Design da violência

Outro dia estava conversando com uma amiga sobre o meu gosto de andar de bicicleta pela cidade. Ela me dizia que tinha medo e, para se justificar, se usava como exemplo: “se os outros motoristas forem como eu… eu sou muito distraída!”

Isso me fez pensar.

O carro, como o conhecemos hoje, foi meticulosamente projetado para que uma pessoa distraída possa dirigí-lo, com uma mão só, e em segurança. Caso algo fuja do controle, cinto de segurança, airbag, freio ABS, tudo para proteger este pobre distraído.

Os carros são cada vez mais seguros. Mas acho que vale se perguntar: Seguros pra quem?

Busquei no Google por "Carro assassino" aparentemente tem um filme com esse nome
Busquei no Google por “Carro assassino” aparentemente tem um filme com esse nome

 

Ao ver notícias de atropelamentos penso em vidas sendo perdidas por imprudências estúpidas: alta velocidade não intencional, um grampo que caiu embaixo do banco, uma mensagem de texto, uma discussão no celular, a cabeça no mundo da lua… Como é possível que possamos pilotar uma máquina de uma tonelada a mais de 50km/h distraídos com um celular? Algo está errado.

O projeto do automóvel atual é o de uma máquina de simples manuseio, super poderosa, e que protege seu condutor a todo custo, em detrimento da segurança de tudo o que houver a seu redor.

Assim como pessoas distraídas, também podem dirigí-los pessoas embriagadas, sonolentas, despreparadas…

Me parece claro que um veículo como este não é adequado para circular em centros urbanos, onde há um grande adensamento de pessoas. Me parece evidente que o carro é o veículo menos adequado para as cidades. Pelo menos esses carros que conhecemos hoje.

Um projeto de veículo para a cidade não pode levar em conta apenas a segurança do seu condutor, mas de todos a sua volta.

Acho que é uma reflexão válida. É muito comum olharmos para a evolução da tecnologia – e dos carros – como algo puramente técnico e neutro, que segue uma linha contínua do “pior” para o “melhor”. Mas a verdade é que precisamos questionar a orientação básica deste projeto de automóvel, que coloca uma arma e uma armadura na mão de cada motorista, para que eles se protejam uns dos outros, e não levam em consideração a cidade.

Já pensou nisso? Os carros funcionam muito bem para as estradas talvez, mas precisamos abandonar esse projeto para as cidades – ou abandonar as cidades – e pensar como seria o veículo ideal. Menor, menos poluente, menos agressivo, menos barulhento, etc… Não é?

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Design da violência

Reinventando a empresa

Na luta constante de tornar esse planeta um lugar mais decente, vários esforçam se somam: há os ativistas, governos, ongs, coletivos e, também, empresas.

Apesar dessa última ser normalmente vista como a vilã da história, há cada vez mais exemplos de empresas que estão reinventando o sentido normalmente atribuído a uma instituição desse tipo. Tanto do ponto de vista da sua relação com a sociedade quanto da sua gestão interna, existem cada vez mais exemplos de empresas que se preocupam em fazer, através do seu trabalho, uma contribuição que ajude a melhorar a sociedade e, ao mesmo tempo, promovam um ambiente de trabalho justo e saudável.

Diferente das grandes empresas, em que a “responsabilidade social” se baseia em políticas de compensação – eu destruo aqui, mas replanto ali; eu exploro aqui, mas mantenho um projeto social ali – essas novas empresas procuram manter coerência entre seus valores e suas práticas e colocam a sua ação social no centro de sua atividade principal.

Mas será que é mesmo possível promover alguma mudança através de uma empresa? A empresa não é intrinsecamente direcionada ao lucro, e qualquer coisa que a desvie disso será deixado de lado?

Na minha opinião: É possível. Não só é possível mas, dentro do arranjo burocrático que temos hoje no Brasil, é uma excelente opção. Uma empresa não precisa ter como principal objetivo, acima de todos os outros, o lucro. Ela tem que pagar suas contas – mas isso todos nós temos.

Me interessa muito estudar exemplos dessas empresas que vem reinventando a maneira de se trabalhar e de se relacionar com seus clientes, com outras empresas, com os funcionários e com a sociedade.

Para esse novo mundo que começa a dar as caras (com mais colaboração ao invés de competição, com menos desperdício, com mais qualidade de vida, com mais preocupação pelo comum), reinventar a empresa – e por consequência, o trabalho – é fundamental.

Vamos comparar a empresa com algumas outras alternativas:

ONGS

Há um tempo atrás eu escrevi um texto, com tom irônico, sobre uma possível receita de ONG, que normalmente começa com um idealista, passa por uma crise de gestão e sustentabilidade e termina como uma máquina de captação e execução de projetos, emprestando o que há de pior no modelo empresarial.

Via de regra, nas ONGs pequenas luta-se o tempo todo para sobreviver e para conseguir fazer o que se propõe. Os financiamentos são escassos e, quando vem, recusam-se a bancar itens de infra-estrutura (aluguel, telefone, etc) e demandam um grande trabalho administrativo de prestação de contas. Gastar os recursos é complicado, há que se justificar cada centavo para o financiador e, com a energia que resta, finalmente pode-se executar o projeto.

Nesse ambiente de trabalho altamente instável, as pessoas aguentam até o limite da paixão, fazendo com que a rotatividade da equipe seja relativamente alta.

Nas ONGs grandes, a máquina está montada de tal maneira que funciona como uma empresa tradicional. Há o setor administrativo, o setor de captação de recursos, o setor de comunicação… Muitas pessoas, funcionárias, estão ali descoladas de qualquer ideal, mas apenas trabalhando como trabalhariam em qualquer lugar, os setores não se conversam direito e a ONG executa projetos mais ou menos como uma empresa de prestação de serviços – com a diferença que, ao invés de um cliente, tem um financiador que mete o bedelho em cada detalhe e em como o dinheiro é gasto.

Claro que não são todas, grandes ou pequenas, que são assim. Mas esse relato ilustra as dificuldades que existem ao se gerir uma ONG e em como seus gestores ficam rendidos na mão dos financiadores: sem autonomia para gastar o próprio dinheiro e, eventualmente, sem autonomia na elaboração e execução dos projetos.

Governo

Atuar no governo é ao mesmo tempo incrível e horrível.

Incrível porque te dá a possibilidade de executar (ou criar) um política pública de amplo alcance; porque você trabalha com a legitimidade do Estado; porque você tem a oportunidade de fazer com que o governo faça aquilo a que ele se propõe: trabalhar a serviço da sociedade.

Horrível porque você está sujeito a mudanças políticas no alto escalão que, da noite pro dia, podem acabar com o que você está fazendo; porque é muito complicado inovar, tudo o que você fizer tem que ser escalável para toda a extensão de atuação do órgão onde você trabalha – tudo tem que ser mega – e há pouco espaço para experimentação; porque você tem pouquíssima autonomia na execução do orçamento, fazendo a compra de qualquer produto ou serviço simples virar uma verdadeira novela. E, finalmente, porque você tem pouco tempo: até as próximas eleições.

E a empresa?

A empresa tem liberdade de atuação. Pode fazer o que quiser com seu superávit: acumular, reinvestir, distribuir, etc. A empresa não tem que prestar contas sobre suas compras ou contratações. A empresa pode executar os projetos da maneira que quiser. A empresa pode ser transparente, ou pode maquiar seus resultados para os funcionários e sua maneira de trabalhar para os clientes…

É possível fazer um paralelo com o copyleft. Ele nasce como uma alternativa a proteção considerada abusiva do copyright tradicional. Mas para fazê-lo, o copyleft não depende de nenhuma mudança na legislação. No copyright, o autor tem o monopólio para explorar e fazer o que quiser com sua obra. O que o copyleft propõe é: “já que você pode fazer o que quiser, por que você não disponibiliza a sua obra de maneira livre pra que outras pessoas possam usar, desde que levem a liberdade adiante?”. Ao criar uma licença de uso que diz isso, o copyright é usado como meio para se atingir um modelo de livre distribuição, apesar de não ter sido projetado pra isso.

Da mesma maneira, o proprietário de uma empresa tem total autonomia na sua gestão. Como já disse, muito mais autonomia do que um gestor público ou um diretor de ONG. Ele pode seguir buscando o lucro como objetivo primário, fazendo isso explorando o trabalho de funcionários, ou pode propor um modelo de gestão completamente diferente, com outros objetivos e outra maneira de lidar com o superávit. Assim como no caso do autor com o copyleft e o copyright, é tudo uma questão de escolha.

Importante: Não estou dizendo aqui que deveríamos todos abrir empresas ao invés de ongs ou de trabalhar no governo e nem que sou adepto da crença neo-liberal de que o mercado se auto-regula e bom mesmo seria se o governo largasse tudo na mão das empresas. Não! Só estou chamando a atenção para um modelo (a empresa) normalmente ignorado – ou até demonizado – pelos movimentos sociais e ativistas. Uma empresa pode ser, sim, um ótimo modelo de atuação.

Nesse sentido, só depende de nós reinventarmos como uma empresa deve funcionar e quais devem ser seus objetivos primários.

Eu venho experimentando isso na prática na minha empresa, o hacklab, e tenho muito interesse em pesquisar e discutir isso. Aqui  vai uma lista de alguns livros ou experiências. Está longe de ser uma lista completa, mas são coisas que chegaram até mim de alguma maneira e que me interessaram.

Rework – livro do pessoal da 37Signals, que desenvolvem o Ruby on Rails e são responsáveis pelo serviço online BaseCamp. O livro é excelente e propõe muitas rupturas com ideias consolidadas de como uma empresa deve ser gerida e como as pessoas devem fazer o seu trabalho.

Virando a propria mesa – Um incrível relato de como Ricardo Semler implantou, entre outras coisas, um modelo de gestão democrática dentro de uma indústria.

Noded – Uma proposta interessante de organização de freelancers e pequenas empresas para trabalho em rede.

Automattic – A empresa por trás do WordPress.com, tem uma relação fortíssima com o software livre WordPress, responsável por quase 20% de todos os sites na internet, e com o trabalho descentralizado

Development Seed – Empresa americana que trabalha com visualização de dados e mapas. Interessante por que publicam e mantem ferramentas livres e colocam no centro de seu objetivo o trabalho com questões humanitárias.

Esfera – O desafio de, no Brasil, criar uma empresa com um propósito político e ideológico muito específico: Promover a transparência na gestão pública.

My Society – Empresa que desenvolve soluções para organizações sociais, participação democrática, transparência governamental, entre outras coisas.

Itsnoon.net – Empresa brasileira, que começou como ONG, e é um “market place de economia criativa originalmente brasileiro”.

Small is BeautifulEscrevi brevemente sobre ele. Livro de 1973, coloca alguns princípios e narra algumas experiências muito interessantes de empresas que resolveram fazer diferente.

E a listagem de livros seria infinita: Wikinomics, What is mine is yours, The Wealth of networks

Reinventando a empresa

Ensayo Sobre la Colaboración en Red

(original en portugues)

Un grupo de personas se encuentra para compartir experiencias, y en seguida se dan cuenta de que tienen muchas ideas y objetivos en común. El encuentro es intenso, y todos salen de allí decididos a mantener contacto y a colaborar en sus proyectos. Todos vuelven a sus quehaceres y, algún tiempo después, la única colaboración real que consiguieron fue crear una lista de correo electrónico y compartir algunos links interesantes.

¿Usted ya vio algo así alguna vez? Yo sí. Y eso se aplica a congresos, fórums, encuentros de colectividades independientes, de empresas o de cooperativas.

¿Por qué será que uno tiene tanta dificultad para crear canales verdaderos de colaboración, en nuestros proyectos con otras personas? Es más fácil organizar eventos y actividades que estén fuera de nuestro quehacer diario, que involucrar una colaboración externa en nuestro trabajo cotidiano. ¿Cómo crear una red de colaboración que realmente contribuya para el trabajo de cada uno de sus nudos?

En este ensayo quiero explorar un poco la dinámica de las redes de colaboración, aportando una observación de la práctica con redes de desenvolvimiento de Software Libre, que es la más exitosa red de colaboración abierta que existe. Y quédese tranquilo, no es necesario entender nada de software para acompañar la línea de razonamiento.

EL DIBUJO DE UNA RED

Normalmente, cuando dibujamos una red, hacemos así:

De lo que me di cuenta, observando algunas redes de colaboración, es que la colaboración entre nosotros nunca es uniforme y bilateral, como aparece en este dibujo. La mayoría de las veces una parte está contribuyendo con el proyecto de la otra. Lo que me parece es que en realidad existen dos tipos diferentes de conexión entre nosotros. Una conexión de “acción” ( ) que colabora con otro nudo (ayudándolo en su proyecto, haciendo un donativo, enviando informaciones, etc.), y una conexión de “recepción” ( ), que crea un canal de colaboración para que otros nudos lo ayuden. El dibujo quedaría así:

Tengo la impresión de que los nudos que ponen el mayor esfuerzo en crear una conexión de “recepción” tienen más éxito en recibir colaboraciones que actúen directamente sobre su trabajo, porque colaborar con ellos requiere un esfuerzo menor.

Como dije, vamos a empezar con el ejemplo del Software Libre.

HACIENDO SOFTWARE LIBRE

Al contrario de lo que mucha gente pueda pensar, hacer un software libre no significa apenas poner el software y su código fuente a disposición, libremente. Si usted sólo quiere que las personas usen su software, puede ser que eso funcione, pero si usted quiere que otras personas colaboren con su desenvolvimiento, entonces precisa mucho más que eso.

Estas son algunas de las cosas que un desenvolvedor de software libre tiene que hacer si quiere recibir colaboración de otros desenvolvedores:

Mantener el código bien actualizado y documentado

Mantener un sitio para el software, con links para descargar, documentos, y un canal de soporte

Mantener el código en un repositorio público, para que otros desenvolvedores tengan acceso

Internacionalizar el software, para que funcione en diferentes idiomas

Si no hace nada de eso, su software va a funcionar igual. Usted resolverá su problema, y hasta puede permitir que otras personas usen su solución, pero es muy difícil que alguien consiga colaborar. Y esas acciones dan bastante trabajo. Hasta se puede decir que, en algunos casos, un desenvolvedor puede gastar más tiempo creando todas estas estructuras de colaboración (canales de recepción) que realmente programando.

O sea, hacer un software libre da mucho más trabajo que apenas hacer un software; ése es el punto llave.

Bueno, basta de hablar de software; volvamos a las redes de colaboración en general.

DESCOMPLICANDO LA COLABORACIÓN

Si no existe una manera clara de colaborar con un proyecto, será muy difícil que ocurra alguna colaboración, aunque existan personas interesadas en hacerlo. Cuando hay un canal claro y facilitado de colaboración, éste atraerá colaboradores.

El otro día descargué un disco que el músico mismo lo ponía a disposición en su sitio. Era un excelente disco, y me quedé con muchas ganas de retribuirle su trabajo de alguna manera. ¿Pero cómo hacerlo? No lo conozco, no sé dónde vive, no sé su dirección de correo electrónico… Claro que podría encontrar una manera de ubicarlo, pero la dificultad del camino que debería seguir me desanimó, y al fin quedó por eso mismo.

En otro caso semejante, el músico informaba en el sitio una cuenta bancaria. Como la cuenta no era de mi banco, yo no quise pagar las tasas de transferencia. Realmente quería hacerle un donativo, pero no al punto de ir a una agencia y enfrentar una fila para donar lo que costaría un CD.

En el primer ejemplo, el músico, a quien seguramente le gustaría ganar por su álbum, no abre ningún canal de colaboración. En el segundo, abre un canal muy estrecho.

De mi pereza para mandar un correo electrónico al primero, y de ir a una agencia bancaria al segundo, aprendemos una lección: a todos nos gustaría colaborar con otras personas, pero lo haremos en la medida que eso no requiera un esfuerzo desproporcional de nuestra parte.

Pero eso no quiere decir que un traductor, por ejemplo, va a colaborar solamente con traducciones fáciles y rápidas. Lo que eso quiere decir es que ele sólo va a colaborar con proyectos en los cuales llegue rápidamente y sin complicaciones a lo que sabe y le gusta hacer: traducir. Si tiene que mandar un correo electrónico, para hablar con alguien, que le va a mandar un texto en un mal formato, y no está claro lo qué ni cómo tiene que traducir, eso lo va a desanimar. Pero, si existe un proceso claro, en el cual él encuentra rápidamente lo qué y cómo traducir, para dónde enviar, etc., lo hará con placer.

Basta echar un vistazo en las redes de traducción de películas y series extranjeras, que publican sus trabajos en sitios como el “legendas.tv”. Si alguien quiere colaborar con alguna traducción, existe un proceso muy claro de cómo hacerlo.

De la misma forma, un traductor que no sea programador, consigue colaborar con la traducción de softwares libres, sin complicarse, por medio de sitios que ponen a disposición herramientas muy simples para que las personas vayan traduciendo frase a frase.

Con estos ejemplos, incluyendo el de software libre, vemos que las principales funciones de esos canales de recepción son:

Minimizar el esfuerzo necesario para que un colaborador entre en la red (dejando claros los caminos, y tornando fácilmente accesibles todas las informaciones necesarias), y

Potencializar la colaboración, dejando que el colaborador coloque el foco en lo que sabe y le gusta hacer; el programador va a gastar la mayor parte de su energía programando, el traductor traduciendo, y así sucesivamente.

MÁS EJEMPLOS

Hay otros ejemplos fuera de la red de computadores, y me encantaría, con la ayuda de otras personas, rellenar este artículo con casos que no dependen de la internet.

El Ejército de Salvación es un ejemplo extremo; tal vez no en la creación de redes, pero sin duda en la capacidad de crear un canal de recepción. En determinado momento, ellos se dieron cuenta de que donativos de muebles, ropas y utensilios usados, y la venta de de esos objetos en bazares de caridad era una buena fuente de renda para financiar sus trabajos.

Hacía mucho tiempo que ellos tenían ese canal de recepción, que era una forma de recibir donativos. Hasta que, en cierto punto, ellos resolvieron ampliar aún más ese canal, creando toda una estructura para atender, y para recoger de donativos. ¿Qué canal de recepción mejor que ese? Librarse de un sofá viejo puede ser un problema y costar caro, o usted puede llamarlos y ellos vienen a retirarlo en su casa. Usted colabora con ellos, pero en realidad ellos también lo están ayudando.

Claro que mantener esa estructura de atendimiento, camiones, cargadores, etc., también cuesta caro, pero seguramente el número de donativos aumentó lo suficiente como para justificar la inversión.

El foco de trabajo del Ejército de Salvación no es retirar donativos y hacer bazares. Todo eso fue un esfuerzo para crear un poderoso canal de recepción de colaboración.

CONCLUYENDO

Ustedes se habrán dado cuenta de que no incluí, en este ensayo, un punto fundamental para la colaboración: la motivación. Algunas personas colaboran por placer, otras por status, otras por dinero, otras por ideales… Sea cual sea la motivación, es irrelevante para este análisis, que considera que ya tenemos una red de individuos motivados pero que, así mismo, no siempre tiene éxito, por falta de canales de colaboración.

Mi objetivo aquí fue explorar esos dos tipos de conexión en una red de colaboración, y sugerir que es a partir de los canales de recepción que una red de colaboración se forma. No sirve de nada tener una red llena de gente dispuesta a colaborar si no hay canales claros de colaboración. (Claro que existirán excepciones, y que colaboraciones espontáneas ocurren. Pero aquí me refiero colaboraciones constantes y recurrentes).

Crear esos canales de recepción da trabajo. En algunos momentos hasta puede parecer improductivo desviar esfuerzos de sus problemas para construir esos canales, pero ellos son esenciales para que ocurra la colaboración. Encontrar el equilibrio entre ejecutar el trabajo diario y, al mismo tiempo, invertir energía en la infraestructura de colaboración, es el desafío a ser vencido si queremos realmente trabajar en red.

— Tradicion para español por Maynar Patricia Vorga Leite y Ana Campo. gracias eiabel lelex

Ensayo Sobre la Colaboración en Red

Ensaio sobre a colaboração em rede

(version en español, traduzida por Maynar Patricia Vorga Leite y Ana Campo. gracias eiabel lelex!)

Um grupo de pessoas se encontra para compartilhar experiências e logo percebem que tem muitas ideias e objetivos em comum. O encontro é intenso e todas saem de lá determinadas a manterem contato e colaborarem em seus projetos. Todas voltam para os seus afazeres e, algum tempo depois, a única colaboração real que conseguiram foi criar uma lista de emails e compartilhar alguns links interessantes.

Você já viu isso acontecer? Eu já. Muitas vezes. E isso se aplica a Congressos, Fóruns, encontros de coletivos independentes, de empresas ou de cooperativas.

Por que a gente tem tanta dificuldade em criar canais reais de colaboração em nossos projetos com outras pessoas? É mais fácil organizar eventos e atividades que estejam fora do nosso dia-a-dia do que envolver uma colaboração externa no nosso trabalho cotidiano. Como criar uma rede de colaboração que de fato contribua para o trabalho de cada nó dessa rede?

Neste ensaio eu quero explorar um pouco a dinâmica das redes de colaboração, trazendo uma observação da prática das redes de desenvolvimento de software livre, que é a mais bem sucedida rede de colaboração aberta que existe. E fique tranquilo, não é preciso entender nada de software para acompanhar o raciocínio.

O desenho de uma rede

Normalmente, quando fazemos o desenho de uma rede, fazemos assim:

O que eu percebi observando algumas redes de colaboração é que a colaboração entre os nós nunca é uniforme e bilateral como esse desenho coloca. Na maioria das vezes uma parte está contribuindo com o projeto da outra. O que me parece é que na verdade existem dois tipos distintos de conexão entre os nós. Uma conexão de “ação” (), que colabora com outro nó  (ajudando em seu projeto, fazendo uma doação, enviando informações, etc…), e uma conexão de “recepção” (), que cria um canal de colaboração para que outros nós o ajudem. O desenho ficaria assim:

Minha impressão é que os nós que colocam mais esforço em criar uma conexão de recepção têm mais sucesso em receber colaborações que atuem diretamente no seu trabalho, porque colaborar com eles requer menos esforço.

Como disse, vamos começar pelo exemplo do Software Livre

Fazendo Software Livre

Ao contrário do que muita gente pode pensar, fazer um software livre não significa apenas disponibilizar o software e seu código fonte livremente. Se você quer apenas que as pessoas usem o seu software, isso pode funcionar, mas se você quer que outras pessoas colaborem com seu desenvolvimento, você precisa de muito mais.

Aqui estão algumas coisas que um desenvolvedor de software livre tem que fazer se quiser receber a colaboração de outros desenvolvedores:

  • Manter o código bem organizado e documentado
  • Manter um site para o software, com links para download, documentação e um canal de suporte
  • Manter o código em um repositório público, para que outros desenvolvedores tenham acesso
  • Internacionalizar o software, para que ele funcione em diferentes idiomas
Se você não fizer nada disso seu software vai funcionar do mesmo jeito. Você vai resolver o seu problema e pode até liberar sua solução para outras pessoas usarem, mas dificilmente alguém vai conseguir colaborar. E essas ações dão bastante trabalho. Vale até dizer que em alguns casos um desenvolvedor pode gastar mais tempo criando todas essas estruturas de colaboração (canais de recepção) do que realmente programando.
Ou seja, fazer software livre dá muito mais trabalho do que apenas fazer um software – esse é um ponto chave.

Pronto, chega de falar de software, vamos voltar as redes de colaboração como um todo.

Descomplicando a Colaboração

Se não existe uma forma clara de como colaborar com um projeto, muito dificilmente alguma colaboração acontecerá, mesmo se existirem pessoas interessadas em fazê-lo. Quando há um canal claro e facilitado de colaboração, ele atrairá colaboradores.

Outro dia fiz download de um disco que o próprio músico disponibilizava em seu site. Era um disco excelente e eu fiquei com muita vontade de retribuir o trabalho dele com uma doação. Mas como? Eu não o conheço, não sei onde mora, não sei seu email… Claro que eu poderia achar um jeito de encontrá-lo, mas a dificuldade do caminho que eu iria seguir me desencorajou e acabou ficando por isso mesmo.

Em outro caso semelhante, o músico informava no site uma conta bancária. Como a conta não era do meu banco, não queria pagar as taxas de transferência. Queria muito fazer uma doação para ele, mas não a ponto de ir a uma agência e enfrentar uma fila para doar R$15, R$20…

No primeiro exemplo, o músico, que certamente gostaria de receber por seu álbum, não abre nenhum canal de colaboração. No segundo, ele abre um canal muito estreito.

Da minha preguiça de mandar um email para o primeiro e ir a uma agência bancária no segundo, aprendemos uma lição: todos nós gostaríamos de colaborar com outras pessoas, mas o faremos a medida que isso não requeira um esforço desproporcional de nossa parte.

Mas isso não quer dizer que um tradutor, por exemplo, só vai colaborar com traduções fáceis e rápidas. O que isso quer dizer é que ele só vai colaborar em projetos nos quais ele chegue rápida e descomplicadamente ao que sabe e gosta de fazer: traduzir. Se ele tiver que mandar um email, pra falar com alguém, que vai mandar pra ele um texto em um formato ruim, e não está claro o que nem como ele tem que traduzir, isso vai desencorajá-lo. Agora, se existe um processo claro, onde ele rapidamente encontra o que e como traduzir, para onde enviar, etc. ele fará isso com prazer.

Basta dar uma olhada nas redes de tradução de filmes e séries estrangeiras, que publicam seus trabalhos em sites como o legendas.tv. Se alguém quer colaborar com alguma tradução existe um processo muito claro de como fazê-lo.

Da mesma maneira, um tradutor, que não é programador, consegue colaborar com a tradução de softwares livres de maneira muito descomplicada, através de sites que disponibilizam ferramentas muito simples para as pessoas irem traduzindo frase a frase.

Percebemos com os exemplos acima, incluindo o do software livre, que as principais funções desses canais de recepção são:

  • Minimizar o esforço necessário para que um colaborador entre na rede – deixando os caminhos claros e todas as informações necessárias facilmente acessíveis e;
  • Potencializar a colaboração, deixando com que o colaborador foque no que sabe e gosta de fazer – o programador vai gastar a maior parte de sua energia programando, o tradutor traduzindo, e assim por diante.

Mais exemplos

Fora da rede de computadores temos alguns exemplos, e adoraria, com a ajuda de outras pessoas, rechear este artigo de mais casos que não dependem da internet.

O Exército de Salvação é um exemplo extremo – talvez não na criação de redes, mas sem dúvida na capacidade de criar um canal de recepção. Em determinado momento, eles perceberam que doações de moveis, roupas e utensílios usados e a venda desses objetos em bazares beneficentes era uma boa fonte de receita para financiar seus trabalhos.

Há muito tempo eles tinham esse canal de recepção que era uma forma de receber doações. Até que em certo ponto eles resolveram ampliar ainda mais esse canal, criando toda uma estrutura de atendimento e retirada de doações. Quer canal de recepção melhor que esse? Se livrar de um sofá velho pode ser um problema e custar caro, ou você pode ligar que eles vem retirar na sua casa. Você colabora com eles, mas na verdade eles também estão te ajudando.

Claro que manter essa estrutura de atendimento, caminhões, carregadores, etc. custa caro também, mas certamente o número de doações aumentou o suficiente para justificar o investimento.

O foco do trabalho do Exército de Salvação não é retirar doações e fazer bazares. Tudo isso foi um esforço de criar um poderoso canal de recepção de colaboração.

Concluindo

Vocês devem ter percebido que deixei de fora deste ensaio um ponto fundamental para a colaboração: a motivação. Algumas pessoas colaboram por prazer, outras por status, outras por dinheiro, outras por ideais… Seja qual for a motivação, ela é irrelevante para essa análise, que considera que já temos uma rede de indivíduos motivados mas que, mesmo assim, nem sempre é bem sucedida por causa da falta de canais de colaboração.

Meu objetivo aqui foi o de explorar esses dois tipos de conexão em uma rede de colaboração e sugerir que é a partir dos canais de recepção que uma rede de colaboração se forma. Não adianta ter uma rede cheia de gente disposta a colaborar se não houverem canais claros de colaboração. (Claro que existirão exceções, e que colaborações espontâneas acontecem. Mas me refiro aqui a colaborações constantes e recorrentes).

Criar esses canais de recepção dá trabalho. Em alguns momentos pode até parecer improdutivo desviar esforço dos seus problemas para construir esses canais, mas eles são essenciais para que a colaboração aconteça. Encontrar o equilíbrio entre executar o trabalho do dia-a-dia e, ao mesmo tempo, investir energia na infra-estrutura de colaboração, é o desafio a ser vencido se quisermos realmente trabalhar em rede.

Ensaio sobre a colaboração em rede

O ânimo dos investidores

E a preocupação no noticiário matutino é o “ânimo dos investidores”. Uma materia longa metralha dezenas de números a cada sentença e fala de uma tal crise como se fosse uma catástrofe natural, e não a ação deliberada de pessoas. Os índices das bolsas podem ser comparados a massa de ar seco que cobre o país. Ninguém tenta explicar o que está acontecendo, ninguém quer mostrar quem está fazendo o quê para isso estar acontecendo. Ninguém explica porque ninguém entende – muito menos os jornalistas. Não entendem porque ficam olhando só para os números.

O ânimo dos investidores

Cidades para pessoas

Há um tempo atrás esbarrei no projeto “Cidades para pessoas” lá no catarse, uma plataforma de crowd funding brasileira. Gostei demais e apoiei. Nâo vou explicar aqui o projeto, mas basta dizer que é um trabalho jornalístico que vai passar por 12 cidades do mundo onde houveram projetos urbanísticos bem sucedidos que priorizaram as pessoas – e não os carros.

A Natalia já está lá em Copenhagen e essa semana mandou notícias emocionadas contando da entrevista que fez com o arquiteto Jan Gehl, que a inspirou a encarar essa empreitada. Reproduzo aqui um trecho do relato dela, com a resposta dele a sua primeira pergunta:

… Perguntei tudo o que eu e todos vocês queríamos saber: e aí? qual o caminho? Como fazemos para mudar nossa cidade? Para conscientizar as pessoas das nossas cidades de que não adianta construir mais ruas para darem lugar a mais carros? São Paulo tem solução?

– Minha querida Natália, quando você pergunta a uma criança o que ela quer no próximo natal, ela vai te responder com uma lista de objetos que ela conhece. Uma criança nunca vai querer algo que não conheca, certo? O mesmo se dá com as cidades. As pessoas só vão exigir cidades melhores de fato quando elas souberem COMO e o QUÃO melhores as cidades podem ser. Trabalhos como o seu são importantíssimos. Faça muitos vídeos, mostre como a lógica das cidades que vai visitar é muito mais agradável, como elas respeitam a escala humana, como elas oferecem opções mais interessantes para se locomover do que apenas asfalto para os carros e as pessoas vão querer lugares como esses. Se você realmente fizer um bom trabalho, você vai ajudar muito São Paulo a melhorar.

A resposta dele é muito simples, mas muito profunda. As pessoas precisam de referências, de repertório. Entender que São Paulo PODE ser diferente é o primeiro passo para melhorarmos a cidade. A crença de que “São Paulo não tem jeito” é o veneno que nos faz alimentar uma relação parasita com a cidade.

Boa sorte a Natalia. Que faça um ótimo trabalho.

Cidades para pessoas

Coisas que deveriam ser proibidas junto com as sacolas plásticas

  • bandejas de isopor
  • sachês em geral
  • garrafas pet
  • canudos
  • palitos de dente embalados individualmente
  • que mais?

Além disso, deveria haver uma regulamentação pesada em cima de embalagens. As empresas produtoras deveriam ser reponsáveis pelo lixo que as embalagens de seus produtos geram. Hoje em dia qualquer coisa que você compra gera um lixo absurdo de embalagens super elaboradas e exageradas. Isso merece outro post que já está no forno.

Coisas que deveriam ser proibidas junto com as sacolas plásticas