Cultura Viva na America Latina

Foi muito lindo acompanhar, na semana passada, o encontro de Pontos de Cultura da Argentina, lá em Buenos Aires. Foi especialmente emocionante acompanhar o lançamento do III Congresso Latino Americano de Cultura Viva Comunitária, que acontecerá no Equador em novembro do ano que vem (foto).

img_20161201_205648349

É incrível ver como este programa, que teve um impacto tremendo aqui no Brasil, agora serve de inspiração e referência para o resto do mundo. Ver os mestres das culturas andinas, e fazedores culturais de outras paragens, se encantarem e se entusiasmarem com tudo aquilo que vimos ser gestado aqui, e, de repente, ver de novo o brilho no olhar das pessoas descobrindo e construindo uma política pública para a cultura de baixo para cima, focada no empoderamento e no protagonismo de quem já faz cultura há séculos neste continente. Mais além, é ver o fortalecimento de uma rede que entende que a disputa civilizatória na qual estamos agora deve ser feita a partir da cultura. É intenso. Ainda mais em países com culturas pré-colombianas muito fortes e presentes.

Fui a convite do programa Iber Cultura Viva, compartilhar experiências com representantes de muitos outros países sobre construção de mapas e indicadores para a cultura. Foi intenso e gratificante. Obrigado!

 

Cultura Viva na America Latina

Debate sobre redução de velocidade nas marginais

É realmente impressionante que a redução da velocidade nas marginais seja um tema tão recorrente nos debates políticos em São Paulo. Impressionante e patético.

Patético porque, se comparado aos comprovados benefícios da redução , o “transtorno” que a medida causa é ridículo: 8 minutos – no máximo!

O paulistano que se sente tolhido por ter que andar um pouco mais devagar reclama como quem teve um prejuízo imenso. Candidatos dizem que a redução prejudica profissionais que usam a via.

Veja bem, a marginal tem cerca de 41 km, em um trajeto da Ponte Panamericana, na marginal Pinheiros, até a saída para a Rodovia Ayrton Senna, na Tietê. Este trecho, a 90 km/h leva aproximadamente 27 minutos para ser percorrido. O mesmo trecho a 70 km/h leva 35 minutos. A partir dessa elaborada matemática diagnosticamos o incrível impacto de 8 minutos a mais no deslocamento.

Isso, obviamente, sem nenhum trânsito, o que só acontece de madrugada, e em um trecho muito improvável, pois é raro você ter que cruzar a marginal toda de ponta a ponta. Hoje temos o rodoanel para evitar justamente isso.

Se pegarmos um trecho mais factível, como apenas a Marginal Tietê, da saída da Castelo Branco até a Ayrton Senna, são cerca de 22km – mais ou menos a metade. Nesse caso, atingimos a incrível marca de 4 minutos a mais para cruzar a marginal Tietẽ.

4 minutos!!

Então parece que esses 4 minutos, que só podem ser gozados em viagens de madrugada, valem muito mais do que as vidas salvas pela redução de velocidade.

Não sei nem mais o que dizer. Não é discussão séria sobre a cidade, é birra.

Debate sobre redução de velocidade nas marginais

E quem não quer que Dilma volte, apoia Temer?

Essa é a sinuca em que estamos. O “Fora Temer” crescendo a cada dia, mas poucos sinais de novas pessoas aderindo ao “Volta, querida”. Como resolver esta equação?

Não existe uma boa saída. Tudo indica que teremos muitos anos de instabilidade e conflitos na política, até termos condições de crescer novamente – digo como nação, não como economia. Uma década talvez. Qualquer coisa diferente disso, qualquer calmaria precoce, indicará que deixamos de enfrentar de frente nossos problemas e que jogamos a sujeira pra baixo do tapete em prol de uma suposta tranquilidade.

Temer ficar é um desastre. Por vários motivos. Em primeiro lugar por sua ilegitimidade. Em segundo lugar, por fazer parte de uma quadrilha criminosa. E, por último, mas não menos importante, por seu projeto fracassado de país. Nos setores com os quais mais se preocupou, como a economia e as relações exteriores, o problema não é, necessariamente, de competência, mas de visão de mundo – e aqui estamos abertos a discordar e discutir. Agora, em todas as outras áreas, todos temos que concordar que o que vemos na esplanada é terra arrasada, com ministros e quadros técnicos despreparados, pagando a fatura enviada pela câmara para aprovar o impeachment. (não quero deixar esse texto longo demais, então não entro em exemplos, só digo que não se compara ao que havia antes).

Novas eleições são assustadoras. Só para presidente? Mantendo deputados e senadores? Quais seriam os candidatos? Quem hoje, no meio desta lama, e com projeção nacional, teria condições de conquistar a confiança da nação? Aparentemente ninguém. Nesse cenário, a quem estaríamos entregando legitimidade para governar o país?

Por fim, caso Dilma volte a presidência, tudo indica que o país fica ingovernável. Se já não havia condições antes, elas não melhoraram. Aliás, todos dizem que o grande problema dela é a incapacidade de diálogo. Talvez este tenha sido seu maior crime, se recusar a dialogar com Cunha e sua laia e, ao se cansar de tentar fazer acordos com bandidos, se isolou. É só uma hipótese. Romântica. Independente disso, não podemos poupá-a de seus erros e da participação do seu partido nos esquemas de corrupção.

Voltando a provocação original, é por isso que boa parte da sociedade está paralisada, sem conseguir agir. Quer os corruptos fora, mas não quer o retorno de Dilma; acha que vai tudo explodir e, na verdade, cansou. Chega. Será que não podemos virar a página e seguir em frente?

É preciso ter coerência e coragem. É desonesto engolir Temer e aceitar esta ruptura da democracia, apoiada em processos jurídicos frágeis, e fundada em interesses sórdidos. Ao fazer isso, você aceita que não está realmente interessado em combater a corrupção. Ao contrário, está disposto a aturá-la, desde que seja operada pelos velhos políticos de sempre, e que possamos parar de falar disso para curtir as olimpíadas.

Eu quero a defesa da democracia e de seus ritos. Eu quero ampla participação popular nas decisões que se seguirão para resolver esta crise. Por isso, de todas as opções, escolho a volta da presidente eleita.

O Brasil está passando por um processo fundamental no amadurecimento da sua democracia. Não podemos interrompê-lo. Apoiadores do impeachment costumavam dizer “primeiro tiramos a Dilma, depois todo o resto”. Pois bem, poupar Temer e seu governo interino é ir contra esta intenção.

O que virá depois não será bom. E não será fácil. Mas como disse, não existe uma boa saída. Este é apenas o começo de uma caminhada, que pode culminar na reconstrução de um país democrático, ou que pode jogá-lo 40 anos para trás na história. A escolha é nossa.

E quem não quer que Dilma volte, apoia Temer?

Sobre a extinção do MinC

Um esclarecimento que vale fazer. O Ministério da Cultura não é para os artistas. Nem mesmo para os ‘fazedores de cultura’ ou para as pessoas que trabalham com a cultura.

O Ministério da Cultura é para toda a sociedade, assim como o Ministério da Saúde não é para os médicos e o Ministério da Educação não é para os professores. (essa metáfora não é minha mas não sei de quem é)

A confusão é compreensível, já que a noção de direitos culturais é nova, e a política pública de cultura para promover esses direitos mais nova ainda. Data, precisamente, de 2003, quando o MinC deixou de ser um balcão de projetos para artistas e passou a servir a sociedade de maneira mais ampla.

As críticas ao MinC e à ‘classe artística’ que o defende é uma crítica voltada ao MinC do século passado. Ou seja, não querem só acabar com o MinC, querem tranformá-lo no que ele era nos anos 90 para, depois, acabar com ele.

O papel da cultura, e da promoção dos direitos culturais, é fundamental para a evolução da civilização. Não é a toa que os artistas se mobilizam tanto. Historicamente a arte tem esse papel, de quebrar a normalidade e apontar os caminhos para o futuro.

Todas as crises que vivemos só serão superadas se abordadas do seu ponto de vista cultural. A crise política é cultural, a crise ambiental é, também, cultural, a intolerância com as diferenças é uma questão cultural. Até a crise econômica tem uma dimensão essencial que é cultural.

Estamos no século XXI, temos ferramentas do século XXI para enfrentar esses problemas, mas ainda estamos, em grande medida, presos a cultura do século XIX e, por isso, não avançamos.

E pra quem cita países desenvolvidos que não tem Ministério da Cultura, pode crer que eles gostariam de ter e invejam o Brasil por isso.

Sobre a extinção do MinC

Direito de roubar

O silêncio generalizado em relação aos grandes crimes de sonegação (o caso do vazamento das contas do HSBC, a operação Zelotes e o recente protesto dos procuradores da Fazenda) em oposição ao grande barulho dos escândalos de corrupção no governo (com especial atenção aos que envolvem um certo partido) escondem uma crença perigosa: a de que “sonegação não é tão grave assim, afinal, de que adianta pagar impostos se o governo rouba e é ineficiente?”.

Me parece que os ricos têm, além de todos os privilégios que sabemos, mais este: o de poder roubar. Afinal, eles sabem melhor como cuidar do dinheiro. Seja na sonegação ou na ocupação irregular de terra do clube Pinheiros e das mansões em Brasília, os ricos acham que tem o legítimo direito de se apropriar da riqueza coletiva.

Os procuradores federais alertaram. Foram 200 bilhões só em 5 meses. Já se fala em um terço de todo o PIB mundial em paraísos fiscais. Não há roubo maior. Não há corrupção em nenhum governo no mundo que gere mais desigualdade do que esta apropriação indevida de riqueza encabeçada pelo sistema financeiro.

Direito de roubar

Por que devemos continuar indo para as ruas

Pelos vinte centavos.

Sim, ontem foi lindo, e todo mundo, inclusive eu, disse que era por muito mais do que vinte centavos. Mas agora precisamos focar nos vinte centavos.

Precisamos ganhar essa briga para abrirmos as portas para as próximas.

Os vinte centavos não são pequenos, nem do ponto de vista econômico, nem do político.

Não é pouco porque, como já disse o prefeito, a conta não fecha. E não fecha mesmo. Por isso é preciso que se invente outra conta.

Ganhar a briga dos vinte centavos significa abrir espaço no governo para se pensar uma mudança profunda nas prioridades políticas. Sabemos que tem dinheiro. Sabemos que os subsídios para o transporte particular são muito maiores que os para o transporte público. Sabemos que as contas hoje são uma caixa-preta. Sabemos que há solução, mas que pra isso é preciso muita vontade e coragem política pra mexer com um monte de gente que está acomodada em um modelo muito bem estruturado e confortável.

Ganhar essa briga significa abrir um novo modelo de criação de políticas públicas, com ampla participação da sociedade, indicando caminhos e apontando problemas.

Precisamos ganhar essa briga, sem dispersar, sem cair em um movimento genérico de indignação, facilmente apropriado por todas as parcelas da sociedade, das mais radicais as mais conservadoras.

Temos que ir em frente.

Pelo passe livre! Pela revogação do aumento das tarifas!

Por que devemos continuar indo para as ruas

Por que eu vou pra rua segunda-feira

Não é somente pelo aumento de vinte centavos na passagem, isso já ficou claro, e espero que tenha ficado claro para todos.

Por que então? A resposta mais fácil é uma indignação generalizada com a forma como as coisas vem sendo feitas no Brasil há anos: a corrupção que parece fazer parte da nossa cultura e do jeitinho brasileiro, o mensalão petista, a privataria tucana, os gastos absurdos e as desapropriações desumanas para a Copa e Olímipiadas, os péssimos serviços públicos que recebemos em troca de altos impostos, enfim, a lista poderia seguir indefinidamente.

Mas não sei se é uma boa estratégia essa de sair esbravejando com objetivos tão genéricos e dispersos. Por isso elejo meus dois principais objetivos. Claro que tudo está relacionado, mas precisamos começar por algum lugar.

Chegamos a um ponto em que pequenas mudanças não adiantam mais. Precisamos de uma transformação profunda na raíz de como as coisas funcionam nesse país.

Transformação do Transporte Público

O estopim para essas manifestações foi esse, e acho que devemos mantê-lo como primeiro objetivo. Em São Paulo essa não é uma questão somente econômica. Se locomover em São Paulo, seja a pé, de transporte público ou de carro, é um martírio. Quando as pessoas saem de manhã de casa para o trabalho, saem para um campo de guerra.

Eu não estou interessado em pequenos ajustes ou esforços para manter a tarifa mais baixa. Eu quero ver uma mudança estrutural na forma como o transporte público coletivo é gerenciado. Se a conta não fecha, que inventem outra conta. Por exemplo, o transporte individual recebe isenções e subsídios da ordem de R$ 16 bilhões por ano, enquanto o transporte coletivo recebe R$ 2 bilhões. Não me venham dizer que não tem dinheiro, é questão de prioridade e vontade política.

E quero mais, quero uma cidade para pessoas, não quero uma faixa de corredor de ônibus, quero duas ou três. E quero uma ciclovia. Quero que vire de ponta cabeça o modelo atual em que o carro tem prioridade total. Quero calçadões e quero parques. Quero o fim dessa especulação imobiliária que privatiza o espaço público e promove a gentrificação.

Reforma Política

Quero uma reforma política profunda. Quero o fim da imunidade parlamentar, do foro privilegiado, quero que os votos dos parlamentares sejam abertos. Quero o financiamento público das campanhas, para acabar com a relação promíscua entre grandes interesses privados e os governantes. Quero transparência total do governo.

Quero a redução dos salários dos políticos, que eles mesmo aumentam desrespeitando a população. E quero o fim da infinidade de benefícios que eles têm. Quero que a carreira política se torne totalmente desinteressante para esse monte de sangue-sugas que temos hoje em dia em todas as esferas do governo.

Para as ruas

Com essas bandeiras que vou sair amanhã. Saio também para combater pacificamente e denunciar a violência da Polícia Militar. E saio, triste, sabendo que essa é uma briga não só com os governantes, mas com boa parte da população, especialmente a população paulistana, que não entende nada do que está acontecendo e acha que está tudo bem.

Por que eu vou pra rua segunda-feira