Os músicos fazem shows. E os jornalistas?

23 nov

Cada vez mais o jornalista, pelo menos aquele que nasceu e cresceu na internet, é conhecido como um DJ da informação. Ou seja, em meio ao caos de super-informação do qual muita gente ainda tem medo, essas pessoas filtram, fazem conexões, pesquisam, interpretam, criam narrativas, contextualizam e apresentam para nós, meros mortais, uma matéria, um post, um artigo, um vídeo.

São jornalistas culturais, que fazem curadoria de discos e músicas, jornalistas políticos, que cobrem pautas específicas, jornalistas comunitários, preocupados com o lugar onde vivem, jornalistas de moda, de comportamento, e mais uma infinidade de categorias. Se eles se chamam jornalistas ou não, isso não importa.

Não há dúvida de que esse é um papel fundamental para a nossa sobrevivência em rede. Sem essas pessoas, a profecia dos meus velhos professores de jornalismo se tornaria realidade: o excesso de informação só geraria desinformação. É preciso ter esses pontos focais, onde uma grande quantidade de informação é canalizada e recodificada de forma sintética e contextualizada. Sem isso ficaríamos loucos.

Talvez seja redundante ficar aqui reforçando como o papel do jornalista é importante, mas talvez algumas pessoas não se dêem conta. Ou, ainda, algumas pessoas pensem que, na internet, como todo mundo tem as ferramentas, todo mundo é um jornalista, já que nem de diploma precisa mais. Espere aí! Dê uma guitarra na mão de toda a população e não teremos uma nação de guitarristas. Dê um blog na mão de todo mundo e não teremos uma nação de blogueiros!

Quer dizer que continuamos nos informando através da visão parcial dos jornalistas? Sim, mas a grande diferença agora é que não temos apenas uma dúzia de filtros possíveis, temos uma infinidade. E podemos escolher em quem confiamos e quais fontes consultar quando quisermos formar nossa opinião sobre algum assunto.

Surge a possibilidade de reaparecer a figura de um jornalista que está cada vez mais difícil de ser sustentado dentro das redações: aquele que não trabalha apenas editando materiais enviadas pelas assessorias de imprensa; aquele que briga para botar uma pauta; aquele que sai na rua e vai ver com os próprios olhos o que está acontecendo.

E esse cara vive de quê?

Recentemente o Sakamoto publicou um post em que ele faz uma reflexão sobre a crise do “emprego” no jornalismo. Note a palavra destacada: emprego. Há uma crise no trabalho formal, remunerado, com ou sem férias, mas não no ofício do jornalismo.

E essa é realmente uma questão complicada, que vem atingindo um monte de gente que vive da produção do imaterial. Normalmente falamos dos artistas: dos músicos, dos escritores… mas e os jornalistas? e os blogueiros? Esses caras são fundamentais e nunca vi uma discussão (ou até uma preocupação) de novos modelos para que eles possam exercer suas atividades – pelo menos nenhum modelo que pensasse no sustento da atividade diária, e não se baseasse na arrecadação de fundos para reportagens especiais, documentários e coisas com começo, meio e fim.

Precisamos pensar em alternativas para financiar o trabalho diário dessas pessoas. E não há outra solução a não ser criarmos mecanismos para o surgimento de uma economia p2p. Ou seja, uma economia onde o meu dinheiro chegue no bolso desse jornalista ou daquele escritor, sem que eles precisem estar trabalhando numa editora e vendendo papel.

Além do mecanismo, é preciso que se crie uma cultura e uma consciência de que as pessoas precisam fazer o seu dinheiro circular diretamente entre as pessoas que produzem aquilo que elas consomem. Substituir assinatura de jornais por financiamentos em blogs.

Só assim esse cara vai poder se dedicar totalmente ao seu ofício .

No campo da música, o artista faz show. Quando ele faz um show e você gosta, ele te vende uma camiseta, ou até mesmo, quem diria, um CD. Mas e o jornalista? Ele não é um performer, ele não vai ter tantas oportunidades de interagir olho no olho com seu público que, ao ver que aquela quantidade imensa de informação de qualidade que ele consome são produzidas por uma pessoa de carne e osso, e não simplesmente brotam na tela do computador, vai se sensibilizar e comprar algum merchandising dele.

Repito meu mantra: O dia que dar R$1 pra alguém pela rede seja tão simples e rápido quanto dar um click, a economia na internet vai dar uma reviravolta. Blogueiros vão ganhar dinheiro. Músicos vão ganhar dinheiro. Enfim, todos os criadores vão receber pelo seu trabalho. Vamos construir isso?

Tenho que citar aqui a experiência da Itsnoon, que é a primeira que conheço que coloca isso em prática!

Enquanto esse dia não chega, os blogueiros podem pelo menos botar um botão para receber doações, usar o flattr, receber bitcoins, enfim… abrir canais de recepção. O máximo que pode acontecer é ganharem algum dinheiro.

 

You say you want a revolution

3 out

Marta,

No último dia 20, você, como a nova ministra da Cultura, abriu as portas do MinC para receber mais de cem ativistas, produtores, pontos de cultura, quilombolas, ribeirinhos, etc. Cinco dias depois de tomar posse, essa audiência foi muito marcante, representando uma retomada de diálogo e construção coletiva das pautas do MinC – o que tinha sido interrompido na gestão Ana de Hollanda.

Como tantas outras pessoas, eu não pude participar e fazer minha fala. Por isso escrevo essa carta que tem que começar com uma pequena retrospectiva, e terminar com alguns pontos que acredito que devam ser pautas para o ministério no que diz respeito a revolução que você disse estar  disposta a promover (e no que acredito ter capacidade de contribuir). Se estiver com pressa, vá logo para “os desafios”.

Uma pequena retrospectiva apaixonada

É preciso lembrar e repetir que uma revolução já aconteceu dentro do MinC – e não foi pequena. A implantação dos Pontos de Cultura inverteu completamente a lógica de funcionamento do ministério. Primeiro, ao se propor conveniar centenas de pequenos pontos de cultura, ao invés de fazer poucos convênios milionários. Depois, quando, na seleção desses pontos, colocou-se em primeiro lugar o mérito do projeto e, em segundo plano, as exigências burocráticas para o conveniamento.

Essa segunda inversão, sensível e decisiva, marcou uma mudança radical no fluxo de trabalho do MinC. Imagine que as exigências burocráticas para se fazer um convênio com um banco são as mesmas para conveniar um grupo tradicional de maracatu – que não tem o aparelhamento jurídico de uma grande empresa. Imagine ligar para cada ponto, e ajudá-los a providenciar todos os documentos que precisavam: “oi, o seu projeto é muito bom, você foi aprovado, agora precisamos ir atrás da papelada”. Isso foi (pela primeira vez na história do Brasil?) o MinC falando diretamente com a sociedade, escutando, ajudando caso a caso. Foi emocionante ver isso acontecer.

Em seguida, a dimensão digital entra em sinergia total com o projeto. Não apenas como plataforma, como meio de produção de difusão de cultura, mas também como conceito: Com a percepção de que na era digital a cultura se liberta de paradigmas da era industrial, onde há um suporte físico, produção em escala e a ideia de que cultura é uma mercadoria como qualquer outra. Na era digital a cultura pode ser compartilhada livremente e todos só ganham com isso. Revela-se um mundo inteiro de possibilidades de produção, de trocas, de mercados, de manifestações… que antes ficavam perdidas entre a manifestação popular tradicional e a grande indústria cultural.

Percebe-se que, para evoluirmos, é preciso que a cultura seja livre; que a cultura não pode seguir a mesma lógica de outro produto qualquer – a lógica da indústria e do mercado. E o MinC entende isso.

O ministro-guru Gilberto Gil fala em fazer um do-in antropológico, e massagear ” pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do país”. As ideias centrais são: geração de autonomia e protagonismo. O MinC inicia um movimento amplo e descentralizado de valorização e fomento da produção cultural no país.

E agora?

Você abriu a reunião da semana passada afirmando que quer deixar como marca de sua gestão uma revolução nos meios de comunicação, principalmente na internet. E pediu contribuições para isso. Aqui vão os meus pitacos.

Primeiro é importante lembrar que esta é uma revolução da rede. É papel do MinC fomentá-la e criar condições para que a revolução aconteça, mas ela vai acontecer aos poucos, e de maneira caótica e descentralizada. O MinC pode ter papel fundamental em alguns pontos:

. Reforma da Lei de Direitos Autorais – Na perspectiva de que a cultura precisa se libertar dos modelos industriais de produção do século XX, a reforma da LDA, como foi feita, com participação ampla da sociedade e visão avançada do ministério, com certeza colocará o Brasil de novo na vanguarda mundial. Esse é um ponto que, sem dúvida nenhuma, vai deixar a marca que você quer.

. Aprovação do Marco civil da internet – Apesar de não ser diretamente tocado pelo MinC, este pode e deve ter papel decisivo para que o projeto de lei seja aprovado.

Os desafios

Os Pontos de Cultura já estão muito mais conectados do que estavam no começo do programa. A banda larga, lentamente, chega a esses pontos junto com as câmeras, os celulares e, pouco a pouco, estão todos publicando seus conteúdos. O desafio hoje é outro. Precisamos criar alternativas livres para a cadeia de produção e distribuição cultural.

É só pensar que a maioria dos produtores utiliza software pirata para produzir e publicam suas coisas em serviços estrangeiros, como o youTube. Esses serviços impõe licenças de uso que minam a autonomia dos autores, deixando-os refém de suas vontades. O youTube pode explorar comercialmente qualquer vídeo publicado lá (inserido uma propaganda, por exemplo) ou removê-lo se acreditar que ele fere o direito autoral de outra pessoa. Na verdade, o youTube pode fazer o que quiser com os vídeos e o autor não tem a menor garantia de nada. Nossos produtores, hoje, são reféns da boa vontade de empresas estrangeiras para manterem seus conteúdos online.

Note que a sensação de que hoje é tudo fácil e barato, que qualquer um publica o que quiser na tal “nuvem”, é um tanto falaciosa.

É preciso que haja um esforço no fomento ao desenvolvimento de softwares livre para produção multimídia. Muito já foi discutido nesse sentido dentro e fora do ministério. Em parceria com a RNP, houve um grupo de trabalho para se pensar maneiras de financiamento do desenvolvimento de software livre, mas nenhuma ação foi concretizada.

É preciso que haja um esforço na criação de uma estrutura livre de publicação e difusão de bens culturais.

No que diz respeito a infra-estrutura para publicar esse material. Há o Cervo (desenvolvido dentro do MinC), o iTeia, a Rede de servidores livresdiálogos setoriais com a União Europeia para uma parceria nesse sentido, entre outras iniciativas.

A proposta não é que o Ministério centralize o armazenamento de toda a produção cultural brasileira em seus servidores. Isso seria quase como trocar seis por meia dúzia. A ideia é que o MinC desenvolva e inicie uma rede de servidores descentralizados. Dessa maneira, quanto mais instituições ou pessoas aderirem a essa rede, mais estável ela será.

A principal dificuldade nesses pontos é a noção histórica de que desenvolvimento tecnológico está fora da alçada do MinC.

Hoje é a cultura que faz uso inovador das tecnologias. O MinC vem demandando e dependendo de soluções tecnológicas de ponta mas fica totalmente impotente por não ter pernas para desenvolvê-las.

É preciso encontrar maneiras para que o MinC tenha uma equipe de desenvolvimento para dar conta do que é preciso fazer. As ferramentas necessárias para o MinC fazer sua parte nessa revolução não se encontram nas prateleiras de softwares. Não é possível licitar. O MinC precisa assumir o papel de desenvolvedor de tecnologias inovadoras; de desenvolvedor de software (livre); de provedor de infra-estrutura.  Ninguém além dele está pensando em usos tão inovadores da rede. Ninguém além dele vai conseguir entregar as soluções para as suas questões.

Dada minha humilde contribuição, desejo muita sorte a você e me coloco a disposição para ajudar no que estiver a meu alcance.

um abraço

Leo,,

Reinventando a empresa

2 out

Na luta constante de tornar esse planeta um lugar mais decente, vários esforçam se somam: há os ativistas, governos, ongs, coletivos e, também, empresas.

Apesar dessa última ser normalmente vista como a vilã da história, há cada vez mais exemplos de empresas que estão reinventando o sentido normalmente atribuído a uma instituição desse tipo. Tanto do ponto de vista da sua relação com a sociedade quanto da sua gestão interna, existem cada vez mais exemplos de empresas que se preocupam em fazer, através do seu trabalho, uma contribuição que ajude a melhorar a sociedade e, ao mesmo tempo, promovam um ambiente de trabalho justo e saudável.

Diferente das grandes empresas, em que a “responsabilidade social” se baseia em políticas de compensação – eu destruo aqui, mas replanto ali; eu exploro aqui, mas mantenho um projeto social ali – essas novas empresas procuram manter coerência entre seus valores e suas práticas e colocam a sua ação social no centro de sua atividade principal.

Mas será que é mesmo possível promover alguma mudança através de uma empresa? A empresa não é intrinsecamente direcionada ao lucro, e qualquer coisa que a desvie disso será deixado de lado?

Na minha opinião: É possível. Não só é possível mas, dentro do arranjo burocrático que temos hoje no Brasil, é uma excelente opção. Uma empresa não precisa ter como principal objetivo, acima de todos os outros, o lucro. Ela tem que pagar suas contas – mas isso todos nós temos.

Me interessa muito estudar exemplos dessas empresas que vem reinventando a maneira de se trabalhar e de se relacionar com seus clientes, com outras empresas, com os funcionários e com a sociedade.

Para esse novo mundo que começa a dar as caras (com mais colaboração ao invés de competição, com menos desperdício, com mais qualidade de vida, com mais preocupação pelo comum), reinventar a empresa – e por consequência, o trabalho – é fundamental.

Vamos comparar a empresa com algumas outras alternativas:

ONGS

Há um tempo atrás eu escrevi um texto, com tom irônico, sobre uma possível receita de ONG, que normalmente começa com um idealista, passa por uma crise de gestão e sustentabilidade e termina como uma máquina de captação e execução de projetos, emprestando o que há de pior no modelo empresarial.

Via de regra, nas ONGs pequenas luta-se o tempo todo para sobreviver e para conseguir fazer o que se propõe. Os financiamentos são escassos e, quando vem, recusam-se a bancar itens de infra-estrutura (aluguel, telefone, etc) e demandam um grande trabalho administrativo de prestação de contas. Gastar os recursos é complicado, há que se justificar cada centavo para o financiador e, com a energia que resta, finalmente pode-se executar o projeto.

Nesse ambiente de trabalho altamente instável, as pessoas aguentam até o limite da paixão, fazendo com que a rotatividade da equipe seja relativamente alta.

Nas ONGs grandes, a máquina está montada de tal maneira que funciona como uma empresa tradicional. Há o setor administrativo, o setor de captação de recursos, o setor de comunicação… Muitas pessoas, funcionárias, estão ali descoladas de qualquer ideal, mas apenas trabalhando como trabalhariam em qualquer lugar, os setores não se conversam direito e a ONG executa projetos mais ou menos como uma empresa de prestação de serviços – com a diferença que, ao invés de um cliente, tem um financiador que mete o bedelho em cada detalhe e em como o dinheiro é gasto.

Claro que não são todas, grandes ou pequenas, que são assim. Mas esse relato ilustra as dificuldades que existem ao se gerir uma ONG e em como seus gestores ficam rendidos na mão dos financiadores: sem autonomia para gastar o próprio dinheiro e, eventualmente, sem autonomia na elaboração e execução dos projetos.

Governo

Atuar no governo é ao mesmo tempo incrível e horrível.

Incrível porque te dá a possibilidade de executar (ou criar) um política pública de amplo alcance; porque você trabalha com a legitimidade do Estado; porque você tem a oportunidade de fazer com que o governo faça aquilo a que ele se propõe: trabalhar a serviço da sociedade.

Horrível porque você está sujeito a mudanças políticas no alto escalão que, da noite pro dia, podem acabar com o que você está fazendo; porque é muito complicado inovar, tudo o que você fizer tem que ser escalável para toda a extensão de atuação do órgão onde você trabalha – tudo tem que ser mega – e há pouco espaço para experimentação; porque você tem pouquíssima autonomia na execução do orçamento, fazendo a compra de qualquer produto ou serviço simples virar uma verdadeira novela. E, finalmente, porque você tem pouco tempo: até as próximas eleições.

E a empresa?

A empresa tem liberdade de atuação. Pode fazer o que quiser com seu superávit: acumular, reinvestir, distribuir, etc. A empresa não tem que prestar contas sobre suas compras ou contratações. A empresa pode executar os projetos da maneira que quiser. A empresa pode ser transparente, ou pode maquiar seus resultados para os funcionários e sua maneira de trabalhar para os clientes…

É possível fazer um paralelo com o copyleft. Ele nasce como uma alternativa a proteção considerada abusiva do copyright tradicional. Mas para fazê-lo, o copyleft não depende de nenhuma mudança na legislação. No copyright, o autor tem o monopólio para explorar e fazer o que quiser com sua obra. O que o copyleft propõe é: “já que você pode fazer o que quiser, por que você não disponibiliza a sua obra de maneira livre pra que outras pessoas possam usar, desde que levem a liberdade adiante?”. Ao criar uma licença de uso que diz isso, o copyright é usado como meio para se atingir um modelo de livre distribuição, apesar de não ter sido projetado pra isso.

Da mesma maneira, o proprietário de uma empresa tem total autonomia na sua gestão. Como já disse, muito mais autonomia do que um gestor público ou um diretor de ONG. Ele pode seguir buscando o lucro como objetivo primário, fazendo isso explorando o trabalho de funcionários, ou pode propor um modelo de gestão completamente diferente, com outros objetivos e outra maneira de lidar com o superávit. Assim como no caso do autor com o copyleft e o copyright, é tudo uma questão de escolha.

Importante: Não estou dizendo aqui que deveríamos todos abrir empresas ao invés de ongs ou de trabalhar no governo e nem que sou adepto da crença neo-liberal de que o mercado se auto-regula e bom mesmo seria se o governo largasse tudo na mão das empresas. Não! Só estou chamando a atenção para um modelo (a empresa) normalmente ignorado – ou até demonizado – pelos movimentos sociais e ativistas. Uma empresa pode ser, sim, um ótimo modelo de atuação.

Nesse sentido, só depende de nós reinventarmos como uma empresa deve funcionar e quais devem ser seus objetivos primários.

Eu venho experimentando isso na prática na minha empresa, o hacklab, e tenho muito interesse em pesquisar e discutir isso. Aqui  vai uma lista de alguns livros ou experiências. Está longe de ser uma lista completa, mas são coisas que chegaram até mim de alguma maneira e que me interessaram.

Rework – livro do pessoal da 37Signals, que desenvolvem o Ruby on Rails e são responsáveis pelo serviço online BaseCamp. O livro é excelente e propõe muitas rupturas com ideias consolidadas de como uma empresa deve ser gerida e como as pessoas devem fazer o seu trabalho.

Virando a propria mesa – Um incrível relato de como Ricardo Semler implantou, entre outras coisas, um modelo de gestão democrática dentro de uma indústria.

Noded – Uma proposta interessante de organização de freelancers e pequenas empresas para trabalho em rede.

Automattic – A empresa por trás do WordPress.com, tem uma relação fortíssima com o software livre WordPress, responsável por quase 20% de todos os sites na internet, e com o trabalho descentralizado

Development Seed – Empresa americana que trabalha com visualização de dados e mapas. Interessante por que publicam e mantem ferramentas livres e colocam no centro de seu objetivo o trabalho com questões humanitárias.

Esfera – O desafio de, no Brasil, criar uma empresa com um propósito político e ideológico muito específico: Promover a transparência na gestão pública.

My Society – Empresa que desenvolve soluções para organizações sociais, participação democrática, transparência governamental, entre outras coisas.

Itsnoon.net – Empresa brasileira, que começou como ONG, e é um “market place de economia criativa originalmente brasileiro”.

Small is BeautifulEscrevi brevemente sobre ele. Livro de 1973, coloca alguns princípios e narra algumas experiências muito interessantes de empresas que resolveram fazer diferente.

E a listagem de livros seria infinita: Wikinomics, What is mine is yours, The Wealth of networks

Ensayo Sobre la Colaboración en Red

24 set

(original en portugues)

Un grupo de personas se encuentra para compartir experiencias, y en seguida se dan cuenta de que tienen muchas ideas y objetivos en común. El encuentro es intenso, y todos salen de allí decididos a mantener contacto y a colaborar en sus proyectos. Todos vuelven a sus quehaceres y, algún tiempo después, la única colaboración real que consiguieron fue crear una lista de correo electrónico y compartir algunos links interesantes.

¿Usted ya vio algo así alguna vez? Yo sí. Y eso se aplica a congresos, fórums, encuentros de colectividades independientes, de empresas o de cooperativas.

¿Por qué será que uno tiene tanta dificultad para crear canales verdaderos de colaboración, en nuestros proyectos con otras personas? Es más fácil organizar eventos y actividades que estén fuera de nuestro quehacer diario, que involucrar una colaboración externa en nuestro trabajo cotidiano. ¿Cómo crear una red de colaboración que realmente contribuya para el trabajo de cada uno de sus nudos?

En este ensayo quiero explorar un poco la dinámica de las redes de colaboración, aportando una observación de la práctica con redes de desenvolvimiento de Software Libre, que es la más exitosa red de colaboración abierta que existe. Y quédese tranquilo, no es necesario entender nada de software para acompañar la línea de razonamiento.

EL DIBUJO DE UNA RED

Normalmente, cuando dibujamos una red, hacemos así:

De lo que me di cuenta, observando algunas redes de colaboración, es que la colaboración entre nosotros nunca es uniforme y bilateral, como aparece en este dibujo. La mayoría de las veces una parte está contribuyendo con el proyecto de la otra. Lo que me parece es que en realidad existen dos tipos diferentes de conexión entre nosotros. Una conexión de “acción” ( ) que colabora con otro nudo (ayudándolo en su proyecto, haciendo un donativo, enviando informaciones, etc.), y una conexión de “recepción” ( ), que crea un canal de colaboración para que otros nudos lo ayuden. El dibujo quedaría así:

Tengo la impresión de que los nudos que ponen el mayor esfuerzo en crear una conexión de “recepción” tienen más éxito en recibir colaboraciones que actúen directamente sobre su trabajo, porque colaborar con ellos requiere un esfuerzo menor.

Como dije, vamos a empezar con el ejemplo del Software Libre.

HACIENDO SOFTWARE LIBRE

Al contrario de lo que mucha gente pueda pensar, hacer un software libre no significa apenas poner el software y su código fuente a disposición, libremente. Si usted sólo quiere que las personas usen su software, puede ser que eso funcione, pero si usted quiere que otras personas colaboren con su desenvolvimiento, entonces precisa mucho más que eso.

Estas son algunas de las cosas que un desenvolvedor de software libre tiene que hacer si quiere recibir colaboración de otros desenvolvedores:

Mantener el código bien actualizado y documentado

Mantener un sitio para el software, con links para descargar, documentos, y un canal de soporte

Mantener el código en un repositorio público, para que otros desenvolvedores tengan acceso

Internacionalizar el software, para que funcione en diferentes idiomas

Si no hace nada de eso, su software va a funcionar igual. Usted resolverá su problema, y hasta puede permitir que otras personas usen su solución, pero es muy difícil que alguien consiga colaborar. Y esas acciones dan bastante trabajo. Hasta se puede decir que, en algunos casos, un desenvolvedor puede gastar más tiempo creando todas estas estructuras de colaboración (canales de recepción) que realmente programando.

O sea, hacer un software libre da mucho más trabajo que apenas hacer un software; ése es el punto llave.

Bueno, basta de hablar de software; volvamos a las redes de colaboración en general.

DESCOMPLICANDO LA COLABORACIÓN

Si no existe una manera clara de colaborar con un proyecto, será muy difícil que ocurra alguna colaboración, aunque existan personas interesadas en hacerlo. Cuando hay un canal claro y facilitado de colaboración, éste atraerá colaboradores.

El otro día descargué un disco que el músico mismo lo ponía a disposición en su sitio. Era un excelente disco, y me quedé con muchas ganas de retribuirle su trabajo de alguna manera. ¿Pero cómo hacerlo? No lo conozco, no sé dónde vive, no sé su dirección de correo electrónico… Claro que podría encontrar una manera de ubicarlo, pero la dificultad del camino que debería seguir me desanimó, y al fin quedó por eso mismo.

En otro caso semejante, el músico informaba en el sitio una cuenta bancaria. Como la cuenta no era de mi banco, yo no quise pagar las tasas de transferencia. Realmente quería hacerle un donativo, pero no al punto de ir a una agencia y enfrentar una fila para donar lo que costaría un CD.

En el primer ejemplo, el músico, a quien seguramente le gustaría ganar por su álbum, no abre ningún canal de colaboración. En el segundo, abre un canal muy estrecho.

De mi pereza para mandar un correo electrónico al primero, y de ir a una agencia bancaria al segundo, aprendemos una lección: a todos nos gustaría colaborar con otras personas, pero lo haremos en la medida que eso no requiera un esfuerzo desproporcional de nuestra parte.

Pero eso no quiere decir que un traductor, por ejemplo, va a colaborar solamente con traducciones fáciles y rápidas. Lo que eso quiere decir es que ele sólo va a colaborar con proyectos en los cuales llegue rápidamente y sin complicaciones a lo que sabe y le gusta hacer: traducir. Si tiene que mandar un correo electrónico, para hablar con alguien, que le va a mandar un texto en un mal formato, y no está claro lo qué ni cómo tiene que traducir, eso lo va a desanimar. Pero, si existe un proceso claro, en el cual él encuentra rápidamente lo qué y cómo traducir, para dónde enviar, etc., lo hará con placer.

Basta echar un vistazo en las redes de traducción de películas y series extranjeras, que publican sus trabajos en sitios como el “legendas.tv”. Si alguien quiere colaborar con alguna traducción, existe un proceso muy claro de cómo hacerlo.

De la misma forma, un traductor que no sea programador, consigue colaborar con la traducción de softwares libres, sin complicarse, por medio de sitios que ponen a disposición herramientas muy simples para que las personas vayan traduciendo frase a frase.

Con estos ejemplos, incluyendo el de software libre, vemos que las principales funciones de esos canales de recepción son:

Minimizar el esfuerzo necesario para que un colaborador entre en la red (dejando claros los caminos, y tornando fácilmente accesibles todas las informaciones necesarias), y

Potencializar la colaboración, dejando que el colaborador coloque el foco en lo que sabe y le gusta hacer; el programador va a gastar la mayor parte de su energía programando, el traductor traduciendo, y así sucesivamente.

MÁS EJEMPLOS

Hay otros ejemplos fuera de la red de computadores, y me encantaría, con la ayuda de otras personas, rellenar este artículo con casos que no dependen de la internet.

El Ejército de Salvación es un ejemplo extremo; tal vez no en la creación de redes, pero sin duda en la capacidad de crear un canal de recepción. En determinado momento, ellos se dieron cuenta de que donativos de muebles, ropas y utensilios usados, y la venta de de esos objetos en bazares de caridad era una buena fuente de renda para financiar sus trabajos.

Hacía mucho tiempo que ellos tenían ese canal de recepción, que era una forma de recibir donativos. Hasta que, en cierto punto, ellos resolvieron ampliar aún más ese canal, creando toda una estructura para atender, y para recoger de donativos. ¿Qué canal de recepción mejor que ese? Librarse de un sofá viejo puede ser un problema y costar caro, o usted puede llamarlos y ellos vienen a retirarlo en su casa. Usted colabora con ellos, pero en realidad ellos también lo están ayudando.

Claro que mantener esa estructura de atendimiento, camiones, cargadores, etc., también cuesta caro, pero seguramente el número de donativos aumentó lo suficiente como para justificar la inversión.

El foco de trabajo del Ejército de Salvación no es retirar donativos y hacer bazares. Todo eso fue un esfuerzo para crear un poderoso canal de recepción de colaboración.

CONCLUYENDO

Ustedes se habrán dado cuenta de que no incluí, en este ensayo, un punto fundamental para la colaboración: la motivación. Algunas personas colaboran por placer, otras por status, otras por dinero, otras por ideales… Sea cual sea la motivación, es irrelevante para este análisis, que considera que ya tenemos una red de individuos motivados pero que, así mismo, no siempre tiene éxito, por falta de canales de colaboración.

Mi objetivo aquí fue explorar esos dos tipos de conexión en una red de colaboración, y sugerir que es a partir de los canales de recepción que una red de colaboración se forma. No sirve de nada tener una red llena de gente dispuesta a colaborar si no hay canales claros de colaboración. (Claro que existirán excepciones, y que colaboraciones espontáneas ocurren. Pero aquí me refiero colaboraciones constantes y recurrentes).

Crear esos canales de recepción da trabajo. En algunos momentos hasta puede parecer improductivo desviar esfuerzos de sus problemas para construir esos canales, pero ellos son esenciales para que ocurra la colaboración. Encontrar el equilibrio entre ejecutar el trabajo diario y, al mismo tiempo, invertir energía en la infraestructura de colaboración, es el desafío a ser vencido si queremos realmente trabajar en red.

– Tradicion para español por Maynar Patricia Vorga Leite y Ana Campo. gracias eiabel lelex

Ensaio sobre a colaboração em rede

13 set

(version en español, traduzida por Maynar Patricia Vorga Leite y Ana Campo. gracias eiabel lelex!)

Um grupo de pessoas se encontra para compartilhar experiências e logo percebem que tem muitas ideias e objetivos em comum. O encontro é intenso e todas saem de lá determinadas a manterem contato e colaborarem em seus projetos. Todas voltam para os seus afazeres e, algum tempo depois, a única colaboração real que conseguiram foi criar uma lista de emails e compartilhar alguns links interessantes.

Você já viu isso acontecer? Eu já. Muitas vezes. E isso se aplica a Congressos, Fóruns, encontros de coletivos independentes, de empresas ou de cooperativas.

Por que a gente tem tanta dificuldade em criar canais reais de colaboração em nossos projetos com outras pessoas? É mais fácil organizar eventos e atividades que estejam fora do nosso dia-a-dia do que envolver uma colaboração externa no nosso trabalho cotidiano. Como criar uma rede de colaboração que de fato contribua para o trabalho de cada nó dessa rede?

Neste ensaio eu quero explorar um pouco a dinâmica das redes de colaboração, trazendo uma observação da prática das redes de desenvolvimento de software livre, que é a mais bem sucedida rede de colaboração aberta que existe. E fique tranquilo, não é preciso entender nada de software para acompanhar o raciocínio.

O desenho de uma rede

Normalmente, quando fazemos o desenho de uma rede, fazemos assim:

O que eu percebi observando algumas redes de colaboração é que a colaboração entre os nós nunca é uniforme e bilateral como esse desenho coloca. Na maioria das vezes uma parte está contribuindo com o projeto da outra. O que me parece é que na verdade existem dois tipos distintos de conexão entre os nós. Uma conexão de “ação” (), que colabora com outro nó  (ajudando em seu projeto, fazendo uma doação, enviando informações, etc…), e uma conexão de “recepção” (), que cria um canal de colaboração para que outros nós o ajudem. O desenho ficaria assim:

Minha impressão é que os nós que colocam mais esforço em criar uma conexão de recepção têm mais sucesso em receber colaborações que atuem diretamente no seu trabalho, porque colaborar com eles requer menos esforço.

Como disse, vamos começar pelo exemplo do Software Livre

Fazendo Software Livre

Ao contrário do que muita gente pode pensar, fazer um software livre não significa apenas disponibilizar o software e seu código fonte livremente. Se você quer apenas que as pessoas usem o seu software, isso pode funcionar, mas se você quer que outras pessoas colaborem com seu desenvolvimento, você precisa de muito mais.

Aqui estão algumas coisas que um desenvolvedor de software livre tem que fazer se quiser receber a colaboração de outros desenvolvedores:

  • Manter o código bem organizado e documentado
  • Manter um site para o software, com links para download, documentação e um canal de suporte
  • Manter o código em um repositório público, para que outros desenvolvedores tenham acesso
  • Internacionalizar o software, para que ele funcione em diferentes idiomas
Se você não fizer nada disso seu software vai funcionar do mesmo jeito. Você vai resolver o seu problema e pode até liberar sua solução para outras pessoas usarem, mas dificilmente alguém vai conseguir colaborar. E essas ações dão bastante trabalho. Vale até dizer que em alguns casos um desenvolvedor pode gastar mais tempo criando todas essas estruturas de colaboração (canais de recepção) do que realmente programando.
Ou seja, fazer software livre dá muito mais trabalho do que apenas fazer um software – esse é um ponto chave.

Pronto, chega de falar de software, vamos voltar as redes de colaboração como um todo.

Descomplicando a Colaboração

Se não existe uma forma clara de como colaborar com um projeto, muito dificilmente alguma colaboração acontecerá, mesmo se existirem pessoas interessadas em fazê-lo. Quando há um canal claro e facilitado de colaboração, ele atrairá colaboradores.

Outro dia fiz download de um disco que o próprio músico disponibilizava em seu site. Era um disco excelente e eu fiquei com muita vontade de retribuir o trabalho dele com uma doação. Mas como? Eu não o conheço, não sei onde mora, não sei seu email… Claro que eu poderia achar um jeito de encontrá-lo, mas a dificuldade do caminho que eu iria seguir me desencorajou e acabou ficando por isso mesmo.

Em outro caso semelhante, o músico informava no site uma conta bancária. Como a conta não era do meu banco, não queria pagar as taxas de transferência. Queria muito fazer uma doação para ele, mas não a ponto de ir a uma agência e enfrentar uma fila para doar R$15, R$20…

No primeiro exemplo, o músico, que certamente gostaria de receber por seu álbum, não abre nenhum canal de colaboração. No segundo, ele abre um canal muito estreito.

Da minha preguiça de mandar um email para o primeiro e ir a uma agência bancária no segundo, aprendemos uma lição: todos nós gostaríamos de colaborar com outras pessoas, mas o faremos a medida que isso não requeira um esforço desproporcional de nossa parte.

Mas isso não quer dizer que um tradutor, por exemplo, só vai colaborar com traduções fáceis e rápidas. O que isso quer dizer é que ele só vai colaborar em projetos nos quais ele chegue rápida e descomplicadamente ao que sabe e gosta de fazer: traduzir. Se ele tiver que mandar um email, pra falar com alguém, que vai mandar pra ele um texto em um formato ruim, e não está claro o que nem como ele tem que traduzir, isso vai desencorajá-lo. Agora, se existe um processo claro, onde ele rapidamente encontra o que e como traduzir, para onde enviar, etc. ele fará isso com prazer.

Basta dar uma olhada nas redes de tradução de filmes e séries estrangeiras, que publicam seus trabalhos em sites como o legendas.tv. Se alguém quer colaborar com alguma tradução existe um processo muito claro de como fazê-lo.

Da mesma maneira, um tradutor, que não é programador, consegue colaborar com a tradução de softwares livres de maneira muito descomplicada, através de sites que disponibilizam ferramentas muito simples para as pessoas irem traduzindo frase a frase.

Percebemos com os exemplos acima, incluindo o do software livre, que as principais funções desses canais de recepção são:

  • Minimizar o esforço necessário para que um colaborador entre na rede – deixando os caminhos claros e todas as informações necessárias facilmente acessíveis e;
  • Potencializar a colaboração, deixando com que o colaborador foque no que sabe e gosta de fazer – o programador vai gastar a maior parte de sua energia programando, o tradutor traduzindo, e assim por diante.

Mais exemplos

Fora da rede de computadores temos alguns exemplos, e adoraria, com a ajuda de outras pessoas, rechear este artigo de mais casos que não dependem da internet.

O Exército de Salvação é um exemplo extremo – talvez não na criação de redes, mas sem dúvida na capacidade de criar um canal de recepção. Em determinado momento, eles perceberam que doações de moveis, roupas e utensílios usados e a venda desses objetos em bazares beneficentes era uma boa fonte de receita para financiar seus trabalhos.

Há muito tempo eles tinham esse canal de recepção que era uma forma de receber doações. Até que em certo ponto eles resolveram ampliar ainda mais esse canal, criando toda uma estrutura de atendimento e retirada de doações. Quer canal de recepção melhor que esse? Se livrar de um sofá velho pode ser um problema e custar caro, ou você pode ligar que eles vem retirar na sua casa. Você colabora com eles, mas na verdade eles também estão te ajudando.

Claro que manter essa estrutura de atendimento, caminhões, carregadores, etc. custa caro também, mas certamente o número de doações aumentou o suficiente para justificar o investimento.

O foco do trabalho do Exército de Salvação não é retirar doações e fazer bazares. Tudo isso foi um esforço de criar um poderoso canal de recepção de colaboração.

Concluindo

Vocês devem ter percebido que deixei de fora deste ensaio um ponto fundamental para a colaboração: a motivação. Algumas pessoas colaboram por prazer, outras por status, outras por dinheiro, outras por ideais… Seja qual for a motivação, ela é irrelevante para essa análise, que considera que já temos uma rede de indivíduos motivados mas que, mesmo assim, nem sempre é bem sucedida por causa da falta de canais de colaboração.

Meu objetivo aqui foi o de explorar esses dois tipos de conexão em uma rede de colaboração e sugerir que é a partir dos canais de recepção que uma rede de colaboração se forma. Não adianta ter uma rede cheia de gente disposta a colaborar se não houverem canais claros de colaboração. (Claro que existirão exceções, e que colaborações espontâneas acontecem. Mas me refiro aqui a colaborações constantes e recorrentes).

Criar esses canais de recepção dá trabalho. Em alguns momentos pode até parecer improdutivo desviar esforço dos seus problemas para construir esses canais, mas eles são essenciais para que a colaboração aconteça. Encontrar o equilíbrio entre executar o trabalho do dia-a-dia e, ao mesmo tempo, investir energia na infra-estrutura de colaboração, é o desafio a ser vencido se quisermos realmente trabalhar em rede.

A internet está sendo atacada e você está no meio do tiroteio

19 mar

Não se engane, a internet está sob ataque. Desde o começo do ano já tivemos algumas batalhas sangrentas. O Megaupload foi fechado e seus diretores presos – perdemos essa. O governo americano tentou emplacar uma série de leis e tomaram porrada do mundo todo, inclusive de gigantes como google, facebook e wikipediaganhamos essa.

Há algumas semanas Eric Raymond, um dos caras que ajudou a criar o movimento open source e um dos hackers mais respeitados que tem por aí, escreveu uma carta aberta a um dos senadores americanos que estão nessa briga. É uma verdadeira declaração de guerra! “Não mexa com nossa internet!” . No começo do ano, o grupo Anonymous também declarou guerra e vem desde então promovendo uma série de ataques. Agora em março, estão promovendo um boicote a indústria do entretenimento, o março negro.

E eu? E você? O que fazemos no meio desse tiroteio? Assistimos as notícias na TV? Curtimos links no facebook? Nâo. Nós temos papel fundamental nessa história. Eu separei aqui três coisas que considero fundamentais fazer a partir de agora: entender o que está em jogo (para que você possa assumir uma posição bem definida), diminuir nossa vulnerabilidade (para que fique mais difícil de atacarem nossas liberdades) e incentivar a produção independente (ninguém sabe como esse novo modelo que está surgindo vai ser, ajude a inventá-lo!).

1. Entender o que está em jogo.

É preciso ter clareza de que o dilema do direito autoral na internet não é só “uma questão complicada mesmo” e que “tem que ser encontrado um equilíbrio, que talvez algumas coisas que a indústria está querendo fazer (controlar) faça sentido”. Não, não faz! Não estou dizendo que é simples, mas estou dizendo que todos os argumentos que eles colocam são falsos e todas as soluções que eles propõe são um atentado a nossa liberdade e a nossa evolução enquanto humanidade! Não, isso não é exagero! Olha só…

A indústria diz que a pirataria gera milhões de prejuízo: 10 milhões de arquivos foram baixados ilegalmente; Cada arquivo desse, se comprado legalmente, custaria em média 10 dólares: Isso dá 100 milhões de prejuízo.  Essa é a conta que é feita. Mas é óbvio que ela é irreal. Se não houvesse o download, uma ínfima parcela dessas pessoas de fato comprariam o disco ou o DVD. Pense em você, você compraria tudo o que você baixa? Claro que não.

O que a indústria se esforça para não enxergar é que o efeito, na verdade,  é inverso. O compartilhamento de arquivos incentiva o consumo e há mais de um estudo que mostra isso. As pessoas tem contato com muito mais coisas e podem conhecer artistas que nunca conheceriam se não fossem pelas redes de compartilhamento e pelos blogs de música.

O compartilhamento também democratiza o acesso a cultura e ao conhecimento. Precisamos pensar no que está acontecendo fora das grandes cidades. Imagine uma cidade no interior do Amazonas, isolada fisicamente mas conectada pela internet. Se as pessoas que moram nessa cidade quisessem ter acesso legítimo a produção cultural do planeta não poderiam. Não há cinemas, as lojas só vendem os blockbusters e as locadoras oferecem poucas opções. Resta a TV e o rádio. A indústria não oferece um meio para que essas pessoas tenham acesso a produção cultural, mesmo se elas quisessem pagar. O que fazemos então? Dizemos para eles continuarem assistindo TV!? DIzemos para eles que eles não podem participar? Vendamos seus olhos e tapamos seus ouvidos? Isso é um absurdo!

E para quem poderia comprar, o compartilhamento não é só mais barato (de graça) – ele é melhor. É mais rápido (não precisa esperar meses depois do lançamento), é mais prático (download direto na sua casa), não tem limites geográficos (alguns conteúdos vendidos pela indústria só estão disponíves em alguns países) e não tem DRM (você vai poder fazer uma cópia para a sua tia). Pense no caso das séries americanas que algumas horas depois de irem para o ar nos EUA já têm uma versão legendada para download. Se um grupo de pessoas, descentralizadamente e sem fins lucrativos, consegue ter esse nível de serviço porque a indústria não consegue fazer melhor? Porque não quer! Eu já lancei esse desafio e já propus uma receita (e não fui o único a fazê-lo).

E todo o legado de produção cultural que está fora de catálago? Temos que esperar que a indústria resolva achar que vale a pena comercializá-los novamente? Devemos deixar nossa memória apodrecendo em seus arquivos? Claro que não!

Percebem que para proteger meia dúzia de Justins e Ladies a indústria aprisiona toda a história da nossa produção cultural e exclui todas as pessoas que não estão em grandes centros urbanos? De repente chegamos a um ponto na história que podemos compartilhar nossa produção cultural e de conhecimento com o mundo todo instantaneamente, podemos colaborar em escala global, podemos transpor fronteiras geográficas e políticas e unir as pessoas… mas indústria quer desligar a máquina que faz isso porque não consegue se adaptar. Percebe que não estou exagerando quando falo em evolução…?

“Mas nós estamos defendendo o direito dos artistas!” eles vão dizer. Não é verdade. Os artistas estão achando alternativas e cada vez mais percebendo que não dependem dessa indústria de intermediação. Desde os consagrados até os novos independentes, todos estão aprendendo a usar a rede para estabelecer contato direto com seu público. Fechar o megaupload não aumentou em nada a receita de nenhum artista!

E outra, a produção musical nunca esteve tão bem. Basta dar uma olhada na quantidade e na qualidade dos álbuns lançados ano passado. Tem muita coisa boa rolando! Mas a indústria não se dá bem com tamanha diversidade.

O que a SOPA queria e a ACTA quer é que todos os provedores de acesso a conteúdo se transformem em policiais, investigando o tempo todo tudo o que nós fazemos e enviando essas informações as autoridades. Eles querem transformar a rede em uma área totalmente vigiada e querem obrigar as empresas que provêm o conteúdo a transformarem-se em vigilantes. Abrir mão da nossa privacidade e liberdade, matar a internet em sua raíz, para proteger interesses de algumas indústrias dos países desenvolvidos. A Suíça não concorda,  eu não concordo.

E tudo isso que eu falei aqui acima é apenas uma pequena parcela da jogada. Estamos falando de música, de cultura. Mas eles estão de olho em muito mais. Essa lei também seria uma ameaça, por exemplo, aos medicamentos genéricos.

Para saber mais sobre como o ACTA ameaça nossa liberdade e o que podemos fazer, recomendo este dossiê.

Há, no Twitter, intensa postagem com referências a material importante sobre o acordo. Pesquisar por #ACTA. Acompanhar, em particular, as microblogagens de James LoveMichael GiestPhilippe Rivière,OpenActa (rede mexicana) e, no Brasil, de CaribéFátima Conti,Marcelo BrancoSérgio Amadeu.

Aqui no Brasil temos uma briga importante contra o Projeto de Lei do Senador Eduardo Azeredo – que assumiu recentemente a Comissão de Tecnologia do congresso. Saiba o que é e como combater.

Então se alguém te perguntar sobre o assunto, não responda com um ar de confusão, como se fosse uma questão complicada que você não sabe no que vai dar. Diga que essas leis são absurdas e que nesses termos não podemos negociar com a indústria – ela vai ter que mudar e se adaptar.

2. Tomar atitudes práticas no nosso dia a dia na rede para que não fiquemos vulneráveis

A segunda coisa que precisamos fazer envolve uma mudança de hábitos. Para diminuir nossa vulnerabilidade, temos que fomentar as redes P2P. Se continuarmos a usar serviços de upload na “nuvem”, será muito fácil rastrear e apagar nosso conteúdo. Há até relatos de que o google poderia até apagar arquivos mp3 do seu Gmail. Neste modelo, basta tirar um único servidor do ar para afetar o compartilhamento entre milhares de pessoas.

A natureza da internet é o p2p. Ao estarmos em rede, compartihando arquivos e recursos diretamente uns com os outros, se torna muito difícil, pra não dizer impossível, que alguém consiga tirar alguma coisa que publicamos do ar. A rede p2p não depende de apenas um servidor. Todas as pessoas estão ao mesmo tempo servindo e consumindo. Para desligar a rede, seria preciso desligar o computador de todo mundo.

Não entende exatamente o que é o p2p? Basicamente o p2p (ou peer to peer, ponto a ponto) é uma maneira de compartilhar arquivos sem depender de um servidor central. Ao invés de todo mundo baixar um arquivo de um mesmo lugar, todos baixam uns dos outros. Se mais de uma pessoa tem o arquivo que você procura, você pode até baixar de várias pares ao mesmo tempo –  tudo isso automaticamente.

Se quiser entender melhor, tem um artigo no How Stuff Works e outro interessante neste blog do g1. Neste último, escrito por um especialista em segurança, ele coloca:

A única maneira de derrubar por completo essas redes seria por meio de detecção de tráfego, ou seja, bloquear completamente o uso da rede P2P na infraestrutura dos provedores de internet. Isso seria tão difícil quanto prender todos os donos de servidores: tecnicamente, é uma tarefa “pesada” e também complexa, porque protocolos P2P podem utilizar criptografia e outros mecanismos que dificultam a identificação do tráfego.
Além disso, as redes P2P não são maliciosas por conta própria. Proibi-las completamente iria resultar em extensas discussões legais sobre o direito à liberdade de expressão.

A “detecção de tráfego” que ele coloca é um risco real, e já há tentativas de se fazer isso: é a briga pela neutralidade da rede, que é crucial. Esse post já está longo demais para falarmos sobre isso, mas é importante registrar que precisamos ficar espertos.

Então vamos as atitudes práticas:

  • Se você é um DJ ou um cinéfilo, que tem um blog para divulgar filmes ou discos, não divulgue links de sites de download. Use p2p! Incentive e ajude os seus leitores a utilizarem p2p!
  • Se você não publica nada, mas adora baixar. Use p2p! Baixe um bom programa de torrent. Use o SoulSeek para baixar músicas dos seus amigos e descubra como é divertido! E lembre-se, baixe e deixe baixar. Nâo feche o programa assim que o download estiver concluído.

3. Incentivar a produção independente

Ajude os artistas que você gosta.

Estamos todos perdidos com todas essas mudanças e ninguém sabe muito bem como esse povo todo poderá se sustentar. E não estamos falando só de músicos, mas de fotógrafos, artistas plásticos, cineastas, escritores, blogueiros e jornalistas, etc. Mas na verdade a resposta é muito simples: é preciso que o público suporte o trabalho desses produtores diretamente, sem intermediários.

Cobre daquela pessoa de quem você é fã do trabalho: “Ei, eu quero ouvir o seu disco e não achei o link para download no seu site. Eu vou baixar do mesmo jeito, mas eu gostaria de muito de baixar diretamente de você e de ter uma maneira fácil de lhe retribuir”; “como posso retribuir pelo seu trabalho?” e sugira uma alternativa, “por que você não coloca um link para doação; por que  você não vende camisetas?”.

Tenha em mente  que a internet não é uma ameaça a possibilidade de o artista ser remunerado pelo seu trabalho, ao contrário, ela é a solução para que isso aconteça. Nunca na história os autores tiveram uma maneira certa e segura de ganhar dinheiro. Durante o século XX e a era da indústria cultural, alguns poucos entraram em linha de produção e conseguiram – mas foram muito poucos. A internet, traz, pela primeira vez na história, a possibilidade real de que os autores possam viver exclusivamente do seu trabalho autoral, independentemente de contratos com empresas para pautarem seus trabalhos. (Isso também é uma forma de p2p, não é?)

Vamos nessa.

Alerta: O p2p está morrendo?

28 fev

Há alguns anos atrás havia um entusiasmo muito grande com o p2p e suas possibilidades. O compartilhamento de arquivos na internet, via p2p, parecia algo imbatível. A sensação de que toda a produção cultural da humanidade estaria para sempre acessível a um clique e hospedada em computadores de anônimos espalhados pelo mundo era muito grande. As tentativas da indústria do entretenimento de acabar com a festa eram motivo de piada.

Há pouco menos de 10 anos atrás, tínhamos a expectativa que mudanças rápidas e radicais estavam prestes a acontecer: a anunciada morte das gravadoras, a proliferação de artistas independentes (de todas as áreas), a multiplicação de modelos que garantissem uma fonte de renda gerada a partir da interação direta entre público e criador, etc. Hoje compreendemos que essas mudanças são muito mais lentas e progressivas do que esperávamos – e o motivo dessa lentidão não é apenas resistência dos que dependem em manter o antigo sistema de pé (leia-se gravadoras, editoras, etc), mas também da resistência dos próprios criadores e do público. Ninguém sabe muito bem pra onde ir…

O p2p representava a maior parte de todos os dados que navegavam na rede, mas hoje vem perdendo espaço para a web, com cada vez mais vídeos e sites de downloads de arquivos. Veja estudos de 2006 a 2009 e os dados atuais no Internet Observatory. Ou seja, hoje, quando as pessoas buscam aquela música ou aquele filme que querem ver, acabam recorrendo ao You Tube ou a um blog com um link para um site de downloads…

Mas por que o p2p estaria morrendo?

O que mais me impressiona é que o principal motivo para o declínio do compartilhamento de arquivos é o mau uso, e não a perseguição da indústria e governos querendo proteger direitos autorais. Separei aqui alguns dos motivos que eu vejo como centrais:

  • O Bit Torrent transferiu a busca por arquivos para a web, para o navegador. E a experiência de buscar o que você quer se aproximou a experiência de buscar qualquer coisa no Google. Os softwares de bit torrent ficaram associados a “programas para fazer download”, e não mais como softwares de compartilhamento. Para muita gente, ‘esse tal de torrent’ é só algum jeito diferente de fazer um download.
  • Por associar o torrent com uma ferramenta de download, é de se esperar que as pessoas fechem o programa logo depois de concluir o download, o que quebra o ciclo de compartilhamento.
  • Outra prática que o bit torrent trouxe foi a de compartilhar arquivos empacotados, tipo zip. Nada mais óbvio que, ao baixar um arquivo, a gente descompacte ele e, em seguida, jogue fora o pacote. Pronto, não estamos mais compartilhando o pacote.

Ou seja, o p2p se popularizou sem que as pessoas realmente entendessem o que ele é ou como ele funciona. Ou, se entenderam, não ligaram muito pra isso, pois não vêem nenhuma diferença entre baixar um álbum via p2p ou um site de downloads. O que importa é que ele esteja disponível.

Além disso, surgiram outros serviços que, apesar de não ter nada a ver com o p2p, acabaram o substituindo para muita gente. Me refiro a radios online, como a pandora, grooveshark e outras, onde é possível ouvir muita coisa online (sem precisar baixar) e legalmente. Por último, temos o youTube, que tem papel fundamental nisso já que milhares de pessoas se dão ao trabalho de publicar ali acervos completos de programas de TV, documentários, e, apesar de ser uma plataforma de vídeos, muitas músicas.

mas se tudo continua acessível, qual é o problema?

Bom, primeiro é importante dizer que não está tudo disponível. Nos sites de busca de torrents, como o piratebay é muito fácil achar grandes sucessos e lançamentos, mas muito difícil de se encontrar coisas antigas, mais raras, ou a produção nova independente.

Iniciativas de acervos, como o Som Barato e o Um que Tenha, são louváveis, mas frágeis. O fato de reproduzirem um modelo onde eles são os “provedores de conteúdo”, faz com que seja muito fácil atacá-los e tirá-los do ar  (como já fizeram antes). E como os arquivos são disponibilizados no rapidshare, um serviço de publicação e downloads, é muito comum encontrar links quebrados para álbuns que foram removidos por denúncias de violação de direitos autorais. Nos casos em que são disponibilizados em torrent, há muitos que não há nenhuma pessoa conectada compartilhando o arquivo – o que impossibilita o download.

O fechamento do MegaUpload recentemente escancarou essa fragilidade.

das pontas para a nuvem

Hoje em dia se fala muito em “nuvem”. E cria-se um imaginário de que subir um arquivo para a nuvem é dissolvê-lo por toda a internet e tê-lo disponível para sempre, de qualquer parte do planeta e a qualquer hora. Não é bem assim. Não é nada assim. Essas “nuvens” que falam tanto não são nada além de grandes Data Centers, com milhares de computadores. Esses centros pertencem a empresas e são muito caros de se manter. Colocar nossa memória nessas máquinas é colocar todo nossa produção nas mãos de poucas empresas e torcer para que elas se mantenham saudáveis (para que não quebrem e apaguem tudo o que é nosso) e com boas intenções (para que não façam mal uso das nossas coisas).

Sobre isso vale a pena ver essa pequena fala do Sergio Amadeu:

o mundo ideal: uma nuvem de pontos

Estamos apontando para um mundo onde usamos de maneira mais inteligente nossos recursos. É preciso economizar água, achar fontes limpas de energia, etc. Boa parte para a solução de todos esses problemas está na descentralização. Dissolver os grandes centros urbandos, as grandes indústrias, as grandes fazendas é um desafio para o próximo século que passa por alternativas de geração de energia, produção de alimentos, produção de “coisas em geral”, cuidado com o lixo e o esgoto – tudo de maneira descentralizada. (Não achem que estou alucinando, placas de energia solar e impressoras 3D são só o começo).

No que diz respeito ao armazenamento da nossa memória, já poderíamos começar direito. Ao invés de termos integrados ao nosso sistema operacional algo que sincroniza nossos dados com algum servidor de uma empresa poderíamos ter nossa memória armazenada em milhares de computadores espalhados pelo mundo. Poderíamos todos compartilhar os recursos ociosos de nossos dispositivos (computadores, celulares, geladeiras) e ter nossa memória dissolvida por todo mundo, acessível apenas para quem nós quiséssemos. Isso sim seria uma nuvem.

Isso já é possível, mas ninguém ainda fez direito.

Do que vive o músico afinal?

31 ago

Desde que começamos a discutir as mudanças trazidas pela tecnologia no campo da música, uma questão sempre vem a tona: como o músico vai se sustentar se a música dele circula livremente na internet? Muitas  teorias são expostas, tem gente que diz que ele vai viver de shows, tem gente que diz que se um músico tiver 1000 fãs verdadeiros ele consegue se sustentar, tem gente que diz que vão continuar vendendo CDs e merchandising…

Todo mundo fica tentando adivinhar como que esses atistas vão se sustentar em um futuro próximo. Mas há um tempo eu venho cultivando algumas dúvidas que eu nunca vi ninguém responder:

1. Como vive o músico hoje? Sem teorias, sem hipóteses. Qual a porcentagem média da renda dessas pessoas que vem de shows, de venda de música, de ensaio, de gravação, de composição, etc.

2. Como viveram os músicos durante todo o século XX e o auge da indústria?

3. Como viviam os músicos antes da era da gravação e reprodução mecânica?

Essas perguntas me motivaram a escrever um projeto (que, como muitos outros, nunca saiu do papel) de web-documentário que iria entrevistar uma série de músicos, por todo o Brasil, atrás dessas informações. A proposta era entrevistar artistas da música dos mais variados segmentos (interpretes, bandas independentes, bandas famosas, compositores, músicos eruditos, maestros, músicos populares, etc) desde que todos eles vivessem, de uma forma ou de outra, exclusivamente de música.

Em paralelo a isso seria feita uma pesquisa para mostrar como os músicos se sustentaram durante todos esses séculos até chegarmos a era da indústria cultural, e assim arejar as nossas ideias para pensarmos em novas possibilidades par ao futuro.

Cada episódio seria composto por uma entrevista, e uma exposição sobre como os músicos botavam comida na mesa em algum período da história. Depois de muitos episódios acredito que teríamos um belo panorama do cenário atual, baseado em fatos reais, e não em suposições.

Acredito que um dos motivos pelo qual não fui em frente com isso até hoje é a dúvida de saber se as pessoas estariam dispostas a falar sobre isso, respondendo perguntas do tipo: qual a porcentagem da sua receita que vem de direitos autorais?

E aí descubro que tem gente fazendo isso!

Até que semana passada eu vou ao debate sobre Música, Cultura Digital e políticas públicas e recebo um exemplar da revista “Repensando a Música” editada pelo Auditório Ibirapuera. Nela tomo conhecimento de um projeto de pesquisa da FMC (Future of Music Coalition) chamado Artists Revenue Streams que tem exatamente as mesmas motivações e objetivos que eu tinha no meu projeto de fundo de quintal, mas com uma pegada mais de pesquisa científica e com um método muito mais estruturado. A pesquisa deles é dividida em 3 estágios:

1. Entrevistas com artistas

2. Análise de dados financeiros dos artistas

3. Pesquisa on-line, aberta para qualquer artista responder

Para eles terem sucesso com os passos 1 e 2, os artistas que se dispuserem a participar ficarão anônimos, assim não tem receio de abrir sua vida financeira para os pesquisadores.

A pesquisa já está em andamento e alguns resultados preliminares já estão sendo publicados. Você pode fazer download da revista “Repensando a Música” aqui (link direto para o pdf). O artigo sobre esta pesquisa é o último da revista e traz gráficos e trechos das entrevistas. Recomendo fortemente a leitura.

Alguns resultados interessantes já publicados são referentes ao estudo da vida financeira de 3 músicos: um compositor-instrumentista-líder de banda de jazz, um instrumentista-compositor-sideman de indie rock e uma orquestra de câmara. Veja a distribuição da fonte de renda bruta dessas pessoas:

Interessante também são relatos genuínos que nos ajudam a entender a realidade dos músicos. Veja esse exemplo:

“O que é frustrante neste ano é que eu ganho mais dinheiro fazendo pro-dução de vídeo, mas eu lucro mais quando componho. A coisa menos lucrativa que faço é gravar em estúdio. Se eu cobro 40 dólares a hora [no estúdio] é uma hora em que eu estou realmente trabalhando, e não estou ganhando os 60 ou 80 dólares a hora que ganharia dando aula, e não estou ganhando os 75 a hora que ganharia editando vídeo, e não estou ganhando o que ganharia compondo – e a faixa de preço é, às vezes, 125 ou 200 dólares a hora se estou compondo. Mas o trabalho que está ao meu alcance algumas vezes é o estúdio. A coisa mais lucrativa é composição, e a maior parte da minha renda vem de uma combinação [dessas coisas].”
Compositor de trilha de filme.

Sobre meu projeto… até que me motivei mais, até porque já teria mais material para usar. Por exemplo, eles fizeram uma lista com 29 maneiras possíveis de um músico ganhar dinheiro. Isso poderia enriquecer bastante as entrevistas. Será que os músicos estão abertos a falar disso, será que a abordagem mais acadêmica (e anônima) é mais adequada? Será que essa vai ser só mais uma ideia que fica pelo ar?….

O ânimo dos investidores

9 ago

E a preocupação no noticiário matutino é o “ânimo dos investidores”. Uma materia longa metralha dezenas de números a cada sentença e fala de uma tal crise como se fosse uma catástrofe natural, e não a ação deliberada de pessoas. Os índices das bolsas podem ser comparados a massa de ar seco que cobre o país. Ninguém tenta explicar o que está acontecendo, ninguém quer mostrar quem está fazendo o quê para isso estar acontecendo. Ninguém explica porque ninguém entende – muito menos os jornalistas. Não entendem porque ficam olhando só para os números.

Cidades para pessoas

21 mai

Há um tempo atrás esbarrei no projeto “Cidades para pessoas” lá no catarse, uma plataforma de crowd funding brasileira. Gostei demais e apoiei. Nâo vou explicar aqui o projeto, mas basta dizer que é um trabalho jornalístico que vai passar por 12 cidades do mundo onde houveram projetos urbanísticos bem sucedidos que priorizaram as pessoas – e não os carros.

A Natalia já está lá em Copenhagen e essa semana mandou notícias emocionadas contando da entrevista que fez com o arquiteto Jan Gehl, que a inspirou a encarar essa empreitada. Reproduzo aqui um trecho do relato dela, com a resposta dele a sua primeira pergunta:

… Perguntei tudo o que eu e todos vocês queríamos saber: e aí? qual o caminho? Como fazemos para mudar nossa cidade? Para conscientizar as pessoas das nossas cidades de que não adianta construir mais ruas para darem lugar a mais carros? São Paulo tem solução?

– Minha querida Natália, quando você pergunta a uma criança o que ela quer no próximo natal, ela vai te responder com uma lista de objetos que ela conhece. Uma criança nunca vai querer algo que não conheca, certo? O mesmo se dá com as cidades. As pessoas só vão exigir cidades melhores de fato quando elas souberem COMO e o QUÃO melhores as cidades podem ser. Trabalhos como o seu são importantíssimos. Faça muitos vídeos, mostre como a lógica das cidades que vai visitar é muito mais agradável, como elas respeitam a escala humana, como elas oferecem opções mais interessantes para se locomover do que apenas asfalto para os carros e as pessoas vão querer lugares como esses. Se você realmente fizer um bom trabalho, você vai ajudar muito São Paulo a melhorar.

A resposta dele é muito simples, mas muito profunda. As pessoas precisam de referências, de repertório. Entender que São Paulo PODE ser diferente é o primeiro passo para melhorarmos a cidade. A crença de que “São Paulo não tem jeito” é o veneno que nos faz alimentar uma relação parasita com a cidade.

Boa sorte a Natalia. Que faça um ótimo trabalho.