2.4.1 Cuidados ao comparar as iniciativas internacionais com a realidade brasileira

Ao compararmos as experiências internacionais com as brasileiras, é preciso ter alguns cuidados. Em primeiro lugar em relação à diferença de possibilidades que temos no país, seja por restrições legais, seja por restrições de oferta de serviços. Em segundo lugar, em relação a diferença na realidade de adoção das tecnologias de informação pela população como um todo, já que no Brasil ainda temos um alto índice de exclusão digital1.

As duas experiências narradas contaram com modelos de contratação muito diferentes dos modelos brasileiros. As possibilidades de contratação de consultores e as modalidades de contratação de empresas de TI não é passível de comparação com a legislação brasileira. É preciso entender quais problemas queremos enfrentar e termos claras algumas premissas para resolvê-los, mas não se pode querer implementar a mesma solução da mesma maneira, mas sim encontrar os melhores caminhos dentro da nossa realidade.

Um fator muito importante, que aparece tangencialmente nas recomendações oficiais, em especial nas estadunidenses quando cita a computação em nuvem, é a utilização de serviços e infraestrutura comerciais para uma série de tarefas importantes para os projetos. Serviços de hospedagem, como a Amazon Web Services (AWS), ou de monitoramento e geração de estatísticas como o NewRelic e o Google Analytics, são peças fundamentais no funcionamento de praticamente todas as startups e são também recomendados e utilizados pelas experiências governamentais que narramos neste capítulo.

A AWS, por exemplo, permite que os desenvolvedores contratem infraestrutura de hospedagem pra serviços digitais que escala automaticamente caso a audiência cresça. Esta característica “elástica” deste serviço reduz brutalmente os custos com servidores, já que o gasto é sempre proporcional a demanda de acesso. Além disso, simplifica drasticamente o trabalho de manutenção da infraestrutura, já que isso está coberto pelo serviço contratado.

A contratação de um serviço de hospedagem comercial também dá autonomia para a equipe de desenvolvimento fazer o lançamento de novas versões do software e permite correções rápidas para eventuais problemas. É o que possibilita que as iterações de desenvolvimento, testes e lançamentos sejam o mais curtas possíveis, sem o gargalo de uma segunda equipe de infraestrutura que irá impor seus procedimentos e prazos para cada lançamento2.

A falta de opção na contratação de serviços de infraestrutura foi um problema relatado por todos os entrevistados dessa pesquisa e aparece explicitamente nos estudos de caso que apresentaremos no próximo capítulo. Não existe no Brasil, segundo os entrevistados, tradição de o governo contratar serviços comerciais de hospedagem. Apesar de existirem serviços semelhantes ao AWS, ainda que de qualidade inferior, não são comuns licitações nessa área. Normalmente os órgãos hospedam suas soluções ou em infraestrutura própria, ou em infraestrutura contratada pelas empresas públicas de TI, que oferecem serviços ultrapassados se comparados ao que já existe no mercado, e sempre a um valor bastante superior.

Já os serviços de geração de estatísticas e monitoramento de servidores permitem aos desenvolvedores terem informações para balizar as decisões do projeto, e também para agirem com rapidez caso seja identificado algum gargalo de performance, erro ou necessidade urgente de melhoria. Para estes, não há similares no Brasil.

A utilização e a fundamentação de serviços nacionais em ferramentas estrangeiras é inviabilizado não só por questões processuais, da incapacidade de contratá-las, como por questões políticas e econômicas, afinal é natural que o governo americano considere positiva a contratação de empresas de seu país pelo governo. Já o governo brasileiro não pode ficar dependente de serviços estrangeiros, principalmente no que diz respeito a infraestruturas de hospedagem.

Finalmente, ao desenvolver o portal Gov.UK, o governo britânico trabalhava com uma realidade de 82% da população conectada na Internet3. No Brasil, a última pesquisa realizada pela cetic.br4 mostra que apenas 50% dos domicílios possuem acesso a internet. Esse número diminui para 35% na região Norte e para 22% nas áreas rurais5. Portanto temos uma realidade completamente diferente da britânica no que diz respeito a acesso da população a internet e isso deve ser levado em consideração ao desenvolvermos novos serviços.

Feitas essas ponderações em relação à diferença da realidade brasileira em relação às experiências internacionais estudadas, passaremos a construção de um quadro próprio de recomendações de práticas a serem adotadas pelo governo brasileiro no desenvolvimento de seus serviços digitais.

1Pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo cetic.br. Disponível em <http://data.cetic.br/cetic/explore?idPesquisa=TIC_DOM>. Acessada em 23/10/2015

2A esta metodologia que integra desenvolvimento e operação de infraestrutura dá-se o nome de SysOp.

3Government Digital Strategy do GDS britânico. Disponível em <https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/296336/Government_Digital_Stratetegy_-_November_2012.pdf>. Acessado em 18/10/2015

4Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, atuando sob os auspícios da UNESCO, órgão ligado ao Comitê Gestor da Internet do Brasil.

5 Pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo cetic.br. Disponível em <http://data.cetic.br/cetic/explore?idPesquisa=TIC_DOM>. Acessada em 23/10/2015

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