A internet está sendo atacada e você está no meio do tiroteio

Não se engane, a internet está sob ataque. Desde o começo do ano já tivemos algumas batalhas sangrentas. O Megaupload foi fechado e seus diretores presos – perdemos essa. O governo americano tentou emplacar uma série de leis e tomaram porrada do mundo todo, inclusive de gigantes como google, facebook e wikipediaganhamos essa.

Há algumas semanas Eric Raymond, um dos caras que ajudou a criar o movimento open source e um dos hackers mais respeitados que tem por aí, escreveu uma carta aberta a um dos senadores americanos que estão nessa briga. É uma verdadeira declaração de guerra! “Não mexa com nossa internet!” . No começo do ano, o grupo Anonymous também declarou guerra e vem desde então promovendo uma série de ataques. Agora em março, estão promovendo um boicote a indústria do entretenimento, o março negro.

E eu? E você? O que fazemos no meio desse tiroteio? Assistimos as notícias na TV? Curtimos links no facebook? Nâo. Nós temos papel fundamental nessa história. Eu separei aqui três coisas que considero fundamentais fazer a partir de agora: entender o que está em jogo (para que você possa assumir uma posição bem definida), diminuir nossa vulnerabilidade (para que fique mais difícil de atacarem nossas liberdades) e incentivar a produção independente (ninguém sabe como esse novo modelo que está surgindo vai ser, ajude a inventá-lo!).

1. Entender o que está em jogo.

É preciso ter clareza de que o dilema do direito autoral na internet não é só “uma questão complicada mesmo” e que “tem que ser encontrado um equilíbrio, que talvez algumas coisas que a indústria está querendo fazer (controlar) faça sentido”. Não, não faz! Não estou dizendo que é simples, mas estou dizendo que todos os argumentos que eles colocam são falsos e todas as soluções que eles propõe são um atentado a nossa liberdade e a nossa evolução enquanto humanidade! Não, isso não é exagero! Olha só…

A indústria diz que a pirataria gera milhões de prejuízo: 10 milhões de arquivos foram baixados ilegalmente; Cada arquivo desse, se comprado legalmente, custaria em média 10 dólares: Isso dá 100 milhões de prejuízo.  Essa é a conta que é feita. Mas é óbvio que ela é irreal. Se não houvesse o download, uma ínfima parcela dessas pessoas de fato comprariam o disco ou o DVD. Pense em você, você compraria tudo o que você baixa? Claro que não.

O que a indústria se esforça para não enxergar é que o efeito, na verdade,  é inverso. O compartilhamento de arquivos incentiva o consumo e há mais de um estudo que mostra isso. As pessoas tem contato com muito mais coisas e podem conhecer artistas que nunca conheceriam se não fossem pelas redes de compartilhamento e pelos blogs de música.

O compartilhamento também democratiza o acesso a cultura e ao conhecimento. Precisamos pensar no que está acontecendo fora das grandes cidades. Imagine uma cidade no interior do Amazonas, isolada fisicamente mas conectada pela internet. Se as pessoas que moram nessa cidade quisessem ter acesso legítimo a produção cultural do planeta não poderiam. Não há cinemas, as lojas só vendem os blockbusters e as locadoras oferecem poucas opções. Resta a TV e o rádio. A indústria não oferece um meio para que essas pessoas tenham acesso a produção cultural, mesmo se elas quisessem pagar. O que fazemos então? Dizemos para eles continuarem assistindo TV!? DIzemos para eles que eles não podem participar? Vendamos seus olhos e tapamos seus ouvidos? Isso é um absurdo!

E para quem poderia comprar, o compartilhamento não é só mais barato (de graça) – ele é melhor. É mais rápido (não precisa esperar meses depois do lançamento), é mais prático (download direto na sua casa), não tem limites geográficos (alguns conteúdos vendidos pela indústria só estão disponíves em alguns países) e não tem DRM (você vai poder fazer uma cópia para a sua tia). Pense no caso das séries americanas que algumas horas depois de irem para o ar nos EUA já têm uma versão legendada para download. Se um grupo de pessoas, descentralizadamente e sem fins lucrativos, consegue ter esse nível de serviço porque a indústria não consegue fazer melhor? Porque não quer! Eu já lancei esse desafio e já propus uma receita (e não fui o único a fazê-lo).

E todo o legado de produção cultural que está fora de catálago? Temos que esperar que a indústria resolva achar que vale a pena comercializá-los novamente? Devemos deixar nossa memória apodrecendo em seus arquivos? Claro que não!

Percebem que para proteger meia dúzia de Justins e Ladies a indústria aprisiona toda a história da nossa produção cultural e exclui todas as pessoas que não estão em grandes centros urbanos? De repente chegamos a um ponto na história que podemos compartilhar nossa produção cultural e de conhecimento com o mundo todo instantaneamente, podemos colaborar em escala global, podemos transpor fronteiras geográficas e políticas e unir as pessoas… mas indústria quer desligar a máquina que faz isso porque não consegue se adaptar. Percebe que não estou exagerando quando falo em evolução…?

“Mas nós estamos defendendo o direito dos artistas!” eles vão dizer. Não é verdade. Os artistas estão achando alternativas e cada vez mais percebendo que não dependem dessa indústria de intermediação. Desde os consagrados até os novos independentes, todos estão aprendendo a usar a rede para estabelecer contato direto com seu público. Fechar o megaupload não aumentou em nada a receita de nenhum artista!

E outra, a produção musical nunca esteve tão bem. Basta dar uma olhada na quantidade e na qualidade dos álbuns lançados ano passado. Tem muita coisa boa rolando! Mas a indústria não se dá bem com tamanha diversidade.

O que a SOPA queria e a ACTA quer é que todos os provedores de acesso a conteúdo se transformem em policiais, investigando o tempo todo tudo o que nós fazemos e enviando essas informações as autoridades. Eles querem transformar a rede em uma área totalmente vigiada e querem obrigar as empresas que provêm o conteúdo a transformarem-se em vigilantes. Abrir mão da nossa privacidade e liberdade, matar a internet em sua raíz, para proteger interesses de algumas indústrias dos países desenvolvidos. A Suíça não concorda,  eu não concordo.

E tudo isso que eu falei aqui acima é apenas uma pequena parcela da jogada. Estamos falando de música, de cultura. Mas eles estão de olho em muito mais. Essa lei também seria uma ameaça, por exemplo, aos medicamentos genéricos.

Para saber mais sobre como o ACTA ameaça nossa liberdade e o que podemos fazer, recomendo este dossiê.

Há, no Twitter, intensa postagem com referências a material importante sobre o acordo. Pesquisar por #ACTA. Acompanhar, em particular, as microblogagens de James LoveMichael GiestPhilippe Rivière,OpenActa (rede mexicana) e, no Brasil, de CaribéFátima Conti,Marcelo BrancoSérgio Amadeu.

Aqui no Brasil temos uma briga importante contra o Projeto de Lei do Senador Eduardo Azeredo – que assumiu recentemente a Comissão de Tecnologia do congresso. Saiba o que é e como combater.

Então se alguém te perguntar sobre o assunto, não responda com um ar de confusão, como se fosse uma questão complicada que você não sabe no que vai dar. Diga que essas leis são absurdas e que nesses termos não podemos negociar com a indústria – ela vai ter que mudar e se adaptar.

2. Tomar atitudes práticas no nosso dia a dia na rede para que não fiquemos vulneráveis

A segunda coisa que precisamos fazer envolve uma mudança de hábitos. Para diminuir nossa vulnerabilidade, temos que fomentar as redes P2P. Se continuarmos a usar serviços de upload na “nuvem”, será muito fácil rastrear e apagar nosso conteúdo. Há até relatos de que o google poderia até apagar arquivos mp3 do seu Gmail. Neste modelo, basta tirar um único servidor do ar para afetar o compartilhamento entre milhares de pessoas.

A natureza da internet é o p2p. Ao estarmos em rede, compartihando arquivos e recursos diretamente uns com os outros, se torna muito difícil, pra não dizer impossível, que alguém consiga tirar alguma coisa que publicamos do ar. A rede p2p não depende de apenas um servidor. Todas as pessoas estão ao mesmo tempo servindo e consumindo. Para desligar a rede, seria preciso desligar o computador de todo mundo.

Não entende exatamente o que é o p2p? Basicamente o p2p (ou peer to peer, ponto a ponto) é uma maneira de compartilhar arquivos sem depender de um servidor central. Ao invés de todo mundo baixar um arquivo de um mesmo lugar, todos baixam uns dos outros. Se mais de uma pessoa tem o arquivo que você procura, você pode até baixar de várias pares ao mesmo tempo –  tudo isso automaticamente.

Se quiser entender melhor, tem um artigo no How Stuff Works e outro interessante neste blog do g1. Neste último, escrito por um especialista em segurança, ele coloca:

A única maneira de derrubar por completo essas redes seria por meio de detecção de tráfego, ou seja, bloquear completamente o uso da rede P2P na infraestrutura dos provedores de internet. Isso seria tão difícil quanto prender todos os donos de servidores: tecnicamente, é uma tarefa “pesada” e também complexa, porque protocolos P2P podem utilizar criptografia e outros mecanismos que dificultam a identificação do tráfego.
Além disso, as redes P2P não são maliciosas por conta própria. Proibi-las completamente iria resultar em extensas discussões legais sobre o direito à liberdade de expressão.

A “detecção de tráfego” que ele coloca é um risco real, e já há tentativas de se fazer isso: é a briga pela neutralidade da rede, que é crucial. Esse post já está longo demais para falarmos sobre isso, mas é importante registrar que precisamos ficar espertos.

Então vamos as atitudes práticas:

  • Se você é um DJ ou um cinéfilo, que tem um blog para divulgar filmes ou discos, não divulgue links de sites de download. Use p2p! Incentive e ajude os seus leitores a utilizarem p2p!
  • Se você não publica nada, mas adora baixar. Use p2p! Baixe um bom programa de torrent. Use o SoulSeek para baixar músicas dos seus amigos e descubra como é divertido! E lembre-se, baixe e deixe baixar. Nâo feche o programa assim que o download estiver concluído.

3. Incentivar a produção independente

Ajude os artistas que você gosta.

Estamos todos perdidos com todas essas mudanças e ninguém sabe muito bem como esse povo todo poderá se sustentar. E não estamos falando só de músicos, mas de fotógrafos, artistas plásticos, cineastas, escritores, blogueiros e jornalistas, etc. Mas na verdade a resposta é muito simples: é preciso que o público suporte o trabalho desses produtores diretamente, sem intermediários.

Cobre daquela pessoa de quem você é fã do trabalho: “Ei, eu quero ouvir o seu disco e não achei o link para download no seu site. Eu vou baixar do mesmo jeito, mas eu gostaria de muito de baixar diretamente de você e de ter uma maneira fácil de lhe retribuir”; “como posso retribuir pelo seu trabalho?” e sugira uma alternativa, “por que você não coloca um link para doação; por que  você não vende camisetas?”.

Tenha em mente  que a internet não é uma ameaça a possibilidade de o artista ser remunerado pelo seu trabalho, ao contrário, ela é a solução para que isso aconteça. Nunca na história os autores tiveram uma maneira certa e segura de ganhar dinheiro. Durante o século XX e a era da indústria cultural, alguns poucos entraram em linha de produção e conseguiram – mas foram muito poucos. A internet, traz, pela primeira vez na história, a possibilidade real de que os autores possam viver exclusivamente do seu trabalho autoral, independentemente de contratos com empresas para pautarem seus trabalhos. (Isso também é uma forma de p2p, não é?)

Vamos nessa.

A internet está sendo atacada e você está no meio do tiroteio

Alerta: O p2p está morrendo?

Há alguns anos atrás havia um entusiasmo muito grande com o p2p e suas possibilidades. O compartilhamento de arquivos na internet, via p2p, parecia algo imbatível. A sensação de que toda a produção cultural da humanidade estaria para sempre acessível a um clique e hospedada em computadores de anônimos espalhados pelo mundo era muito grande. As tentativas da indústria do entretenimento de acabar com a festa eram motivo de piada.

Há pouco menos de 10 anos atrás, tínhamos a expectativa que mudanças rápidas e radicais estavam prestes a acontecer: a anunciada morte das gravadoras, a proliferação de artistas independentes (de todas as áreas), a multiplicação de modelos que garantissem uma fonte de renda gerada a partir da interação direta entre público e criador, etc. Hoje compreendemos que essas mudanças são muito mais lentas e progressivas do que esperávamos – e o motivo dessa lentidão não é apenas resistência dos que dependem em manter o antigo sistema de pé (leia-se gravadoras, editoras, etc), mas também da resistência dos próprios criadores e do público. Ninguém sabe muito bem pra onde ir…

O p2p representava a maior parte de todos os dados que navegavam na rede, mas hoje vem perdendo espaço para a web, com cada vez mais vídeos e sites de downloads de arquivos. Veja estudos de 2006 a 2009 e os dados atuais no Internet Observatory. Ou seja, hoje, quando as pessoas buscam aquela música ou aquele filme que querem ver, acabam recorrendo ao You Tube ou a um blog com um link para um site de downloads…

Mas por que o p2p estaria morrendo?

O que mais me impressiona é que o principal motivo para o declínio do compartilhamento de arquivos é o mau uso, e não a perseguição da indústria e governos querendo proteger direitos autorais. Separei aqui alguns dos motivos que eu vejo como centrais:

  • O Bit Torrent transferiu a busca por arquivos para a web, para o navegador. E a experiência de buscar o que você quer se aproximou a experiência de buscar qualquer coisa no Google. Os softwares de bit torrent ficaram associados a “programas para fazer download”, e não mais como softwares de compartilhamento. Para muita gente, ‘esse tal de torrent’ é só algum jeito diferente de fazer um download.
  • Por associar o torrent com uma ferramenta de download, é de se esperar que as pessoas fechem o programa logo depois de concluir o download, o que quebra o ciclo de compartilhamento.
  • Outra prática que o bit torrent trouxe foi a de compartilhar arquivos empacotados, tipo zip. Nada mais óbvio que, ao baixar um arquivo, a gente descompacte ele e, em seguida, jogue fora o pacote. Pronto, não estamos mais compartilhando o pacote.

Ou seja, o p2p se popularizou sem que as pessoas realmente entendessem o que ele é ou como ele funciona. Ou, se entenderam, não ligaram muito pra isso, pois não vêem nenhuma diferença entre baixar um álbum via p2p ou um site de downloads. O que importa é que ele esteja disponível.

Além disso, surgiram outros serviços que, apesar de não ter nada a ver com o p2p, acabaram o substituindo para muita gente. Me refiro a radios online, como a pandora, grooveshark e outras, onde é possível ouvir muita coisa online (sem precisar baixar) e legalmente. Por último, temos o youTube, que tem papel fundamental nisso já que milhares de pessoas se dão ao trabalho de publicar ali acervos completos de programas de TV, documentários, e, apesar de ser uma plataforma de vídeos, muitas músicas.

mas se tudo continua acessível, qual é o problema?

Bom, primeiro é importante dizer que não está tudo disponível. Nos sites de busca de torrents, como o piratebay é muito fácil achar grandes sucessos e lançamentos, mas muito difícil de se encontrar coisas antigas, mais raras, ou a produção nova independente.

Iniciativas de acervos, como o Som Barato e o Um que Tenha, são louváveis, mas frágeis. O fato de reproduzirem um modelo onde eles são os “provedores de conteúdo”, faz com que seja muito fácil atacá-los e tirá-los do ar  (como já fizeram antes). E como os arquivos são disponibilizados no rapidshare, um serviço de publicação e downloads, é muito comum encontrar links quebrados para álbuns que foram removidos por denúncias de violação de direitos autorais. Nos casos em que são disponibilizados em torrent, há muitos que não há nenhuma pessoa conectada compartilhando o arquivo – o que impossibilita o download.

O fechamento do MegaUpload recentemente escancarou essa fragilidade.

das pontas para a nuvem

Hoje em dia se fala muito em “nuvem”. E cria-se um imaginário de que subir um arquivo para a nuvem é dissolvê-lo por toda a internet e tê-lo disponível para sempre, de qualquer parte do planeta e a qualquer hora. Não é bem assim. Não é nada assim. Essas “nuvens” que falam tanto não são nada além de grandes Data Centers, com milhares de computadores. Esses centros pertencem a empresas e são muito caros de se manter. Colocar nossa memória nessas máquinas é colocar todo nossa produção nas mãos de poucas empresas e torcer para que elas se mantenham saudáveis (para que não quebrem e apaguem tudo o que é nosso) e com boas intenções (para que não façam mal uso das nossas coisas).

Sobre isso vale a pena ver essa pequena fala do Sergio Amadeu:

o mundo ideal: uma nuvem de pontos

Estamos apontando para um mundo onde usamos de maneira mais inteligente nossos recursos. É preciso economizar água, achar fontes limpas de energia, etc. Boa parte para a solução de todos esses problemas está na descentralização. Dissolver os grandes centros urbandos, as grandes indústrias, as grandes fazendas é um desafio para o próximo século que passa por alternativas de geração de energia, produção de alimentos, produção de “coisas em geral”, cuidado com o lixo e o esgoto – tudo de maneira descentralizada. (Não achem que estou alucinando, placas de energia solar e impressoras 3D são só o começo).

No que diz respeito ao armazenamento da nossa memória, já poderíamos começar direito. Ao invés de termos integrados ao nosso sistema operacional algo que sincroniza nossos dados com algum servidor de uma empresa poderíamos ter nossa memória armazenada em milhares de computadores espalhados pelo mundo. Poderíamos todos compartilhar os recursos ociosos de nossos dispositivos (computadores, celulares, geladeiras) e ter nossa memória dissolvida por todo mundo, acessível apenas para quem nós quiséssemos. Isso sim seria uma nuvem.

Isso já é possível, mas ninguém ainda fez direito.

Alerta: O p2p está morrendo?

Do que vive o músico afinal?

Desde que começamos a discutir as mudanças trazidas pela tecnologia no campo da música, uma questão sempre vem a tona: como o músico vai se sustentar se a música dele circula livremente na internet? Muitas  teorias são expostas, tem gente que diz que ele vai viver de shows, tem gente que diz que se um músico tiver 1000 fãs verdadeiros ele consegue se sustentar, tem gente que diz que vão continuar vendendo CDs e merchandising…

Todo mundo fica tentando adivinhar como que esses atistas vão se sustentar em um futuro próximo. Mas há um tempo eu venho cultivando algumas dúvidas que eu nunca vi ninguém responder:

1. Como vive o músico hoje? Sem teorias, sem hipóteses. Qual a porcentagem média da renda dessas pessoas que vem de shows, de venda de música, de ensaio, de gravação, de composição, etc.

2. Como viveram os músicos durante todo o século XX e o auge da indústria?

3. Como viviam os músicos antes da era da gravação e reprodução mecânica?

Essas perguntas me motivaram a escrever um projeto (que, como muitos outros, nunca saiu do papel) de web-documentário que iria entrevistar uma série de músicos, por todo o Brasil, atrás dessas informações. A proposta era entrevistar artistas da música dos mais variados segmentos (interpretes, bandas independentes, bandas famosas, compositores, músicos eruditos, maestros, músicos populares, etc) desde que todos eles vivessem, de uma forma ou de outra, exclusivamente de música.

Em paralelo a isso seria feita uma pesquisa para mostrar como os músicos se sustentaram durante todos esses séculos até chegarmos a era da indústria cultural, e assim arejar as nossas ideias para pensarmos em novas possibilidades par ao futuro.

Cada episódio seria composto por uma entrevista, e uma exposição sobre como os músicos botavam comida na mesa em algum período da história. Depois de muitos episódios acredito que teríamos um belo panorama do cenário atual, baseado em fatos reais, e não em suposições.

Acredito que um dos motivos pelo qual não fui em frente com isso até hoje é a dúvida de saber se as pessoas estariam dispostas a falar sobre isso, respondendo perguntas do tipo: qual a porcentagem da sua receita que vem de direitos autorais?

E aí descubro que tem gente fazendo isso!

Até que semana passada eu vou ao debate sobre Música, Cultura Digital e políticas públicas e recebo um exemplar da revista “Repensando a Música” editada pelo Auditório Ibirapuera. Nela tomo conhecimento de um projeto de pesquisa da FMC (Future of Music Coalition) chamado Artists Revenue Streams que tem exatamente as mesmas motivações e objetivos que eu tinha no meu projeto de fundo de quintal, mas com uma pegada mais de pesquisa científica e com um método muito mais estruturado. A pesquisa deles é dividida em 3 estágios:

1. Entrevistas com artistas

2. Análise de dados financeiros dos artistas

3. Pesquisa on-line, aberta para qualquer artista responder

Para eles terem sucesso com os passos 1 e 2, os artistas que se dispuserem a participar ficarão anônimos, assim não tem receio de abrir sua vida financeira para os pesquisadores.

A pesquisa já está em andamento e alguns resultados preliminares já estão sendo publicados. Você pode fazer download da revista “Repensando a Música” aqui (link direto para o pdf). O artigo sobre esta pesquisa é o último da revista e traz gráficos e trechos das entrevistas. Recomendo fortemente a leitura.

Alguns resultados interessantes já publicados são referentes ao estudo da vida financeira de 3 músicos: um compositor-instrumentista-líder de banda de jazz, um instrumentista-compositor-sideman de indie rock e uma orquestra de câmara. Veja a distribuição da fonte de renda bruta dessas pessoas:

Interessante também são relatos genuínos que nos ajudam a entender a realidade dos músicos. Veja esse exemplo:

“O que é frustrante neste ano é que eu ganho mais dinheiro fazendo pro-dução de vídeo, mas eu lucro mais quando componho. A coisa menos lucrativa que faço é gravar em estúdio. Se eu cobro 40 dólares a hora [no estúdio] é uma hora em que eu estou realmente trabalhando, e não estou ganhando os 60 ou 80 dólares a hora que ganharia dando aula, e não estou ganhando os 75 a hora que ganharia editando vídeo, e não estou ganhando o que ganharia compondo – e a faixa de preço é, às vezes, 125 ou 200 dólares a hora se estou compondo. Mas o trabalho que está ao meu alcance algumas vezes é o estúdio. A coisa mais lucrativa é composição, e a maior parte da minha renda vem de uma combinação [dessas coisas].”
Compositor de trilha de filme.

Sobre meu projeto… até que me motivei mais, até porque já teria mais material para usar. Por exemplo, eles fizeram uma lista com 29 maneiras possíveis de um músico ganhar dinheiro. Isso poderia enriquecer bastante as entrevistas. Será que os músicos estão abertos a falar disso, será que a abordagem mais acadêmica (e anônima) é mais adequada? Será que essa vai ser só mais uma ideia que fica pelo ar?….

Do que vive o músico afinal?

O ânimo dos investidores

E a preocupação no noticiário matutino é o “ânimo dos investidores”. Uma materia longa metralha dezenas de números a cada sentença e fala de uma tal crise como se fosse uma catástrofe natural, e não a ação deliberada de pessoas. Os índices das bolsas podem ser comparados a massa de ar seco que cobre o país. Ninguém tenta explicar o que está acontecendo, ninguém quer mostrar quem está fazendo o quê para isso estar acontecendo. Ninguém explica porque ninguém entende – muito menos os jornalistas. Não entendem porque ficam olhando só para os números.

O ânimo dos investidores

Cidades para pessoas

Há um tempo atrás esbarrei no projeto “Cidades para pessoas” lá no catarse, uma plataforma de crowd funding brasileira. Gostei demais e apoiei. Nâo vou explicar aqui o projeto, mas basta dizer que é um trabalho jornalístico que vai passar por 12 cidades do mundo onde houveram projetos urbanísticos bem sucedidos que priorizaram as pessoas – e não os carros.

A Natalia já está lá em Copenhagen e essa semana mandou notícias emocionadas contando da entrevista que fez com o arquiteto Jan Gehl, que a inspirou a encarar essa empreitada. Reproduzo aqui um trecho do relato dela, com a resposta dele a sua primeira pergunta:

… Perguntei tudo o que eu e todos vocês queríamos saber: e aí? qual o caminho? Como fazemos para mudar nossa cidade? Para conscientizar as pessoas das nossas cidades de que não adianta construir mais ruas para darem lugar a mais carros? São Paulo tem solução?

– Minha querida Natália, quando você pergunta a uma criança o que ela quer no próximo natal, ela vai te responder com uma lista de objetos que ela conhece. Uma criança nunca vai querer algo que não conheca, certo? O mesmo se dá com as cidades. As pessoas só vão exigir cidades melhores de fato quando elas souberem COMO e o QUÃO melhores as cidades podem ser. Trabalhos como o seu são importantíssimos. Faça muitos vídeos, mostre como a lógica das cidades que vai visitar é muito mais agradável, como elas respeitam a escala humana, como elas oferecem opções mais interessantes para se locomover do que apenas asfalto para os carros e as pessoas vão querer lugares como esses. Se você realmente fizer um bom trabalho, você vai ajudar muito São Paulo a melhorar.

A resposta dele é muito simples, mas muito profunda. As pessoas precisam de referências, de repertório. Entender que São Paulo PODE ser diferente é o primeiro passo para melhorarmos a cidade. A crença de que “São Paulo não tem jeito” é o veneno que nos faz alimentar uma relação parasita com a cidade.

Boa sorte a Natalia. Que faça um ótimo trabalho.

Cidades para pessoas

Coisas que deveriam ser proibidas junto com as sacolas plásticas

  • bandejas de isopor
  • sachês em geral
  • garrafas pet
  • canudos
  • palitos de dente embalados individualmente
  • que mais?

Além disso, deveria haver uma regulamentação pesada em cima de embalagens. As empresas produtoras deveriam ser reponsáveis pelo lixo que as embalagens de seus produtos geram. Hoje em dia qualquer coisa que você compra gera um lixo absurdo de embalagens super elaboradas e exageradas. Isso merece outro post que já está no forno.

Coisas que deveriam ser proibidas junto com as sacolas plásticas

Economia p2p extrema

Eu não podia deixar de escrever sobre isso. Semana passada aconteceu algo extraordinário. Um desses momentos que poderão ser citados por muitos historiadores em um futuro não muito distante quando forem falar da evolução da economia em uma sociedade conectada.

Aconteceu em Amsterdam, de 4 a 6 de abril, a “International EPCA Conference”, com o tema “pagamento digital”. É uma conferência direcionada para banqueiros e outros profissionais do sistema financeiro que discutiu novidades no setor, como pagamentos online, via celular e etc.

Para essa conferência, repleta de senhores e senhoras bem vestidos, convidaram o jovem Amir Taaki (conhecido como Gengix – que, aliás, já esteve com a gente aqui em São Paulo ) para falar sobre o Bit-Coin, um revolucionário sistema de moeda digital p2p.

Assistindo ao vídeo de sua fala, acredito que boa parte da audiência estava pensando que este rapaz deveria estar preso, e não dando palestras. Veja esse depoimento:

“… um sistema de moeda digital anônimo e com seu prõprio serviço de lavagem de dinheiro. Usado para vender drogas. Bit-coin, você me animou!” — Michael Price

Por ter sido um momento de choque de gerações e culturas tão intenso que nenhum dos dois lados realmente entendeu o que se passou, é que achei esse momento tão extraordinário. Mas vou explicar melhor.

Um pirata em meio a comerciantes

Imagem de um dos slides de Amir e da platéia

Imaginem um rapaz chegar na frente de dezenas de banqueiros e abrir um slide com fotos de manifestações contra bancos e falar “as pessoas estão muito insatisfeitas com os bancos”. Depois seguir o raciocínio na direção de que devemos evoluir para um modelo onde não precisamos mais de bancos, já que esses são apenas intermediários que enriquecem as nossas custas. Foi isso que aconteceu.

Gengix é um hacker, não é nenhum palestrante desenvolto. Você percebe que ele está tentando fugir de termos técnicos e falar para uma platéia leiga em tecnologia, mas não consegue completamente. Por outro lado, a franqueza da sua fala cativa a plateia e prende sua atenção até o fim.

Franqueza que fica evidente até quando ele expõe as facetas mais controversas do sistema e suas motivações para trabalhar no projeto. Como o Bit-Coin garante privacidade total nas transações, ele já está sendo usado para vender drogas em alguns lugares – e Amir expõe isso sem nenhum alarde. Sobre suas motivações, ele exalta o Gambling (jogos de apostas) e reclama das fortes regulações a que sites de jogos desse tipo são submetidos.

Se fosse eu apresentando, não seriam esses aspectos que iriam ser destacados. Acho que o potencial de uma moeda p2p é infinitamente maior, especialmente por possibilitar micro-pagamentos entre indivíduos de qualquer parte do planeta, revolucionando a maneira como estamos acostumados a lidar com dinheiro. Afinal, uma moeda só tem valor se um grupo de pessoas concordarem que ela tem. É apenas uma questão de mais  e mais pessoas concordarem que o Bit-Coin tem valor e o aceitarem como pagamento por seus produtos e serviços.

Na minha opinião, essa troca de pequenas quantidades de dinheiro entre pessoas, seja bit coin, dollar ou qualquer outra moeda, é o que vai virar a mesa da produção criativa, que já existe hoje na internet na forma de blogs, músicos independentes, fanzines, enciclopédias, fotógrafos, etc. Com a troca p2p de dinheiro, essas pessoas realmente poderão ganhar a vida fazendo seu trabalho de forma totalmente independente, sem ter que recorrer a outros meios para monetizar sua produção – como publicidade ou acordo com grandes editoras.

Mas afinal, o que é Bit-coin:

Bit coin é uma moeda digital p2p (peer to peer). Isto é, uma moeda (currency) que não depende de nenhum intermediário, como bancos. Toda transação é feita diretamente entre os pares.

Assim como no compartilhamento de arquivos p2p, que não depende de um servidor central, a rede é controlada por todos os pares. Cada transação entre duas pessoas é verificada por outros pares na rede.

E quem coloca mais moeda em circulação na rede? Os próprios pares. Como não há um servidor central cuidando de tudo, é essencial que os computadores de todas as pontas da rede trabalhem. Como forma de incentivar as pessas a cederem o processamento do seu computador e sua conexão a internet para trabalharem na manutenção da rede, as pessoas são recompensadas com bit-coins depois que seus computadores desenvolvem determinadas tarefas para a rede. (Existe um modelo matemático complexo e pensado a longo prazo que estipula quanta moeda será criada nos próximos anos, até chegar a um ponto de estabilidade.. para entender mais detalhes técnicos sugiro ler a FAQ e a Introdução ao BitCoin).

O que é importante entender é que é um modelo consistente de uma moeda totalmente descentralizada que garante total autonomia e privacidade as pessoas. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro e é impossível rastrear quem tem quanto ou quem pagou quanto pra quem.

Assim como o p2p escancarou a crise entre artista e editora, e a necessidade de independência do primeiro em relação ao segundo, a rede também traz a tona uma necessidade de mudança no modelo financeiro. Por que, agora que o dinheiro é apenas informação, dependemos de bancos para realizar transações diretamente com outras pessoas? Por que financiamos lucros exorbitantes a essas instituições?

Eu não sei você, mas eu acho indecente, especialmente no Brasil, os lucros dos principais bancos.

O que o Bit-coin propõe é: ao invés de confiarmos em grandes instituições e na polícia para tomarem conta dessas transações, vamos confiar em fórmulas matemáticas de criptografia. Como o código todo é aberto, todos podem estudá-lo e garantir que o sistema é neutro e seguro.

Não sei, e ninguém sabe, como será a evolução do bit-coin. Mas uma coisa eu tenho certeza, caminhamos para um mundo p2p, onde as pessoas terão autonomia de conversar e fazerem trocas diretamente umas com as outras, sem dependência de intermediários. Um modelo como o bit-coin aponta na direção certa. Se não ele, algo muito parecido com ele será nossa forma mais comum de fazer pagamentos no futuro.

Economia p2p extrema

Inovação e Tecnologias Livres

Acabei de ler, e recomendo, os textos do Felipe Fonseca, que dão um panorama da evolução da visão estratégica da cultura digital (no sentido mais amplo do termo) no Brasil e o que deve vir nos próximos ano.

O Efeefe é um dos fundadores, entre outra coisa, da rede Metareciclagem, que influenciou muitas (muitas mesmo) iniciativas de “inclusão digital” no Brasil e no mundo.

O texto é dividido em duas partes:

E aqui foi o comentário que deixei pra ele:

Salve,

Muito bons os textos. Dá uma visão histórica boa pra quem vê hoje o cenário das ações de “inclusão digital” brasileira e não tem ideia de que o que hoje é consenso, ontem era idealismo.

Queria destacar alguns pontos:

“E necessária a compreensão de que o acesso à informação não basta – precisamos é de participação, cotidianos compartilhados e aprendizado em rede.”

É isso! E isso tem menos a ver com programas de capacitação do que com a emergência de uma cultura de aprendizado coletivo e experimentação. As LAN houses podem ter um potencial grande nisso aí…

No segundo texto eu achei que você amarra muito bem o surgimento da possibilidade de fabricação caseira de utensílios (open hardware, impressoras 3D, etc) com a tal da criatividade brasileira. Isso realmente pode dar muito pé. E isso só se desenvolve coletivamente.

Gostei muito, mas muito mesmo, de um pequeno comentário que você fez sobre esses núcleos: o de que eles “não podem ter medo de gerar renda, criar novos mercados.” – Isso é um ranço do qual precisamos nos livrar aqui no Brasil: “Se é social, ou se é pra pobre, não pode dar dinheiro. As empresas são do mal”. Eu venho pensando, falando e experimentando várias coisas nesse sentido e já tem até um texto em gestação sobre como o modelo jurídico de empresa pode ser muito mais interessante, flexível, eficiente, saboroso e cheiroso do que o terceiro setor.

valeu pelo texto.

Leo,,

Inovação e Tecnologias Livres

Ética Hacker e o WikiLeaks

Depois dos ataques ao site da MasterCard, e a outras instituições que cortaram relação com o site WikiLeaks, a palavra “hacker” caiu mais uma vez nas graças da grande imprensa e do público em geral. Normalmente associada a criminosos, dessa vez veio associada a “ativistas”. Melhorou, não dá pra negar.

Mas aí me lembrei de uma definição da ética hacker que li recentemente no livro “hackers – the heroes of the computer revolution”, e achei bom trazer a tona:

“Access to computers – and anything that might teach you something about the way the world works – should be unlimited and total. Always yield to the Hands-On imperative!”

Ou em uma tradução livre:

“O acesso a computadores – e qualquer coisa que possa te ensinar algo sobre como o mundo funciona – deve ser total e irrestrito. Sempre dê preferência a Mão na Massa”

Ou seja, o conhecimento não deve ser tratado como se fosse um bem escasso – aquele tipo de bem que eu se eu pego o seu você fica sem. O conhecimento e as ferramentas para se adquirir conhecimento devem ser acessíveis a todos.

No ensino de ciências da computação, priorizar a “mão na massa” significa priorizar o acesso do aluno/pesquisador/moleque-curioso ao computador, para que ele possa experimentar. O acesso não deve ser mediado e dificultado por “especialistas” que devem “ensinar” o que fazer e o que não fazer com aquele aparelho. É com a mão na massa que o aprendizado se dá. E é com acesso total e irrestrito que se formam as pessoas mais criativas e capazes de inovar.

Trazendo para o paralelo da informação jornalística, hoje não queremos apenas as informações que os governos ou empresas acham por bem divulgar. Tão pouco nos interessa ter apenas o olhar filtrado e comprometido da grande imprensa. Queremos e devemos ter acesso a íntegra dos fatos que impactam diretamente nossa sociedade – e a partir deles ser capazes de saber o que é e o que não é relevante. E por fim, com ou sem ajuda de mediadores (jornalistas, blogueiros, jardineiros ou djs…) interpretá-los.

Hands On.

Ética Hacker e o WikiLeaks

Entre a cultura popular e a indústria da cultura

Hoje saiu um texto do Luiz Carlos Barreto na Folha de São Paulo criticando o Ministério da Cultura. Queria analisar rapidamente alguns pontos de sua fala:

(Queremos) Um ministério que preserve e alimente fontes da cultura popular, artesanato, tradições culinárias, festas, folguedos e folias populares, e também voltado para a produção de bens artísticos e culturais de forma planejada e sistêmica, que leve a indústria cultural à autossustentabilidade.

E mais adiante

(A questão é ver) quem quer e tem competência para liderar e implementar uma nova política cultural, abrangendo do Brasil do zabumba ao Brasil da fibra ótica.

Ontem, para a coluna da Mónica Bergamo, ele defendeu que “tudo o que diz respeito às indústrias culturais passe
a fazer parte do Ministério da Indústria e do Comércio”.

Antes de mais nada, devemos dizer que ele faz parte do grupo que foi mais afetado pela mudança de política do MinC desde que Gil assumiu a pasta. Antes o MinC era um balcão de financiamento para grandes projetos, e se transformou num potencializador de ações culturais diversas em todo o país. Com a descentralização da distribuição dos recursos e uma postura mais ativa no sentido de desenvolver mais iniciativas culturais os grandes nomes perderam boa parte dos seus recursos.

A Carta Capital deu uma capa, em 2006, com Gil rebatendo as críticas do que ele chamou de “classe dominante” da cultura. Você pode conferir um trecho da entrevista aqui.

Mas nem era isso que eu queria falar. Eu só queria apontar o óbvio da miopia do Barretão. Aparentemente, para ele não existe nada entre a cultura popular e a indústria da cultura. Segundo ele o ministério deve continuar mantendo as culturas tradicionais e investindo no desenvolvimento da indústria. De um lado, a manifestação espontânea, descolada de qualquer atividade comercial, e de outro a indústria que gera empregos e movimenta a economia.

Ele não enxerga o universo que existe entre esses dois pontos que ele coloca, e que é justamente o universo em que o MinC vem atuando com muita força. Para o MinC de hoje, zabumba e fibra ótica não fazem parte de mundos opostos. Ao contrário, a fibra ótica potencializa a ação do zabumba, não só como manutenção de tradições, mas como instrumento inovador, tanto do ponto de vista estético, como do ponto de vista de possibilidades econômicas para a cultura.

Não é a toa. A tecnologia tem papel fundamental nesse caminho de libertar os produtores culturais do processo industrial. Durante quase todo o século XX, por culpa dos suportes físicos e caros meios de produção (discos, câmeras, luzes, etc)  a cultura teve que ser produzida dentro de um processo industrial, e acabou-se criando um entedimento de que poderia ser um produto como qualquer outro que a indústria produz. Mas não é. A cultura é distinta, e o MinC atual entende isso. Hoje em dia cada vez menos existe a necessidade de suporte físico para a cultura, e os meios de produção e distribuição estão cada vez mais baratos.

O que vemos hoje em dia com o início da inpependência da cultura em relação a indústria é a busca de alternativas econômicas e a criação de novos mercados para a cultura. Em todas as áreas temos muitos exemplos de sucessos e fracassos. Mas o fato é que o modelo industrial não é mais o único modelo viável.

Entre a cultura popular e a indústria da cultura