Entre a cultura popular e a indústria da cultura

Hoje saiu um texto do Luiz Carlos Barreto na Folha de São Paulo criticando o Ministério da Cultura. Queria analisar rapidamente alguns pontos de sua fala:

(Queremos) Um ministério que preserve e alimente fontes da cultura popular, artesanato, tradições culinárias, festas, folguedos e folias populares, e também voltado para a produção de bens artísticos e culturais de forma planejada e sistêmica, que leve a indústria cultural à autossustentabilidade.

E mais adiante

(A questão é ver) quem quer e tem competência para liderar e implementar uma nova política cultural, abrangendo do Brasil do zabumba ao Brasil da fibra ótica.

Ontem, para a coluna da Mónica Bergamo, ele defendeu que “tudo o que diz respeito às indústrias culturais passe
a fazer parte do Ministério da Indústria e do Comércio”.

Antes de mais nada, devemos dizer que ele faz parte do grupo que foi mais afetado pela mudança de política do MinC desde que Gil assumiu a pasta. Antes o MinC era um balcão de financiamento para grandes projetos, e se transformou num potencializador de ações culturais diversas em todo o país. Com a descentralização da distribuição dos recursos e uma postura mais ativa no sentido de desenvolver mais iniciativas culturais os grandes nomes perderam boa parte dos seus recursos.

A Carta Capital deu uma capa, em 2006, com Gil rebatendo as críticas do que ele chamou de “classe dominante” da cultura. Você pode conferir um trecho da entrevista aqui.

Mas nem era isso que eu queria falar. Eu só queria apontar o óbvio da miopia do Barretão. Aparentemente, para ele não existe nada entre a cultura popular e a indústria da cultura. Segundo ele o ministério deve continuar mantendo as culturas tradicionais e investindo no desenvolvimento da indústria. De um lado, a manifestação espontânea, descolada de qualquer atividade comercial, e de outro a indústria que gera empregos e movimenta a economia.

Ele não enxerga o universo que existe entre esses dois pontos que ele coloca, e que é justamente o universo em que o MinC vem atuando com muita força. Para o MinC de hoje, zabumba e fibra ótica não fazem parte de mundos opostos. Ao contrário, a fibra ótica potencializa a ação do zabumba, não só como manutenção de tradições, mas como instrumento inovador, tanto do ponto de vista estético, como do ponto de vista de possibilidades econômicas para a cultura.

Não é a toa. A tecnologia tem papel fundamental nesse caminho de libertar os produtores culturais do processo industrial. Durante quase todo o século XX, por culpa dos suportes físicos e caros meios de produção (discos, câmeras, luzes, etc)  a cultura teve que ser produzida dentro de um processo industrial, e acabou-se criando um entedimento de que poderia ser um produto como qualquer outro que a indústria produz. Mas não é. A cultura é distinta, e o MinC atual entende isso. Hoje em dia cada vez menos existe a necessidade de suporte físico para a cultura, e os meios de produção e distribuição estão cada vez mais baratos.

O que vemos hoje em dia com o início da inpependência da cultura em relação a indústria é a busca de alternativas econômicas e a criação de novos mercados para a cultura. Em todas as áreas temos muitos exemplos de sucessos e fracassos. Mas o fato é que o modelo industrial não é mais o único modelo viável.

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Entre a cultura popular e a indústria da cultura

5 comentários sobre “Entre a cultura popular e a indústria da cultura

    1. Caro Leo, me perdoe pela intromissão sem termos sido apresentados. Só quero fazer mais uma consideração a respeito do tema que, na verdade, merece muitas considerações. Penso que a história de Luiz Carlos Barreto é digna de respeito e, por isso mesmo, deveria ser suficiente para os seus negócios serem auto-suficientes. Muito mais fácil para ele ter associações produtivas com a grande mídia do que nós, pequenos produtores anônimos que produzem mal tirando recursos do pouco salário que ganhamos. O fato mais importante, no entanto, é que Gil e Juca Ferreira têm um raciocínio de maior alcance do que quem os critica. A diluição dos recursos da Cultura entre os zabumbeiros e festeiros implica na maior de todas as idústrias do país, que está apenas nascendo. A Economia Criativa tem um impacto maior

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  1. A Economia Criativa tem um efeito multiplicador muito maior na economia geral do país do que as obras de um LC Barreto ou de um Itaú Cultural. Não vou entrar na questão da mudança de condição do espectador que passa a produtor e mantenedor de formas tradicionais de cultura, mas vale a pensa lembrarmos disso. O impacto difuso da estratégia de Gil ganhará visibilidade e importância com o passar do tempo. E é óbvio que o alcance e o potencial de melhorar a realidade de pessoas e expressões devalorizadas neste país. Gil abriu uma porta para evitarmos a uniformização da cultura, que é excludente por força da mídia inculta e de seus capatazes. A cultura que anda escondida neste país é um ouro que nunca soubemos minerar. Está na hora de aprendermos a transformá-la em riqueza.

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  2. […] Em seguida, a dimensão digital entra em sinergia total com o projeto. Não apenas como plataforma, como meio de produção de difusão de cultura, mas também como conceito: Com a percepção de que na era digital a cultura se liberta de paradigmas da era industrial, onde há um suporte físico, produção em escala e a ideia de que cultura é uma mercadoria como qualquer outra. Na era digital a cultura pode ser compartilhada livremente e todos só ganham com isso. Revela-se um mundo inteiro de possibilidades de produção, de trocas, de mercados, de manifestações… que antes ficavam perdidas entre a manifestação popular tradicional e a grande indústria cultural. […]

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