2.1 Melhores práticas no mercado – as startups enxutas

O termo “lean startup” (startup enxuta), cunhado pelo autor norte-americano Eric Ries (2012), se refere a um modelo de administração baseado na aprendizagem contínua. O nome foi inspirado no modelo de produção criado na Toyota por Taiichi Ohno e Shigeo Shingo. Este modelo, aplicado na indústria automobilística, tinha como uma das principais características a “eliminação dos desperdícios técnicos e sociais, com especial atenção ao uso inadequado da força de trabalho na produção” (NOGUEIRA, 2007, p. 20) e introduziu o conceito da produção “just in time” (ou na hora certa), que define o ritmo de produção e reposição do estoque a partir da demanda.

Este modelo “just in time” baseia-se no exemplo das prateleiras de supermercados, que são abastecidas e, conforme os clientes vão comprando os produtos, são reabastecidas no mesmo ritmo. Ou seja, o ritmo do consumo condiciona a organização da produção.

Quando voltamos à realidade de desenvolvimento de produtos de tecnologia por startups, que Ries (2012) define como “uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza” (p. 24), vemos que esses empreendimentos normalmente não tem estoque, ou que lidar com uma rede de fornecedores complexa como a de uma indústria automobilística. No entanto, o trabalho super qualificado de desenvolvedores e designers passa a ser o principal ponto de atenção em relação ao desperdício. Para otimizar ao máximo estes recursos, o modelo enxuto proposto por Ries (2012) sugere que um produto, ou uma funcionalidade específica de um produto, só deve ser desenvolvida quando a demanda e o valor do produto estão comprovados.

O autor sugere um contraponto às estratégias tradicionais de novos empreendimentos, que compreendem planos de negócio, pesquisas de mercado, grupos de foco e outras metodologias.

Cada plano de negócios começa com um conjunto de suposições. O plano traça uma estratégia que considera essas suposições verdadeiras e prossegue mostrando como alcançar a visão da empresa. Como não se demonstrou que as suposições eram verdadeiras (são suposições, afinal), e, na realidade, muitas vezes são falsas, o objetivo dos esforços iniciais de uma startup deve ser testá-las o mais rápido possível. (RIES, 2012, p. 74).

A abordagem enxuta defende que, ao desenvolver um novo produto, um empreendedor possui algumas hipóteses que devem ser testadas o mais rapidamente possível e com o menor esforço possível. A partir de um produto mínimo viável, capaz de testar uma hipótese, deve-se coletar feedbacks de clientes reais e coletar o máximo de informações e estatísticas possíveis. Com esses dados em mãos, aprende-se mais sobre o produto e decide-se o que será modificado e o que será mantido para o próximo ciclo de construção, avaliação e aprendizado.

Para ilustrar essa abordagem, Ries (2012) se utiliza de uma série de exemplos, dentre eles o da empresa Zappos, uma grande loja virtual de sapatos. Criada por Nick Swinmurn, ela começou como um experimento. Em vez de investir em pesquisas de mercado, acordos com fornecedores e distribuidores, depósitos e outros requisitos, que demandariam uma promessa de um volume de vendas significativos, Swinmurn começou com um experimento. Sua hipótese era que já havia bastante pessoas dispostas a comprar sapatos online. Para testar essa suposição, ele fez um acordo com lojas de sapatos locais, pedindo permissão para fotografar seu estoque. Em troca, ele voltaria para comprar os sapatos na loja, pelo preço normal de varejo, caso algum cliente o comprasse em sua loja online.

Ao testar essa hipótese, e comprovar que, de fato, havia pessoas dispostas a comprar sapatos online, Swinmurn acabou testando outras suposições, como a importância da interação com o cliente, e aprendeu muito mais sobre o público e seu próprio negócio. Ries (2012) destaca três vantagens dessa abordagem em detrimento de uma abordagem de pesquisa de mercado tradicional:

  1. Coleta de dados mais precisos acerca da demanda do cliente, pois observa o comportamento do cliente real em vez de formular perguntas hipotéticas;

  2. Coloca-se em posição para interagir com clientes reais e aprender a respeito de suas necessidades. Por exemplo, o plano de negócios podia recomendar preços com desconto, mas como a percepção dos clientes do produto é afetada pela estratégia de desconto?

  3. Permite-se ser surpreendido quando os clientes se comportam de maneiras inesperadas, revelando informações que a Zappos talvez não soubesse o suficiente para perguntar a respeito. Por exemplo: e se os clientes devolvessem os sapatos?

Este processo de aprendizagem baseada em experimentação e dados reais é chamado de aprendizagem validada:

É fácil se iludir a respeito do que você acredita que os clientes querem. Também é fácil aprender coisas que são totalmente irrelevantes. Portanto, a aprendizagem validada é respaldada por dados empíricos coletados de clientes reais.” (RIES, 2012, p. 44). “Essa é a verdeira produtividade da startup: descobrir de modo sistemático as coisas certas para desenvolver. (RIES, 2012, p. 46)

O autor também reforça que esta abordagem não diz respeito apenas a desenvolvimento de software. “No modelo da startup enxuta, cada produto, cada funcionalidade, cada campanha de marketing – tudo que uma startup faz – são entendidos como um experimento projetado para alcançar a aprendizagem validada” (RIES, 2012, p. 50).

Esta abordagem vai de encontro ao conceito de estratégia apresentado por Edgar Morin (2005) ao refletir sobre a complexidade e as empresas. Morin (2005) faz uma oposição entre programa e estratégia. Programa, na visão do autor, é uma sequência de ações predeterminadas que deve funcionar em circunstâncias que permitem sua efetivação. Se as circunstâncias externas não são favoráveis, o programa se detém ou fracassa.

De outro lado, a estratégia elabora um ou vários cenários e está sempre preparada para o novo ou inesperado. A estratégia absorve o inesperado e se modifica.

Para se definir uma estratégia, leva-se em conta uma situação aleatória, elementos adversos, até mesmo adversários, e ela é levada a se modificar em função das informações fornecidas ao longo do caminho, ela pode ter uma flexibilidade muito grande. Mas para que uma organização desenvolva uma estratégia, é necessário que ela não esteja concebida para obedecer à programação, que possa absorver os elementos capazes de contribuir para a elaboração e o desenvolvimento da estratégia. (MORIN, 2005, p. 90)

As experiências dessas startups geraram uma série de metodologias que ditaram um novo ritmo a inovação. A partir de uma série de softwares livres disponíveis, e com metodologias ágeis de desenvolvimento, grandes inovações conseguem sair do papel para o mercado em muito pouco tempo. A seguir apresentaremos o que são essas metodologias ágeis de desenvolvimento de software.

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