Por que devemos continuar indo para as ruas

Pelos vinte centavos.

Sim, ontem foi lindo, e todo mundo, inclusive eu, disse que era por muito mais do que vinte centavos. Mas agora precisamos focar nos vinte centavos.

Precisamos ganhar essa briga para abrirmos as portas para as próximas.

Os vinte centavos não são pequenos, nem do ponto de vista econômico, nem do político.

Não é pouco porque, como já disse o prefeito, a conta não fecha. E não fecha mesmo. Por isso é preciso que se invente outra conta.

Ganhar a briga dos vinte centavos significa abrir espaço no governo para se pensar uma mudança profunda nas prioridades políticas. Sabemos que tem dinheiro. Sabemos que os subsídios para o transporte particular são muito maiores que os para o transporte público. Sabemos que as contas hoje são uma caixa-preta. Sabemos que há solução, mas que pra isso é preciso muita vontade e coragem política pra mexer com um monte de gente que está acomodada em um modelo muito bem estruturado e confortável.

Ganhar essa briga significa abrir um novo modelo de criação de políticas públicas, com ampla participação da sociedade, indicando caminhos e apontando problemas.

Precisamos ganhar essa briga, sem dispersar, sem cair em um movimento genérico de indignação, facilmente apropriado por todas as parcelas da sociedade, das mais radicais as mais conservadoras.

Temos que ir em frente.

Pelo passe livre! Pela revogação do aumento das tarifas!

Por que devemos continuar indo para as ruas

Por que eu vou pra rua segunda-feira

Não é somente pelo aumento de vinte centavos na passagem, isso já ficou claro, e espero que tenha ficado claro para todos.

Por que então? A resposta mais fácil é uma indignação generalizada com a forma como as coisas vem sendo feitas no Brasil há anos: a corrupção que parece fazer parte da nossa cultura e do jeitinho brasileiro, o mensalão petista, a privataria tucana, os gastos absurdos e as desapropriações desumanas para a Copa e Olímipiadas, os péssimos serviços públicos que recebemos em troca de altos impostos, enfim, a lista poderia seguir indefinidamente.

Mas não sei se é uma boa estratégia essa de sair esbravejando com objetivos tão genéricos e dispersos. Por isso elejo meus dois principais objetivos. Claro que tudo está relacionado, mas precisamos começar por algum lugar.

Chegamos a um ponto em que pequenas mudanças não adiantam mais. Precisamos de uma transformação profunda na raíz de como as coisas funcionam nesse país.

Transformação do Transporte Público

O estopim para essas manifestações foi esse, e acho que devemos mantê-lo como primeiro objetivo. Em São Paulo essa não é uma questão somente econômica. Se locomover em São Paulo, seja a pé, de transporte público ou de carro, é um martírio. Quando as pessoas saem de manhã de casa para o trabalho, saem para um campo de guerra.

Eu não estou interessado em pequenos ajustes ou esforços para manter a tarifa mais baixa. Eu quero ver uma mudança estrutural na forma como o transporte público coletivo é gerenciado. Se a conta não fecha, que inventem outra conta. Por exemplo, o transporte individual recebe isenções e subsídios da ordem de R$ 16 bilhões por ano, enquanto o transporte coletivo recebe R$ 2 bilhões. Não me venham dizer que não tem dinheiro, é questão de prioridade e vontade política.

E quero mais, quero uma cidade para pessoas, não quero uma faixa de corredor de ônibus, quero duas ou três. E quero uma ciclovia. Quero que vire de ponta cabeça o modelo atual em que o carro tem prioridade total. Quero calçadões e quero parques. Quero o fim dessa especulação imobiliária que privatiza o espaço público e promove a gentrificação.

Reforma Política

Quero uma reforma política profunda. Quero o fim da imunidade parlamentar, do foro privilegiado, quero que os votos dos parlamentares sejam abertos. Quero o financiamento público das campanhas, para acabar com a relação promíscua entre grandes interesses privados e os governantes. Quero transparência total do governo.

Quero a redução dos salários dos políticos, que eles mesmo aumentam desrespeitando a população. E quero o fim da infinidade de benefícios que eles têm. Quero que a carreira política se torne totalmente desinteressante para esse monte de sangue-sugas que temos hoje em dia em todas as esferas do governo.

Para as ruas

Com essas bandeiras que vou sair amanhã. Saio também para combater pacificamente e denunciar a violência da Polícia Militar. E saio, triste, sabendo que essa é uma briga não só com os governantes, mas com boa parte da população, especialmente a população paulistana, que não entende nada do que está acontecendo e acha que está tudo bem.

Por que eu vou pra rua segunda-feira