia hoje tem à disposição que pode modificá-lo, melhorá-lo. Um exemplo típico é a participação social num processo de governo. Hoje a participação se dá por meio de representantes eleitos. Temos uma democracia representativa, como está lá na Constituição, ninguém quer mudar isso. Mas o próprio status quo reconhece que é necessário mais do que uma ouvidoria, mais do que um canal via internet de conversa cidadão-Estado. Então adventos como Dialoga Brasil, como Participa BR são instrumentos que criam uma das vertentes da governança digital que é a participação social, de um modo muito prático. Alguns dirão que isso é uma investidura de esquerda, governos de esquerda. Ledo engano. A gente tem uma experiência bem legal na Espanha que oriunda de um governo de direita e cuja finalidade é simples assim: eu estou fazendo o que o meu eleitor quer ou estou fazendo o que eu acho que o eleitor quer? Parece simples mas não é. Então a participação social é uma das veias da governança digital enquanto processo de governo.

Vamos adiante. Além do pilar participação social, o pilar mais bacana é o do serviço digital. O governo é, entre outras coisas, um prestador de serviço. Prestador de serviço monopolista, diga-se de passagem. Ele tem atribuições únicas, que só o Estado pode fazer. Sendo um prestador de serviço ele pode optar pelo método tradicional de prestá-lo, com balcões de atendimento, ou pelos métodos mais modernos, notoriamente, via ferramentas tecnológicas. Sites web? Sim, mas só os sites? Não, ora. Hoje em dia, até pra início de conversa, o maior número de acessos à internet é por smartphones. Então que que nós temos no mundo em termos… E aí o termo que é mais comum é o termo do governo digital. Era governo eletrônico, mas que que temos em iniciativas de governo digital? Além dos serviços tradicionalmente prestados no modo balcão que passaram pro modo eletrônico, serviços antes inimagináveis porque o governo passa a ter possibilidade do próprio cidadão fazer algo que ele espera do governo e que o governo não tem pernas pra fazer. Aí eu já estou falando de dados abertos, interoperabilidade. Então pega, vamos lá, motivos que nos enchem os olhos quando a gente vai numa palestra da Coreia do Sul. 2008: estudantes coreanos, baseados em dados do governo, fizeram uma ferramenta para consumo da população gerenciar melhor o transporte público. Aquilo que foi feito em São Paulo chamado lá o Cadê Meu Ônibus, só que lá aconteceu em 2008, em São Paulo aconteceu em 2014. Lá feito com dados governamentais, em São Paulo com dados da própria população. Que provocação há nisso? Primeiro, o governo se reconhecer como um prestador de serviço também. Segundo, o governo perceber que ele não vai dar conta de tudo. E três, o governo perceber que o cidadão ajudar no processo porque ele quer um país melhor. Então esse é um exemplo, tem outros exemplos como o Diário Livre, também uma experiência lá de São Paulo, onde uma professora da USP se utiliza de dados abertos, notoriamente publicados no Diário Oficial do município, e melhora a solução, diga-se de passagem de um modo muito mais barato, e oferece ao cidadão paulista uma ferramenta muito mais nobre de pesquisas, mais simples. Então o pilar do serviço digital, da prestação de serviços, ela é evidente e, eu volto a dizer, é a mais bacana de todas porque o cidadão percebe ela facilmente.

Vamos ao pilar da transparência, necessidade iminente de todo cidadão no mundo. Quero saber o que que está sendo feito com o investimento que faço no governo. O Brasil tem um exemplo muito legal com a LAI, 2012, salvo engano, mas pode melhorar. Pode melhorar com o que falei agora, com dados abertos, pode melhorar com cocriação a partir dos dados abertos, pode melhorar com a interoperabilidade possibilitada pelos dados abertos, não apenas entre agências de governo, mas o governo… universidade, governo e iniciativa privada e tudo mais. Tudo isso são provocações presentes na Estratégia de Governança Digital ainda em vias de ser transformado em decreto. Ela foi construída com ampla participação social, claro, senão não fazia sentido o pilar da participação, foi discutida em três oficinas específicas pra cada pilar aqui em Brasília, foi disponibilizada no Portal Participa BR e foi amplamente discutida entre as agências governamentais em reuniões específicas. Passou pela Jurídica do Ministério do Planejamento, já virou mensagem entre o Ministério e a Casa Civil e hoje está na Casa Civil em análise pela Jurídica. Nossa expectativa é que seja publicado nas próximas semanas. Bom, e eu acho que respondi tua pergunta aí.

Então na coisa dos serviços digitais. Como você enxerga hoje a capacidade do governo brasileiro, do Governo Federal, falando, de desenvolver serviços digitais? A gente tem um caso recente aí do E-Social que deu um grande barulho e tal. Mas em geral, como você vê a capacidade do governo federal de oferecer serviços de qualidade pro cidadão e quais são os gargalos que você enxerga nesse processo?

Primeiro, eu vejo uma capacidade de governo aquém do que a população quer, apesar de termos aí as duas empresas públicas muito fortes, Serpro e Dataprev. Temos, claro, diversas unidades de TI espalhadas nos ministérios, porém, sem uma governança muito… com uma direção muito clara, que é o que a gente pretende dar a partir da Secretaria de Tecnologia da Informação a partir de agora. Inclusive, contratualizando a ida de pessoal pra esses ministérios e seus vinculados a partir de entrega de serviços avaliáveis ao final de cada ano. Muito naquela linha: “olha, o serviço foi entregue ao cidadão? Ótimo, o Ministério do Planejamento manterá o seu pessoal na sua unidade”; “não, não consigo entregar” “então vamos deslocar essas pessoas praquele ministério que está entregando”. Porque, afinal, o cidadão quer mais serviços pelo preço que ele está pagando, notoriamente os impostos. Aí você me pergunta: como isso vai acontecer? O primeiro ponto é cultural. Governo se reconhecer como prestador de serviço. Não é comum, tá, infelizmente não é comum se reconhecer como prestador de serviço. Dirão os mais puristas: mas o governo não faz só isso. E eu vou concordar, não faz só isso, mas ele faz muito isso. E o cidadão hoje quer o serviço melhor, ele quer um serviço do governo igual ele consome, por exemplo, serviço bancário. É fato. Então, o primeiro ponto, cultural, nos reconhecermos como prestadores de serviço. Segundo ponto, nos reconhecermos que temos monopólio de alguns serviços. Eles não serão prestados por outro ente que não o governo. E um monopólio, ele não necessariamente é bom. Ele pode levar pessoas a se acomodar. Então o segundo ponto é esse. Terceiro ponto, entender que os serviços devem ser digitais por padrão. Dirão os mais puristas: ah, mas a grande população brasileira não tem acesso a um smartphone nem internet. Sim, mas a boa parte da nossa população que é jovem, que não é tão jovem assim e que consome, sim, serviços pela internet querem cada vez mais serviços pela internet. Se eu não consumo, eu tenho um sobrinho, eu tenho um neto que pode fazer por mim. Então é um erro pensar que o cidadão quer o tratamento tradicional de balcão. Isso mexe com as estruturas governamentais. Vou te dar um exemplo bem legal que eu ouvi recentemente. A gente tem um decréscimo enorme de consumo de serviços tradicionais de correio. Entretanto, a gente tem uma empresa fantástica, que são os Correios, que tem presença em todos os municípios brasileiros. Por que não essas agências serem um vetor de atendimento dos diversos ministérios. Seriam os postos de atendimento. Pra isso, que que é necessário? Serviço eletrônico, pra rodar lá na ponta, e pessoal treinado lá na ponta. É possível fazer. A gente tem hoje, por exemplo, emissão de CPF em qualquer agência de Correio no Brasil todo. Emissão de CPF é um serviço do Ministério da Fazenda. Por que não tantos outros serviços nessa linha? Então, vamos lá aos gargalos. Primeiro, cultural. Segundo, capacidade de fazê-lo. Não acho que as duas empresas, Serpro e Dataprev, farão tudo. Até porque a tecnologia que nos bate à porta, serviços em nuvem, empresas que oferecem infraestrutura com preços inacreditavelmente baixos, podem ser um grande parceiro de governo. Precisamos vencer a questão da segurança da informação, que não necessariamente precisa ser um desequilíbrio do tipo “o governo vai fazer tudo”. Isso aí é… não acredito nisso. Tem que ser um equilíbrio do governo vai fazer aquilo que ele tem vocação pra fazer. Então Serpro, Dataprev e as diversas agências governamentais devem se fazer essa pergunta. O que que eu tenho vocação pra fazer? E a segunda pergunta é: o que eu consigo fazer bem? O exemplo do E-Social, que você falou, eu acho que é uma coisa que o Serpro consegue fazer bem, mas deu manchete ruim pro governo. Ali é um claro controle de expectativas que não estava alinhado. Havia um prazo muito claro, havia capacidade pra fazê-lo, mas aquele prazo não foi o melhor prazo técnico, tanto é que naquela data não estava pronto. Mas eu usei o E-Social depois daquilo, eu tenho um empregado doméstico em casa. E olhei aquilo e falei: poxa, isso é fantástico. Mas foi uma notícia boa que se tornou ruim. Então não vejo ali como uma deficiência de uma única iniciativa de uma empresa pública, não. Eu acho que, primeiro, ela deveria ter colocado mais pessoas naquilo, e aí vem pra questão da vocação. É vocação dela fazer aquilo? É. Então vamos deixar de fazer outras coisas. Segundo ponto, reconhecer que eu não vou conseguir fazer tudo e que a iniciativa privada está aí para complementar o que eles não conseguem fazer. E mais do que complementar, o que que a iniciativa privada tem vocação, faz bem e mais barato? Ora, vamos usá-lo, não será demérito nenhum pra tecnologia da informação governamental falar “olha, o mercado faz melhor do que eu esse ponto. O mercado faz pior do que eu o outro ponto. O que ele faz pior eu vou fazer”. Eu acho que eu consegui te atender aí.

E de que maneira a EGD enfrenta essas questões que você colocou, a questão da cultura, de se enxergar como prestador de serviço, e da capacidade de fazer, ela ataca isso de alguma maneira?

Ela provoca. Ela provoca o servidor público ou empregado público a pensar nisso. A gente, na STI, recebe alguns países do mundo que vêm aqui fazer benchmarking. E há países com 40% das suas soluções governamentais na nuvem privada hospedada nos Estados Unidos. Aí a gente pergunta: “poxa, e a segurança? e a soberania?”. E eles falam assim: “eu me reconheci como um prestador de serviço, eu reconheci aquilo que eu tenho vocação pra fazer, são 60%, eu reconheci aquilo que precisa de segurança, que são 60%, eu reconheci aquilo que eu preciso ter total domínio e soberania, são 60%, e reconheci que eu não conseguia fazer tudo, são os 40%”. Isso aí é mudança cultural e atendimento a uma demanda do que o cidadão quer como prestação de serviço ao governo, por isso que eu insisto na parte cultural de mudança de percepção aí do problema.

Isso aparece de alguma forma concreta na EGD?

Ela aparece com metas e indicadores que vão provocar isso. Vou te dar algumas delas. Primeiro, ela força como meta que as agências governamentais identifiquem os serviços prestados. Listem numa carta de serviço. Dois, que elas pensem que serviço pode ser prestado no modo digital? Esse “pode” não é uma pergunta capciosa do tipo “pode, mas só em 2022 quando eu terei capacidade”. Não. Que serviço pode ser feito de modo digital, e olha que hoje em dia eu faço muita coisa de um modo digital. Eu transfiro uma boa quantidade de dinheiro sem um gerente de banco, eu compro uma passagem aérea, eu só não viajo digitalmente, mas eu faço quase 100% das operações hoje de modo eletrônico no caso de uma passagem aérea. Então romper também essa barreira daquilo que “ah, não, isso aí não dá pra fazer digitalmente”. Então ela coloca meta de percentual de serviços mapeados, percentual de serviços eletrônicos e ela provoca isso pra quatro anos. Então se em quatro anos eu não tenho capacidade operacional de fazer isso eletrônico, talvez eu tenha sim que, primeiro, me reconhecer como prestador de serviço e procurar parceiros. Às vezes parceiros de governo. Vou te dar um dado interessante. O maior consumidor de dados em agências do INSS hoje são cidadãos que pleiteiam políticas públicas educacionais. Por quê? O Ministério da Educação pede uma interoperabilidade com o INSS, que é dever nosso, de governo, e ela ainda não existe. Então ela força você, eu, cidadão, a lotar uma agência de INSS, o que traz mais custo pra mim, pra você também, não apenas pessoal, mas de governo, e que poderiam ser resolvidos eletronicamente. Volto a dizer: tem que ter uma mudança de cultura para um cara lá do MEC falar assim: “não vou exigir isso do cidadão, eu vou exigir isso do Ministério da Previdência Social e, eventualmente, alocar recurso dele pra resolver um problema meu”. Lá na Previdência alguém vai falar: “peraí, isso não é problema meu, é um problema do MEC”. Não, é problema da Previdência sim, porque está onerando a Previdência. “Ah, então alguém orquestre lá da Secretaria de Tecnologia da Informação”.

Você falou logo no começo dos países que estão com essa questão mais avançada, que tem um CIO e que enxerga esse posicionamento da área de TI, e agora com a STI isso está ganhando força. Como é que você enxerga… Uma coisa que eu tenho visto muito na minha pesquisa é justamente esse debate do posicionamento do papel da área de TI na ponta, área de TI que está lá no órgão da ponta. Que se tem muito debate de uma visão de uma boa parcela dos gestores de TI que se enxerga como área meio, que se enxerga como “eu tenho que contratar uma solução e entregar e eu não entro no mérito, por exemplo, da metodologia de desenvolvimento ou do como. Eu compro uma solução e entrego e sou uma área meio” e outros que estão “não, a área de TI precisa ter um posicionamento estratégico e pensar e realmente participar do processo de desenvolvimento das tecnologias junto com as áreas finalísticas e não simplesmente ficar como um intermediário entre… como quase uma área de compras”. Como que você enxerga isso e também se isso aparece de alguma maneira na EGD?

Se nós perguntarmos a qualquer gestor de TI ele vai se posicionar no segundo grupo. “Não, a TI tem que ser estratégica e influenciar o processo decisório da política pública e é o que eu devo fazer.” Se nós formos visitar os órgãos eles estão muito mais no primeiro grupo. São áreas meio, estão apenas ali fazendo uma aquisição e muitas das vezes falam assim: “não, minha área-fim que quis desse jeito e eu estou aqui operacionalizando aquilo”. Isso não está diretamente na EGD. Volto a dizer, é um documento estratégico, ele faz provocações ali. Esse papel também é nosso, da Secretaria, provocar o colega, seja CGTI ou diretor de TI que ele não aceite simplesmente as demandas da sua área finalística mas questione aquela demanda. Questione do tipo “olha, para o negócio do meu ministério, Ministério da Cultura, por exemplo, qual é a melhor estratégia? eu simplesmente comprar de qualquer jeito, eu vou atender qual número de cidadãos interessados no tema com essa tua proposta em detrimento da proposta de outro secretário?”. Essa provocação os diretores e CGTIs olham pra nós com uma cara assim e falam “você vai comigo?”. Eles não estão acostumados com isso e a gente fala “vamos com você”. Mais do que isso, nós temos ido ao secretário executivo e contratualizado tudo com ele com esse método. Temos provocado. “Pra quê uma sala-cofre, cara, se sala-cofre não entrega nada ao teu cliente. Sala-cofre é meio do meio, é meio pra TI pensar em te entregar alguma coisa.” Então estamos juntos dos diretores e CGTI nessa provocação. Essa provocação ela é necessariamente deselegante? Não. Aliás, é muito elegante quando a gente fala “vem cá, a política pública que eu vou atender em 2016 com mais efetividade é a desse secretário ou do outro secretário?”. Mais do que colocar duas secretarias em choque, eu estou falando de secretarias finalísticas, é provocar os dois secretários e o secretário-executivo a eleger prioridade, porque nós não temos cultura de eleição de prioridade. Temos cultura de lista dos desejos. “Olha, pra 16 eu quero fazer barba, cabelo e bigode.” Ora, não há capacidade pra isso. Vamos deixar bem claro o que eu vou fazer e o que eu não vou fazer, isso é uma lista de prioridade. Lista do desejos é isso, “não, vou fazer barba, cabelo e bigode”. Ora. Então estamos juntos dos diretores e CGTIs nesse ponto, atuando apenas com eles não, no mais alto nível estratégico. Só nós, santo de casa vai fazer milagre? Não, estamos trazendo parceiros. Órgãos de controle são bons parceiros, mas nós queremos aqueles parceiros do governo que deram certo. Banco do Brasil. Banco do Brasil começou a fazer essas perguntas há 15 anos atrás. Começou a operacionalizar isso há 10 anos atrás. Perguntas do tipo, quando um diretor de previdência privada falava “olha, eu preciso de um sistema” e um diretor de seguros falava “eu preciso de um sistema” e alguém falava assim “para 2006 eu consigo fazer um deles, qual desses trará maior retorno ao acionista do Banco do Brasil (que, por acaso ali, é o governo federal o maior deles, apesar de ter ações no mercado)?” E alguém ali em 2006 teve coragem de falar “2006 nossa estratégia de negócio é seguro. Previdência é 2007”. Eu estou chutando aqui, não sei se isso aconteceu necessariamente. Ou alguém falou “é estratégico para o Banco do Brasil atender seguro e previdência em 2006, então o recurso que ia pra outra coisa vai pra tecnologia”. Esse é o pulo do gato. É o diretor de TI vender a TI não como meio, mas como fim para o negócio daquele seu cliente. Pra isso precisamos de lideranças fortes, por isso que a contratualização está acontecendo com o secretário executivo. Por isso que as vendas para os secretários executivos não têm sido só da STI, têm sido de outros secretários que já viram isso. Quer ver um exemplo clássico? MEC. MEC hoje surfa em política pública baseada em tecnologia. Ele é capaz de atender oito milhões de brasileiros 100% em modo eletrônico. Estou falando de Enem, Sisu, Pronatec. Ciência sem Fronteiras (nem é MEC, eu acho que é Ibict) 100% eletrônico, não há um atendimento em balcão. Mas por quê? Não foi um cara de TI que falou “isso vale a pena”. Foi um cara de TI que também falou “isso vale a pena”, mas é o cara do negócio falou “isso…”. EGD. A EGD faz provocações nesse sentido, notoriamente no pilar serviços eletrônicos, em chamar a atenção não apenas do CGTI ou diretor de TI, afinal, não é um decreto presidencial, chamar a atenção dos ministros e secretários executivos que o serviço tem que ser feito digital por padrão. E essa discussão ela tem que entrar na agenda das áreas finalísticas nessa linha. Se é digital por padrão, eu tenho que sair da lista de desejos, eu tenho que ir pruma lista de prioridades e efetivamente cumprir metas pra 2016, 17, 18, 19. É assim que está na EGD.

Se você tem algum comentário do Portal do Software Público nesse processo e também se ele está com algum plano pra 2016, algum lançamento próximo.

Vamos lá. Software Público é importante não apenas pro Brasil, mas é agenda recorrente na América do Sul. A gente tem 12 anos, 13 de investimento em software público enquanto política de governo. A minha provocação, e isso está hoje no meu departamento, é que nós não podemos nos dar ao luxo dessa política de governo não se tornar uma política de Estado. Pra que isso se torne uma política de Estado isso tem que ser efetivo e trazer resultado aos nossos líderes, que são os agentes políticos. Presidenta, os ministros. Porque o resultado ao agente político é aquele resultado que o eleitor dá a eles. Olha, software público é bacana mesmo. Agora, software público não é fim em si mesmo. O eleitor não percebe o software público como finalidade nele mesmo, o eleitor percebe o quê? A política pública amparada pelo software, é isso que o eleitor percebe. Bom, nessa linha, se o software está sendo compartilhado gratuitamente entre entes governamentais e está favorecendo, vamos colocar aqui, 10 políticas públicas, bingo. O eleitor percebeu aquilo. Se aquele compartilhamento está sendo feito de uma outra forma que beneficiou 100 políticas públicas, bingo, bingo, bingo. O eleitor percebeu ele cada vez mais. E o que que a tecnologia evoluiu ao longo dos 12 anos? Evoluiu rumo ao software como serviço. Se você tem uma conta do Gmail, isso é software como serviço. Se você tem uma agência do Banco do Brasil em qualquer lugar do mundo, você tem um único host provendo aquele software. Também é um software provido ali como serviço. Software público pode ser provido como serviço, o Chile tem um exemplo fantástico chamado Simple onde ele oferece a todas as agências governamentais, em nível de município e província, o governo federal, uma ferramenta que pode sim ser compartilhada nos moldes do Portal do Software Público, que fazemos, que é entregando uma cópia pra ele instalar numa infraestrutura própria, ou o governo federal provendo uma infraestrutura pra todo o povo chileno a partir de um único host. Isso diminui gasto, possibilita intercâmbio de software de um modo muito mais eficaz e possibilita muito mais políticas públicas amparadas por um único software. Então o software público ele não aparece explicitamente na EGD, mas ele aparece na linha de que serviços devem ser prestados ao cidadão de modo eletrônico. Ora, serviço eletrônico se presta por software. Software pode ser público, privado ou um software de governo, que é uma outra vertente que a gente também tem amparado. Por exemplo, o SEI é um software de governo que ele ampara uma política pública de conversão de documentos em documentos digitais, favorecendo uma série de atos de eficiência do governo. Mas o SEI jamais seria um software público no modelo atual, porque ele tem um registro no INPI mas ele não é compartilhável de modo livre. Mas ele é compartilhado entre agências governamentais sem nenhum problema. E onde que vai ser o pulo do gato? Quando ele se tornar um software como serviço. Nós temos hoje 130 propostas firmes de utilização do SEI no governo federal, 14 órgãos utilizando e se eu continuar utilizando, disseminando na modalidade atual, que é entrega de código, montagem de infraestrutura, além de estar fazendo isso com um custo muito maior, eu tenho um ritmo muito lento. A partir do momento que eu faço provimento como serviço, ou seja, em Serpro, Dataprev ou qualquer outra empresa, eu consigo atingir os 140 e o 141º eu brinco, na segunda-feira. Está disponível. É isso que o Chile fez com oito softwares públicos. Nós temos 70 hoje no Portal. Chile elegeu uma prioridade e não uma lista de desejos e elegeu oito, onde oito softwares públicos são disseminados e avaliado quantidade de cidadãos beneficiados, valor, recurso público economizado. Então gosto muito da experiência chilena e o Portal do Software Público se insere no contexto da EGD dessa forma que te falei.

Então a tendência, vocês devem começar a trabalhar com software como serviço.

Sem dúvida. Sem dúvida. Não há pessoal no governo e não há perspectiva de aumento de pessoal no governo pra continuar espalhando infraestrutura de tecnologia como temos hoje. Nós temos prédios na Esplanada com duas salas-cofres. Isso é inconcebível prum cidadão.

Como no Ministério da Cultura e Meio Ambiente.

Pois é. Nós temos agências únicas de governo que ela mesma tem duas salas-cofre, teu caso ainda são duas. Agora, se nós formos pro mercado, vamos ainda falar de Serpro e Dataprev, nós temos datacenters disponíveis a preços competitivos. Se nós formos pro mercado privado, aí o céu é o limite. Como eu te falei, há países que não abrem mão da sua soberania, da sua segurança da informação e que aceitam rodar 40% dos seus softwares numa nuvem que é localizada num país que deixou claro pro mundo inteiro que ali a segurança da informação é importante pra ele. Mas houve motivos pra esses países continuarem mantendo essa ideia. Não estou dizendo pra fazer isso, não, mas tem meio-termo aí. Essas empresas hoje têm datacenters em territórios nacionais, têm oferecido preços competitivos e, a partir do momento que declararmos a vocação de Serpro e Dataprev, e declararmos também o que não é vocação de Serpro e Dataprev, haverá espaço pra todo mundo porque o custo ao cidadão vai ser menor. E custo é uma variável interessante, porque uma pessoa de 7 anos compreende, de 70 anos compreende. E não vem que não tem, que você vai vender pro cidadão que “olha, eu estou te cobrando 10 vezes mais, mas é pra preservar a sua segurança”. Tsk, tsk, tsk. Cidadão quer menos impostos e mais serviços e essa equação não fecha se a gente não abrir a nossa cabeça.

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