You say you want a revolution

Marta,

No último dia 20, você, como a nova ministra da Cultura, abriu as portas do MinC para receber mais de cem ativistas, produtores, pontos de cultura, quilombolas, ribeirinhos, etc. Cinco dias depois de tomar posse, essa audiência foi muito marcante, representando uma retomada de diálogo e construção coletiva das pautas do MinC – o que tinha sido interrompido na gestão Ana de Hollanda.

Como tantas outras pessoas, eu não pude participar e fazer minha fala. Por isso escrevo essa carta que tem que começar com uma pequena retrospectiva, e terminar com alguns pontos que acredito que devam ser pautas para o ministério no que diz respeito a revolução que você disse estar  disposta a promover (e no que acredito ter capacidade de contribuir). Se estiver com pressa, vá logo para “os desafios”.

Uma pequena retrospectiva apaixonada

É preciso lembrar e repetir que uma revolução já aconteceu dentro do MinC – e não foi pequena. A implantação dos Pontos de Cultura inverteu completamente a lógica de funcionamento do ministério. Primeiro, ao se propor conveniar centenas de pequenos pontos de cultura, ao invés de fazer poucos convênios milionários. Depois, quando, na seleção desses pontos, colocou-se em primeiro lugar o mérito do projeto e, em segundo plano, as exigências burocráticas para o conveniamento.

Essa segunda inversão, sensível e decisiva, marcou uma mudança radical no fluxo de trabalho do MinC. Imagine que as exigências burocráticas para se fazer um convênio com um banco são as mesmas para conveniar um grupo tradicional de maracatu – que não tem o aparelhamento jurídico de uma grande empresa. Imagine ligar para cada ponto, e ajudá-los a providenciar todos os documentos que precisavam: “oi, o seu projeto é muito bom, você foi aprovado, agora precisamos ir atrás da papelada”. Isso foi (pela primeira vez na história do Brasil?) o MinC falando diretamente com a sociedade, escutando, ajudando caso a caso. Foi emocionante ver isso acontecer.

Em seguida, a dimensão digital entra em sinergia total com o projeto. Não apenas como plataforma, como meio de produção de difusão de cultura, mas também como conceito: Com a percepção de que na era digital a cultura se liberta de paradigmas da era industrial, onde há um suporte físico, produção em escala e a ideia de que cultura é uma mercadoria como qualquer outra. Na era digital a cultura pode ser compartilhada livremente e todos só ganham com isso. Revela-se um mundo inteiro de possibilidades de produção, de trocas, de mercados, de manifestações… que antes ficavam perdidas entre a manifestação popular tradicional e a grande indústria cultural.

Percebe-se que, para evoluirmos, é preciso que a cultura seja livre; que a cultura não pode seguir a mesma lógica de outro produto qualquer – a lógica da indústria e do mercado. E o MinC entende isso.

O ministro-guru Gilberto Gil fala em fazer um do-in antropológico, e massagear ” pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país”. As ideias centrais são: geração de autonomia e protagonismo. O MinC inicia um movimento amplo e descentralizado de valorização e fomento da produção cultural no país.

E agora?

Você abriu a reunião da semana passada afirmando que quer deixar como marca de sua gestão uma revolução nos meios de comunicação, principalmente na internet. E pediu contribuições para isso. Aqui vão os meus pitacos.

Primeiro é importante lembrar que esta é uma revolução da rede. É papel do MinC fomentá-la e criar condições para que a revolução aconteça, mas ela vai acontecer aos poucos, e de maneira caótica e descentralizada. O MinC pode ter papel fundamental em alguns pontos:

. Reforma da Lei de Direitos Autorais – Na perspectiva de que a cultura precisa se libertar dos modelos industriais de produção do século XX, a reforma da LDA, como foi feita, com participação ampla da sociedade e visão avançada do ministério, com certeza colocará o Brasil de novo na vanguarda mundial. Esse é um ponto que, sem dúvida nenhuma, vai deixar a marca que você quer.

. Aprovação do Marco civil da internet – Apesar de não ser diretamente tocado pelo MinC, este pode e deve ter papel decisivo para que o projeto de lei seja aprovado.

Os desafios

Os Pontos de Cultura já estão muito mais conectados do que estavam no começo do programa. A banda larga, lentamente, chega a esses pontos junto com as câmeras, os celulares e, pouco a pouco, estão todos publicando seus conteúdos. O desafio hoje é outro. Precisamos criar alternativas livres para a cadeia de produção e distribuição cultural.

É só pensar que a maioria dos produtores utiliza software pirata para produzir e publicam suas coisas em serviços estrangeiros, como o youTube. Esses serviços impõe licenças de uso que minam a autonomia dos autores, deixando-os refém de suas vontades. O youTube pode explorar comercialmente qualquer vídeo publicado lá (inserido uma propaganda, por exemplo) ou removê-lo se acreditar que ele fere o direito autoral de outra pessoa. Na verdade, o youTube pode fazer o que quiser com os vídeos e o autor não tem a menor garantia de nada. Nossos produtores, hoje, são reféns da boa vontade de empresas estrangeiras para manterem seus conteúdos online.

Note que a sensação de que hoje é tudo fácil e barato, que qualquer um publica o que quiser na tal “nuvem”, é um tanto falaciosa.

É preciso que haja um esforço no fomento ao desenvolvimento de softwares livre para produção multimídia. Muito já foi discutido nesse sentido dentro e fora do ministério. Em parceria com a RNP, houve um grupo de trabalho para se pensar maneiras de financiamento do desenvolvimento de software livre, mas nenhuma ação foi concretizada.

É preciso que haja um esforço na criação de uma estrutura livre de publicação e difusão de bens culturais.

No que diz respeito a infra-estrutura para publicar esse material. Há o Cervo (desenvolvido dentro do MinC), o iTeia, a Rede de servidores livresdiálogos setoriais com a União Europeia para uma parceria nesse sentido, entre outras iniciativas.

A proposta não é que o Ministério centralize o armazenamento de toda a produção cultural brasileira em seus servidores. Isso seria quase como trocar seis por meia dúzia. A ideia é que o MinC desenvolva e inicie uma rede de servidores descentralizados. Dessa maneira, quanto mais instituições ou pessoas aderirem a essa rede, mais estável ela será.

A principal dificuldade nesses pontos é a noção histórica de que desenvolvimento tecnológico está fora da alçada do MinC.

Hoje é a cultura que faz uso inovador das tecnologias. O MinC vem demandando e dependendo de soluções tecnológicas de ponta mas fica totalmente impotente por não ter pernas para desenvolvê-las.

É preciso encontrar maneiras para que o MinC tenha uma equipe de desenvolvimento para dar conta do que é preciso fazer. As ferramentas necessárias para o MinC fazer sua parte nessa revolução não se encontram nas prateleiras de softwares. Não é possível licitar. O MinC precisa assumir o papel de desenvolvedor de tecnologias inovadoras; de desenvolvedor de software (livre); de provedor de infra-estrutura.  Ninguém além dele está pensando em usos tão inovadores da rede. Ninguém além dele vai conseguir entregar as soluções para as suas questões.

Dada minha humilde contribuição, desejo muita sorte a você e me coloco a disposição para ajudar no que estiver a meu alcance.

um abraço

Leo,,

Anúncios
You say you want a revolution

Reinventando a empresa

Na luta constante de tornar esse planeta um lugar mais decente, vários esforçam se somam: há os ativistas, governos, ongs, coletivos e, também, empresas.

Apesar dessa última ser normalmente vista como a vilã da história, há cada vez mais exemplos de empresas que estão reinventando o sentido normalmente atribuído a uma instituição desse tipo. Tanto do ponto de vista da sua relação com a sociedade quanto da sua gestão interna, existem cada vez mais exemplos de empresas que se preocupam em fazer, através do seu trabalho, uma contribuição que ajude a melhorar a sociedade e, ao mesmo tempo, promovam um ambiente de trabalho justo e saudável.

Diferente das grandes empresas, em que a “responsabilidade social” se baseia em políticas de compensação – eu destruo aqui, mas replanto ali; eu exploro aqui, mas mantenho um projeto social ali – essas novas empresas procuram manter coerência entre seus valores e suas práticas e colocam a sua ação social no centro de sua atividade principal.

Mas será que é mesmo possível promover alguma mudança através de uma empresa? A empresa não é intrinsecamente direcionada ao lucro, e qualquer coisa que a desvie disso será deixado de lado?

Na minha opinião: É possível. Não só é possível mas, dentro do arranjo burocrático que temos hoje no Brasil, é uma excelente opção. Uma empresa não precisa ter como principal objetivo, acima de todos os outros, o lucro. Ela tem que pagar suas contas – mas isso todos nós temos.

Me interessa muito estudar exemplos dessas empresas que vem reinventando a maneira de se trabalhar e de se relacionar com seus clientes, com outras empresas, com os funcionários e com a sociedade.

Para esse novo mundo que começa a dar as caras (com mais colaboração ao invés de competição, com menos desperdício, com mais qualidade de vida, com mais preocupação pelo comum), reinventar a empresa – e por consequência, o trabalho – é fundamental.

Vamos comparar a empresa com algumas outras alternativas:

ONGS

Há um tempo atrás eu escrevi um texto, com tom irônico, sobre uma possível receita de ONG, que normalmente começa com um idealista, passa por uma crise de gestão e sustentabilidade e termina como uma máquina de captação e execução de projetos, emprestando o que há de pior no modelo empresarial.

Via de regra, nas ONGs pequenas luta-se o tempo todo para sobreviver e para conseguir fazer o que se propõe. Os financiamentos são escassos e, quando vem, recusam-se a bancar itens de infra-estrutura (aluguel, telefone, etc) e demandam um grande trabalho administrativo de prestação de contas. Gastar os recursos é complicado, há que se justificar cada centavo para o financiador e, com a energia que resta, finalmente pode-se executar o projeto.

Nesse ambiente de trabalho altamente instável, as pessoas aguentam até o limite da paixão, fazendo com que a rotatividade da equipe seja relativamente alta.

Nas ONGs grandes, a máquina está montada de tal maneira que funciona como uma empresa tradicional. Há o setor administrativo, o setor de captação de recursos, o setor de comunicação… Muitas pessoas, funcionárias, estão ali descoladas de qualquer ideal, mas apenas trabalhando como trabalhariam em qualquer lugar, os setores não se conversam direito e a ONG executa projetos mais ou menos como uma empresa de prestação de serviços – com a diferença que, ao invés de um cliente, tem um financiador que mete o bedelho em cada detalhe e em como o dinheiro é gasto.

Claro que não são todas, grandes ou pequenas, que são assim. Mas esse relato ilustra as dificuldades que existem ao se gerir uma ONG e em como seus gestores ficam rendidos na mão dos financiadores: sem autonomia para gastar o próprio dinheiro e, eventualmente, sem autonomia na elaboração e execução dos projetos.

Governo

Atuar no governo é ao mesmo tempo incrível e horrível.

Incrível porque te dá a possibilidade de executar (ou criar) um política pública de amplo alcance; porque você trabalha com a legitimidade do Estado; porque você tem a oportunidade de fazer com que o governo faça aquilo a que ele se propõe: trabalhar a serviço da sociedade.

Horrível porque você está sujeito a mudanças políticas no alto escalão que, da noite pro dia, podem acabar com o que você está fazendo; porque é muito complicado inovar, tudo o que você fizer tem que ser escalável para toda a extensão de atuação do órgão onde você trabalha – tudo tem que ser mega – e há pouco espaço para experimentação; porque você tem pouquíssima autonomia na execução do orçamento, fazendo a compra de qualquer produto ou serviço simples virar uma verdadeira novela. E, finalmente, porque você tem pouco tempo: até as próximas eleições.

E a empresa?

A empresa tem liberdade de atuação. Pode fazer o que quiser com seu superávit: acumular, reinvestir, distribuir, etc. A empresa não tem que prestar contas sobre suas compras ou contratações. A empresa pode executar os projetos da maneira que quiser. A empresa pode ser transparente, ou pode maquiar seus resultados para os funcionários e sua maneira de trabalhar para os clientes…

É possível fazer um paralelo com o copyleft. Ele nasce como uma alternativa a proteção considerada abusiva do copyright tradicional. Mas para fazê-lo, o copyleft não depende de nenhuma mudança na legislação. No copyright, o autor tem o monopólio para explorar e fazer o que quiser com sua obra. O que o copyleft propõe é: “já que você pode fazer o que quiser, por que você não disponibiliza a sua obra de maneira livre pra que outras pessoas possam usar, desde que levem a liberdade adiante?”. Ao criar uma licença de uso que diz isso, o copyright é usado como meio para se atingir um modelo de livre distribuição, apesar de não ter sido projetado pra isso.

Da mesma maneira, o proprietário de uma empresa tem total autonomia na sua gestão. Como já disse, muito mais autonomia do que um gestor público ou um diretor de ONG. Ele pode seguir buscando o lucro como objetivo primário, fazendo isso explorando o trabalho de funcionários, ou pode propor um modelo de gestão completamente diferente, com outros objetivos e outra maneira de lidar com o superávit. Assim como no caso do autor com o copyleft e o copyright, é tudo uma questão de escolha.

Importante: Não estou dizendo aqui que deveríamos todos abrir empresas ao invés de ongs ou de trabalhar no governo e nem que sou adepto da crença neo-liberal de que o mercado se auto-regula e bom mesmo seria se o governo largasse tudo na mão das empresas. Não! Só estou chamando a atenção para um modelo (a empresa) normalmente ignorado – ou até demonizado – pelos movimentos sociais e ativistas. Uma empresa pode ser, sim, um ótimo modelo de atuação.

Nesse sentido, só depende de nós reinventarmos como uma empresa deve funcionar e quais devem ser seus objetivos primários.

Eu venho experimentando isso na prática na minha empresa, o hacklab, e tenho muito interesse em pesquisar e discutir isso. Aqui  vai uma lista de alguns livros ou experiências. Está longe de ser uma lista completa, mas são coisas que chegaram até mim de alguma maneira e que me interessaram.

Rework – livro do pessoal da 37Signals, que desenvolvem o Ruby on Rails e são responsáveis pelo serviço online BaseCamp. O livro é excelente e propõe muitas rupturas com ideias consolidadas de como uma empresa deve ser gerida e como as pessoas devem fazer o seu trabalho.

Virando a propria mesa – Um incrível relato de como Ricardo Semler implantou, entre outras coisas, um modelo de gestão democrática dentro de uma indústria.

Noded – Uma proposta interessante de organização de freelancers e pequenas empresas para trabalho em rede.

Automattic – A empresa por trás do WordPress.com, tem uma relação fortíssima com o software livre WordPress, responsável por quase 20% de todos os sites na internet, e com o trabalho descentralizado

Development Seed – Empresa americana que trabalha com visualização de dados e mapas. Interessante por que publicam e mantem ferramentas livres e colocam no centro de seu objetivo o trabalho com questões humanitárias.

Esfera – O desafio de, no Brasil, criar uma empresa com um propósito político e ideológico muito específico: Promover a transparência na gestão pública.

My Society – Empresa que desenvolve soluções para organizações sociais, participação democrática, transparência governamental, entre outras coisas.

Itsnoon.net – Empresa brasileira, que começou como ONG, e é um “market place de economia criativa originalmente brasileiro”.

Small is BeautifulEscrevi brevemente sobre ele. Livro de 1973, coloca alguns princípios e narra algumas experiências muito interessantes de empresas que resolveram fazer diferente.

E a listagem de livros seria infinita: Wikinomics, What is mine is yours, The Wealth of networks

Reinventando a empresa

Do que vive o músico afinal?

Desde que começamos a discutir as mudanças trazidas pela tecnologia no campo da música, uma questão sempre vem a tona: como o músico vai se sustentar se a música dele circula livremente na internet? Muitas  teorias são expostas, tem gente que diz que ele vai viver de shows, tem gente que diz que se um músico tiver 1000 fãs verdadeiros ele consegue se sustentar, tem gente que diz que vão continuar vendendo CDs e merchandising…

Todo mundo fica tentando adivinhar como que esses atistas vão se sustentar em um futuro próximo. Mas há um tempo eu venho cultivando algumas dúvidas que eu nunca vi ninguém responder:

1. Como vive o músico hoje? Sem teorias, sem hipóteses. Qual a porcentagem média da renda dessas pessoas que vem de shows, de venda de música, de ensaio, de gravação, de composição, etc.

2. Como viveram os músicos durante todo o século XX e o auge da indústria?

3. Como viviam os músicos antes da era da gravação e reprodução mecânica?

Essas perguntas me motivaram a escrever um projeto (que, como muitos outros, nunca saiu do papel) de web-documentário que iria entrevistar uma série de músicos, por todo o Brasil, atrás dessas informações. A proposta era entrevistar artistas da música dos mais variados segmentos (interpretes, bandas independentes, bandas famosas, compositores, músicos eruditos, maestros, músicos populares, etc) desde que todos eles vivessem, de uma forma ou de outra, exclusivamente de música.

Em paralelo a isso seria feita uma pesquisa para mostrar como os músicos se sustentaram durante todos esses séculos até chegarmos a era da indústria cultural, e assim arejar as nossas ideias para pensarmos em novas possibilidades par ao futuro.

Cada episódio seria composto por uma entrevista, e uma exposição sobre como os músicos botavam comida na mesa em algum período da história. Depois de muitos episódios acredito que teríamos um belo panorama do cenário atual, baseado em fatos reais, e não em suposições.

Acredito que um dos motivos pelo qual não fui em frente com isso até hoje é a dúvida de saber se as pessoas estariam dispostas a falar sobre isso, respondendo perguntas do tipo: qual a porcentagem da sua receita que vem de direitos autorais?

E aí descubro que tem gente fazendo isso!

Até que semana passada eu vou ao debate sobre Música, Cultura Digital e políticas públicas e recebo um exemplar da revista “Repensando a Música” editada pelo Auditório Ibirapuera. Nela tomo conhecimento de um projeto de pesquisa da FMC (Future of Music Coalition) chamado Artists Revenue Streams que tem exatamente as mesmas motivações e objetivos que eu tinha no meu projeto de fundo de quintal, mas com uma pegada mais de pesquisa científica e com um método muito mais estruturado. A pesquisa deles é dividida em 3 estágios:

1. Entrevistas com artistas

2. Análise de dados financeiros dos artistas

3. Pesquisa on-line, aberta para qualquer artista responder

Para eles terem sucesso com os passos 1 e 2, os artistas que se dispuserem a participar ficarão anônimos, assim não tem receio de abrir sua vida financeira para os pesquisadores.

A pesquisa já está em andamento e alguns resultados preliminares já estão sendo publicados. Você pode fazer download da revista “Repensando a Música” aqui (link direto para o pdf). O artigo sobre esta pesquisa é o último da revista e traz gráficos e trechos das entrevistas. Recomendo fortemente a leitura.

Alguns resultados interessantes já publicados são referentes ao estudo da vida financeira de 3 músicos: um compositor-instrumentista-líder de banda de jazz, um instrumentista-compositor-sideman de indie rock e uma orquestra de câmara. Veja a distribuição da fonte de renda bruta dessas pessoas:

Interessante também são relatos genuínos que nos ajudam a entender a realidade dos músicos. Veja esse exemplo:

“O que é frustrante neste ano é que eu ganho mais dinheiro fazendo pro-dução de vídeo, mas eu lucro mais quando componho. A coisa menos lucrativa que faço é gravar em estúdio. Se eu cobro 40 dólares a hora [no estúdio] é uma hora em que eu estou realmente trabalhando, e não estou ganhando os 60 ou 80 dólares a hora que ganharia dando aula, e não estou ganhando os 75 a hora que ganharia editando vídeo, e não estou ganhando o que ganharia compondo – e a faixa de preço é, às vezes, 125 ou 200 dólares a hora se estou compondo. Mas o trabalho que está ao meu alcance algumas vezes é o estúdio. A coisa mais lucrativa é composição, e a maior parte da minha renda vem de uma combinação [dessas coisas].”
Compositor de trilha de filme.

Sobre meu projeto… até que me motivei mais, até porque já teria mais material para usar. Por exemplo, eles fizeram uma lista com 29 maneiras possíveis de um músico ganhar dinheiro. Isso poderia enriquecer bastante as entrevistas. Será que os músicos estão abertos a falar disso, será que a abordagem mais acadêmica (e anônima) é mais adequada? Será que essa vai ser só mais uma ideia que fica pelo ar?….

Do que vive o músico afinal?

Entre a cultura popular e a indústria da cultura

Hoje saiu um texto do Luiz Carlos Barreto na Folha de São Paulo criticando o Ministério da Cultura. Queria analisar rapidamente alguns pontos de sua fala:

(Queremos) Um ministério que preserve e alimente fontes da cultura popular, artesanato, tradições culinárias, festas, folguedos e folias populares, e também voltado para a produção de bens artísticos e culturais de forma planejada e sistêmica, que leve a indústria cultural à autossustentabilidade.

E mais adiante

(A questão é ver) quem quer e tem competência para liderar e implementar uma nova política cultural, abrangendo do Brasil do zabumba ao Brasil da fibra ótica.

Ontem, para a coluna da Mónica Bergamo, ele defendeu que “tudo o que diz respeito às indústrias culturais passe
a fazer parte do Ministério da Indústria e do Comércio”.

Antes de mais nada, devemos dizer que ele faz parte do grupo que foi mais afetado pela mudança de política do MinC desde que Gil assumiu a pasta. Antes o MinC era um balcão de financiamento para grandes projetos, e se transformou num potencializador de ações culturais diversas em todo o país. Com a descentralização da distribuição dos recursos e uma postura mais ativa no sentido de desenvolver mais iniciativas culturais os grandes nomes perderam boa parte dos seus recursos.

A Carta Capital deu uma capa, em 2006, com Gil rebatendo as críticas do que ele chamou de “classe dominante” da cultura. Você pode conferir um trecho da entrevista aqui.

Mas nem era isso que eu queria falar. Eu só queria apontar o óbvio da miopia do Barretão. Aparentemente, para ele não existe nada entre a cultura popular e a indústria da cultura. Segundo ele o ministério deve continuar mantendo as culturas tradicionais e investindo no desenvolvimento da indústria. De um lado, a manifestação espontânea, descolada de qualquer atividade comercial, e de outro a indústria que gera empregos e movimenta a economia.

Ele não enxerga o universo que existe entre esses dois pontos que ele coloca, e que é justamente o universo em que o MinC vem atuando com muita força. Para o MinC de hoje, zabumba e fibra ótica não fazem parte de mundos opostos. Ao contrário, a fibra ótica potencializa a ação do zabumba, não só como manutenção de tradições, mas como instrumento inovador, tanto do ponto de vista estético, como do ponto de vista de possibilidades econômicas para a cultura.

Não é a toa. A tecnologia tem papel fundamental nesse caminho de libertar os produtores culturais do processo industrial. Durante quase todo o século XX, por culpa dos suportes físicos e caros meios de produção (discos, câmeras, luzes, etc)  a cultura teve que ser produzida dentro de um processo industrial, e acabou-se criando um entedimento de que poderia ser um produto como qualquer outro que a indústria produz. Mas não é. A cultura é distinta, e o MinC atual entende isso. Hoje em dia cada vez menos existe a necessidade de suporte físico para a cultura, e os meios de produção e distribuição estão cada vez mais baratos.

O que vemos hoje em dia com o início da inpependência da cultura em relação a indústria é a busca de alternativas econômicas e a criação de novos mercados para a cultura. Em todas as áreas temos muitos exemplos de sucessos e fracassos. Mas o fato é que o modelo industrial não é mais o único modelo viável.

Entre a cultura popular e a indústria da cultura