Economia p2p extrema

Eu não podia deixar de escrever sobre isso. Semana passada aconteceu algo extraordinário. Um desses momentos que poderão ser citados por muitos historiadores em um futuro não muito distante quando forem falar da evolução da economia em uma sociedade conectada.

Aconteceu em Amsterdam, de 4 a 6 de abril, a “International EPCA Conference”, com o tema “pagamento digital”. É uma conferência direcionada para banqueiros e outros profissionais do sistema financeiro que discutiu novidades no setor, como pagamentos online, via celular e etc.

Para essa conferência, repleta de senhores e senhoras bem vestidos, convidaram o jovem Amir Taaki (conhecido como Gengix – que, aliás, já esteve com a gente aqui em São Paulo ) para falar sobre o Bit-Coin, um revolucionário sistema de moeda digital p2p.

Assistindo ao vídeo de sua fala, acredito que boa parte da audiência estava pensando que este rapaz deveria estar preso, e não dando palestras. Veja esse depoimento:

“… um sistema de moeda digital anônimo e com seu prõprio serviço de lavagem de dinheiro. Usado para vender drogas. Bit-coin, você me animou!” — Michael Price

Por ter sido um momento de choque de gerações e culturas tão intenso que nenhum dos dois lados realmente entendeu o que se passou, é que achei esse momento tão extraordinário. Mas vou explicar melhor.

Um pirata em meio a comerciantes

Imagem de um dos slides de Amir e da platéia

Imaginem um rapaz chegar na frente de dezenas de banqueiros e abrir um slide com fotos de manifestações contra bancos e falar “as pessoas estão muito insatisfeitas com os bancos”. Depois seguir o raciocínio na direção de que devemos evoluir para um modelo onde não precisamos mais de bancos, já que esses são apenas intermediários que enriquecem as nossas custas. Foi isso que aconteceu.

Gengix é um hacker, não é nenhum palestrante desenvolto. Você percebe que ele está tentando fugir de termos técnicos e falar para uma platéia leiga em tecnologia, mas não consegue completamente. Por outro lado, a franqueza da sua fala cativa a plateia e prende sua atenção até o fim.

Franqueza que fica evidente até quando ele expõe as facetas mais controversas do sistema e suas motivações para trabalhar no projeto. Como o Bit-Coin garante privacidade total nas transações, ele já está sendo usado para vender drogas em alguns lugares – e Amir expõe isso sem nenhum alarde. Sobre suas motivações, ele exalta o Gambling (jogos de apostas) e reclama das fortes regulações a que sites de jogos desse tipo são submetidos.

Se fosse eu apresentando, não seriam esses aspectos que iriam ser destacados. Acho que o potencial de uma moeda p2p é infinitamente maior, especialmente por possibilitar micro-pagamentos entre indivíduos de qualquer parte do planeta, revolucionando a maneira como estamos acostumados a lidar com dinheiro. Afinal, uma moeda só tem valor se um grupo de pessoas concordarem que ela tem. É apenas uma questão de mais  e mais pessoas concordarem que o Bit-Coin tem valor e o aceitarem como pagamento por seus produtos e serviços.

Na minha opinião, essa troca de pequenas quantidades de dinheiro entre pessoas, seja bit coin, dollar ou qualquer outra moeda, é o que vai virar a mesa da produção criativa, que já existe hoje na internet na forma de blogs, músicos independentes, fanzines, enciclopédias, fotógrafos, etc. Com a troca p2p de dinheiro, essas pessoas realmente poderão ganhar a vida fazendo seu trabalho de forma totalmente independente, sem ter que recorrer a outros meios para monetizar sua produção – como publicidade ou acordo com grandes editoras.

Mas afinal, o que é Bit-coin:

Bit coin é uma moeda digital p2p (peer to peer). Isto é, uma moeda (currency) que não depende de nenhum intermediário, como bancos. Toda transação é feita diretamente entre os pares.

Assim como no compartilhamento de arquivos p2p, que não depende de um servidor central, a rede é controlada por todos os pares. Cada transação entre duas pessoas é verificada por outros pares na rede.

E quem coloca mais moeda em circulação na rede? Os próprios pares. Como não há um servidor central cuidando de tudo, é essencial que os computadores de todas as pontas da rede trabalhem. Como forma de incentivar as pessas a cederem o processamento do seu computador e sua conexão a internet para trabalharem na manutenção da rede, as pessoas são recompensadas com bit-coins depois que seus computadores desenvolvem determinadas tarefas para a rede. (Existe um modelo matemático complexo e pensado a longo prazo que estipula quanta moeda será criada nos próximos anos, até chegar a um ponto de estabilidade.. para entender mais detalhes técnicos sugiro ler a FAQ e a Introdução ao BitCoin).

O que é importante entender é que é um modelo consistente de uma moeda totalmente descentralizada que garante total autonomia e privacidade as pessoas. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro e é impossível rastrear quem tem quanto ou quem pagou quanto pra quem.

Assim como o p2p escancarou a crise entre artista e editora, e a necessidade de independência do primeiro em relação ao segundo, a rede também traz a tona uma necessidade de mudança no modelo financeiro. Por que, agora que o dinheiro é apenas informação, dependemos de bancos para realizar transações diretamente com outras pessoas? Por que financiamos lucros exorbitantes a essas instituições?

Eu não sei você, mas eu acho indecente, especialmente no Brasil, os lucros dos principais bancos.

O que o Bit-coin propõe é: ao invés de confiarmos em grandes instituições e na polícia para tomarem conta dessas transações, vamos confiar em fórmulas matemáticas de criptografia. Como o código todo é aberto, todos podem estudá-lo e garantir que o sistema é neutro e seguro.

Não sei, e ninguém sabe, como será a evolução do bit-coin. Mas uma coisa eu tenho certeza, caminhamos para um mundo p2p, onde as pessoas terão autonomia de conversar e fazerem trocas diretamente umas com as outras, sem dependência de intermediários. Um modelo como o bit-coin aponta na direção certa. Se não ele, algo muito parecido com ele será nossa forma mais comum de fazer pagamentos no futuro.

Economia p2p extrema