Tecnologia e Criação

Acho que a melhor coisa que define o artista e a arte é a inquietação.

Um artista deve estar sempre ansioso por criar, por produzir, mesmo que seja para si próprio. Ele pode ser o maior preguiçoso, mas exerce sua arte freneticamente.

A tecnologia, nesses casos, vem como uma ferramenta que, muitas vezes, facilita e catalisa a criação mas NUNCA a impede. Um artista de verdade nunca vai deixar de produzir por falta de ferramenta. Muito menos por possuir apenas uma ferramenta precária.

Por isso que eu fico tão feliz quando eu vejo gente produzindo em situações precárias. Porque eu sei que ali tem uma inquietação, uma vontade de produzir que supera qualquer dificuldade. E quando essas dificuldades são superadas, revela-se que além de vontade, esse artista tem competência e qualidade.

Eu trago essa discussão porque hoje muito se fala na tecnologia proporcionando que muito mais pessoas produzam e tal… mas ao mesmo tempo se cria um fetiche em cima de certas tecnologias … por exemplo, se um vídeo ou uma música não forem feitos usando um Mac não são pra valer.. é amador.. Aí tem gente que se preocupa antes em ter o tal do Mac do que em fazer música.. besteira…

E isso, na verdade, é totalmente o contrário do que a tecnologia digital traz. O que ela traz é a possibilidade de uma descentralização geral na produção. E neguinho fica complicando… Salve a inquietação geral!

Os tempos são outros

Tecnologia e Criação

NUA – União de Vila Nova

A Flavia andou escrevendo uns textos sobre o NUA. Me deu uma certa nostalgia, afinal de contas passei 2 anos frequentando aquele bairro e conheci grandes pessoas das quais sinto falta.

Pra minha alegria, essas pessoas (adolescentes que participavam das oficinas que eu dava e, acredite se quiser, me ouviam!) estão agora querendo montar uma rádio lá! Tudo o que eu sempre quis que eles fizessem. De um certo modo, um sinal de que fui bem sucedido.

Agora “só” falta arrumar o dinheiro pro transmissor e etc..

Bom.. pra não ficar pra trás da Flavia, posto um texto que escrevi sobre lá quando ainda estava por aquelas bandas.

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Morte e Vida na Favela

O movimento na rua está diferente. As pessoas em pé na porta de suas casas conversam em voz baixa, todos os olhares se voltam para o mesmo lugar: uma casa, ali do outro lado do lixão.

Uma menina acaba de ser morta a tiros. “Eu me encontrei com ela no ponto de ônibus hoje de manhã”, diz uma das mulheres. O motivo da morte ainda está confuso para as pessoas, mas, na verdade, todos já sabem: drogas. Todos comentam que ela havia se metido com quem não devia.

Mas existe algo muito particular nessa cena de união entre vizinhos perante um recém-cometido assassinato. É uma diferença que talvez eles já tenham esquecido que exista, mas que, no entanto, não pode passar desapercebida para quem vem de fora e não vive a realidade violenta e cruel de uma favela.

O fato é que não há mais surpresa para eles. Mesmo indignação já é um sentimento desgastado, cansado de ser reprimido até se tornar uma lembrança, um sonho de uma vida melhor. Há tristeza, sim. Todos lamentam, sim. Mas é apenas mais uma morte. Terrível como isso pode se tornar parte do dia a dia.

Não é a toa que os números dos dois postos de saúde do Qualis apontem a violência como a principal causa de morte no bairro.Não é a toa que todos respeitem as regras impostas pelos traficantes e temam por seus filhos. Não é a toa que todos sigam suas vidas – sonhando.

Leonardo Germani

NUA – União de Vila Nova