Carta à família

Queridos familiares,

Eu tenho muita sorte e muito orgulho de fazer parte desta família. A relação de amor que nos une é incrível. A família, apesar de enorme, diversa, e espalhada por vários cantos do Brasil, sempre manteve uma forte rede de afeto e respeito, que está acima de qualquer diferença que possamos ter, inclusive as políticas. E esse respeito a que faço referência não é aquele respeito próximo à tolerância, mas sim o respeito do cuidado e do amor genuínos. É realmente incrível fazer parte disso. Agradeço a todos.

Tão vigorosos esses princípios de amor, respeito e cuidado que mesmo nestes tempos de polarização inflamada nós seguimos passando imunes e unidos.

Pela certeza de que nossa convicção é por ouvir e acolher uns aos outros – e não pelo silenciamento dos nossos pensamentos – opto por escrever a vocês e pedir que leiam com o mesmo amor, respeito e cuidado que sempre nos cercou – deixando de lado o ódio incendiado por todos os lados.

Vejam bem, é justamente por valorizar tanto a experiência cotidiana que eu, neste momento, tomo a iniciativa de lhes escrever. Estes acima listados são valores que ao longo do meu crescimento e formação passaram a ser princípios.

Em primeiro, não peço que acordemos em taxa de juros, câmbio, economia, em modelo de gestão do Estado. Não se trata de pedir que considerem um ou outro modelo de política externa, de relação com os Estados Unidos ou com os vizinhos latino-americanos, muito menos quanto a venda e exploração dos muitos recursos naturais do nosso país.

Importante dizer também que, apesar dessa carta ser um apelo, eu a escreveria em qualquer cenário de segundo turno, para defender qualquer alternativa ao caminho que parece estarmos seguindo.

Queria apenas que atentassem para o início desta carta. Nós sempre cultivamos os PRINCÍPIOS de AMOR, RESPEITO e CUIDADO. Assim que, independentemente de qualquer das divergências políticas, entendo que por termos esses valores como centrais para nós, independente das nossas preferência por estilo de representantes, nosso espectro de escolhas deve estar entre os que compreendem esses mesmos princípios e valores.

Essa preocupação, de que deveríamos nos manter atentos a alguns valores, vem crescendo dentro de mim à medida que casos de intolerância e violência aparecem nos meios de comunicação e mesmo a minha volta.

Infelizmente o fato é que as palavras do candidato que lidera as pesquisas, intencionalmente ou não, têm se transformado em violência real, em desrespeito e intolerância. Indo justamente na direção oposta do que acreditamos coletivamente enquanto família, e ameaçando frontalmente o que sou e o que faço.

A jornalista que escreveu uma reportagem, como fazem esses profissionais por ofício, foi atacada digitalmente e ameaçada de violência real. O comediante Adnet, em seu esforço de nos fazer rir da nossa tragédia política, representou a todos os candidatos em sátiras é agora perseguido e ameaçado justamente por ser muito bom. Uma menina de dez anos foi agredida verbalmente na escola por ser negra.

Esses exemplos não estão apenas distantes. Amigos em bares foram ameaçados de “porrada”, e uma pessoa muito próxima, assassinada pelas costas a facadas. Me refiro a Mestre Moa. O inquérito do crime já foi concluído e se tratou, comprovadamente, de um homicídio com motivações políticas.

Eu, Angélica Germani, me reservo o direito de incluir no texto que Leo compartilha comigo, um comentário pessoal. Convivi com Mestre Moa por mais de dez anos. Ele sempre foi uma pessoa muito amável e forte dentro de sua realidade como negro, artista e capoeirista no Brasil. Nunca foi a favor da violência e muito menos da intolerância. Em seu caminho, tratou com igualdade brancos, negros, gays, estrangeiros e todos àqueles que o solicitavam. Sei através da família, e não através de nenhuma mídia que possa dizer ser “fake”, que no momento de sua morte, apenas externizou seu voto e nunca incitou uma briga. Foi morto covardemente pelas costas e deixou uma dor imensa em muitos. Me incluo nessas pessoas que estão sofrendo, de fato e agora, por ter perdido essa pessoa maravilhosa que era Moa, com toda essa intolerância que já é uma realidade. Alguns podem pensar que isso não tem nada a ver com o candidato, mas vos digo que, quando pessoas transtornadas matam em nome de alguém, ou melhor, quando matam por que alguém que os “autoriza” e estimula a isso, estamos sim diante de uma ideologia e apologia à violência propagada.

Para Bolsonaro, a “minoria tem que se calar, se curvar à maioria!” e defende abertamente, com orgulho e em diversas ocasiões, a tortura e homenageia um dos maiores torturadores que o Brasil teve. Ustra foi condenado por torturar física e psicologicamente centenas de pessoas e era conhecido por sua crueldade, chegando ao ponto de obrigar crianças a assistirem o espancamento dos próprios pais.

Há os que digam que Bolsonaro não prega a violência contra mulheres, negros, homossexuais e ativistas. Mas veja bem, há registro de algumas de suas frases neste sentido, tais como:

O erro da ditadura foi ter torturado e não matado”;

Não vão encontrar sossego. E eu tenho imunidade pra falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho.

“Eu vou dar carta branca para a polícia matar.”

Sou capitão do Exército, minha missão é matar.

No período da ditadura, deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique.

Sou preconceituoso, com muito orgulho.

Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.

Alguns argumentam que são apenas frases da boca para fora. Essas pessoas não compartilham da violência e discriminação pregada por Bolsonaro, mas infelizmente nos colocam em perigo ao referendar este candidato. Até porque sabem que, devido a sua posição social, têm menos risco de serem atingidos pela violência estatal. Estão tranquilos que seguirão a salvo para cometer suas pequenas contravenções, como fumar um baseado, enquanto o povo da periferia vai sofrer ainda mais violência, com policiais autorizados a matar (amparados pelo excludente de ilicitude defendido por ele).

Quando jornalistas historicamente críticos ao PT como Miriam Leitão e Arnaldo Jabor alertam para o risco Bolsonaro; Se mesmo com opositores ferrenhos, como Geraldo Alckmin dizendo a empresários que Bolsonaro pode ser pior do que o PT para a economia; Quando até o jurista que construiu o processo de impeachment de Dilma Rousseff, Miguel Reale, assina documento em defesa da democracia e contra Bolsonaro. O ex-presidente aposentado do banco Goldman Sachs, um dos maiores do mundo, diz que Bolsonaro pode ser desastroso para a economia. O economista do PSDB Pérsio Arida classifica Paulo Guedes como mitomaníaco e alguém que nunca fez nada.  E até FHC diz que está sentindo cheiro de fascismo, é preciso refletir.

De fora do Brasil também chegam dezenas de manifestações de preocupação com a ameaça que ele representa a democracia do país. Está em jornais portugueses, nos editoriais do The Economist e New York Times, Le Figaro, da França, na imprensa alemã e em muitos outros países. E vem de pessoas de todas as orientações políticas. Até Marine Le Pen, política francesa considerada de extrema direita, o criticou por dizer coisas “extremamente desagradáveis” e procurou se distanciar dele, afirmando que ele não seria de direita. E quem manda recado dizendo que “ele soa como nós”? O antigo líder da Ku Klux Klan. Até mesmo especialistas no combate a corrupção alertam para os riscos de seu governo – mesmo considerado o histórico do PT. E é curioso ver a surpresa das pessoas ao assistirem a manifestação de Roger Waters, o autor de The Wall. Parece que nunca se atentaram o que ele quis dizer com aquela obra.

Da mesma forma, conceituadas revistas científicas (Nature; Science Magazine) alertam para um total descaso com o meio ambiente (unir MAPA ao MMA, reduzindo a ação do IBAMA e ICMBio), mudanças climáticas (saída do acordo de Paris), sendo que o impacto para as áreas protegidas e seus habitantes será enorme e potencialmente irreversível.

É engraçado associarem um possível governo do PT a Venezuela, sendo que quem defende abertamente a implantação de uma ditadura é Bolsonaro. Ele que, aliás, elogiou Hugo Chavez apenas alguns anos antes de ele morrer, e não na pré-história do governo Chavez como alega agora. Bolsonaro também elogiou o ditador Peruano Fujimori. Ele e o filho dele são os que ameaçam fechar o STF.

Me preocupo em como será a relação deste governo com seus críticos. Ao que tudo indica, eu (Leo), meus amigos, as pessoas que amo, poderemos ser considerados terroristas por atuarmos na defesa dos direitos humanos. Eu sou ativista, venho trabalhando há anos pela garantia ao acesso à comunicação e cultura, a promoção da diversidade cultural, sempre brigando por várias causas junto ao governo e nunca me deparei com alguém que dissesse que iria “acabar com todos os ativismos”. Sem cerimônia, afirmou no último domingo que quer varrer os opositores do país e ameaça até a imprensa. Seguramente sou um dos que ele quer aniquilar. E eu, Angélica, também. Ele quer acabar com todos nós que discordamos dele.

Vejo os depoimentos de brancos em documentários sobre o movimento de direitos civis nos EUA , e percebo o quanto é possível normalizar o absurdo da desigualdade e da injustiça entre seres humanos. Olho para os movimentos pelo voto feminino e vejo como eram cruéis as pessoas que bateram – ou deixaram bater – naquelas que protestavam. Se fosse hoje, estariam postando em redes sociais: “mimimi”, diriam.

Machuca perceber que muitos apoiadores desse candidato, apesar de não se manifestarem fortemente como ele, concordam com suas posições antiquadas. Dói ver que não percebem que “tolerar” ou “aceitar” uma pessoa homossexual, dizer que “até tem um amigo gay” mas, no fundo, considerar isso uma “má conduta” ou algo imoral ou anormal, é tão violento quanto dar um soco em sua cara.

Por tudo isso (e por muito mais, mas não quero deixar essa carta ainda mais longa) faço um apelo à razão. Peço que olhem para a história e pensem: “de que lado da história eu estaria? e de que lado da história estou hoje?”. A repulsa ao PT é compreensível, eu, sinceramente, não gostaria de estar nessa situação. Não votei no PT no primeiro turno e torci para que tivéssemos uma outra alternativa agora. Mas não temos. E agora não tenho dúvidas, votaria em qualquer candidato para barrar a ascensão do autoritarismo. Voto em Haddad sem pestanejar e peço que reflitam.

Por fim, adoraria – de verdade – conversar mais sobre isso e desenvolver mais profundamente os argumentos. E convido também quem estiver com o mesmo sentimento a assinar esta carta junto comigo.

Com amor.

Leo,,

Apoiando essa carta:

Angélica
Julia
Pedro
Tati
Joana, Ale e Luca
Marcelo e Carol
Sônia
Elena
Kassiana

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