Ética Hacker e o WikiLeaks

Depois dos ataques ao site da MasterCard, e a outras instituições que cortaram relação com o site WikiLeaks, a palavra “hacker” caiu mais uma vez nas graças da grande imprensa e do público em geral. Normalmente associada a criminosos, dessa vez veio associada a “ativistas”. Melhorou, não dá pra negar.

Mas aí me lembrei de uma definição da ética hacker que li recentemente no livro “hackers – the heroes of the computer revolution”, e achei bom trazer a tona:

“Access to computers – and anything that might teach you something about the way the world works – should be unlimited and total. Always yield to the Hands-On imperative!”

Ou em uma tradução livre:

“O acesso a computadores – e qualquer coisa que possa te ensinar algo sobre como o mundo funciona – deve ser total e irrestrito. Sempre dê preferência a Mão na Massa”

Ou seja, o conhecimento não deve ser tratado como se fosse um bem escasso – aquele tipo de bem que eu se eu pego o seu você fica sem. O conhecimento e as ferramentas para se adquirir conhecimento devem ser acessíveis a todos.

No ensino de ciências da computação, priorizar a “mão na massa” significa priorizar o acesso do aluno/pesquisador/moleque-curioso ao computador, para que ele possa experimentar. O acesso não deve ser mediado e dificultado por “especialistas” que devem “ensinar” o que fazer e o que não fazer com aquele aparelho. É com a mão na massa que o aprendizado se dá. E é com acesso total e irrestrito que se formam as pessoas mais criativas e capazes de inovar.

Trazendo para o paralelo da informação jornalística, hoje não queremos apenas as informações que os governos ou empresas acham por bem divulgar. Tão pouco nos interessa ter apenas o olhar filtrado e comprometido da grande imprensa. Queremos e devemos ter acesso a íntegra dos fatos que impactam diretamente nossa sociedade – e a partir deles ser capazes de saber o que é e o que não é relevante. E por fim, com ou sem ajuda de mediadores (jornalistas, blogueiros, jardineiros ou djs…) interpretá-los.

Hands On.

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Ética Hacker e o WikiLeaks

Entre a cultura popular e a indústria da cultura

Hoje saiu um texto do Luiz Carlos Barreto na Folha de São Paulo criticando o Ministério da Cultura. Queria analisar rapidamente alguns pontos de sua fala:

(Queremos) Um ministério que preserve e alimente fontes da cultura popular, artesanato, tradições culinárias, festas, folguedos e folias populares, e também voltado para a produção de bens artísticos e culturais de forma planejada e sistêmica, que leve a indústria cultural à autossustentabilidade.

E mais adiante

(A questão é ver) quem quer e tem competência para liderar e implementar uma nova política cultural, abrangendo do Brasil do zabumba ao Brasil da fibra ótica.

Ontem, para a coluna da Mónica Bergamo, ele defendeu que “tudo o que diz respeito às indústrias culturais passe
a fazer parte do Ministério da Indústria e do Comércio”.

Antes de mais nada, devemos dizer que ele faz parte do grupo que foi mais afetado pela mudança de política do MinC desde que Gil assumiu a pasta. Antes o MinC era um balcão de financiamento para grandes projetos, e se transformou num potencializador de ações culturais diversas em todo o país. Com a descentralização da distribuição dos recursos e uma postura mais ativa no sentido de desenvolver mais iniciativas culturais os grandes nomes perderam boa parte dos seus recursos.

A Carta Capital deu uma capa, em 2006, com Gil rebatendo as críticas do que ele chamou de “classe dominante” da cultura. Você pode conferir um trecho da entrevista aqui.

Mas nem era isso que eu queria falar. Eu só queria apontar o óbvio da miopia do Barretão. Aparentemente, para ele não existe nada entre a cultura popular e a indústria da cultura. Segundo ele o ministério deve continuar mantendo as culturas tradicionais e investindo no desenvolvimento da indústria. De um lado, a manifestação espontânea, descolada de qualquer atividade comercial, e de outro a indústria que gera empregos e movimenta a economia.

Ele não enxerga o universo que existe entre esses dois pontos que ele coloca, e que é justamente o universo em que o MinC vem atuando com muita força. Para o MinC de hoje, zabumba e fibra ótica não fazem parte de mundos opostos. Ao contrário, a fibra ótica potencializa a ação do zabumba, não só como manutenção de tradições, mas como instrumento inovador, tanto do ponto de vista estético, como do ponto de vista de possibilidades econômicas para a cultura.

Não é a toa. A tecnologia tem papel fundamental nesse caminho de libertar os produtores culturais do processo industrial. Durante quase todo o século XX, por culpa dos suportes físicos e caros meios de produção (discos, câmeras, luzes, etc)  a cultura teve que ser produzida dentro de um processo industrial, e acabou-se criando um entedimento de que poderia ser um produto como qualquer outro que a indústria produz. Mas não é. A cultura é distinta, e o MinC atual entende isso. Hoje em dia cada vez menos existe a necessidade de suporte físico para a cultura, e os meios de produção e distribuição estão cada vez mais baratos.

O que vemos hoje em dia com o início da inpependência da cultura em relação a indústria é a busca de alternativas econômicas e a criação de novos mercados para a cultura. Em todas as áreas temos muitos exemplos de sucessos e fracassos. Mas o fato é que o modelo industrial não é mais o único modelo viável.

Entre a cultura popular e a indústria da cultura