Uma receita de ONG

Muitas ONGs começaram com um trabalho pontual, bem feito e coerente. Mas ninguém gosta de trabalhar muito tempo na precariedade, então é natural as ONGs irem atrás de financiamentos, parcerias com o governo, projetos com a iniciativa privada ou qualquer outra forma de garantir um sustento para seu trabalho.

E logo a organização começa a ficar mais complexa: mais pessoas entram no time e a força de um coração apaixonado não é mais suficiente para gerir a instituição.

É preciso criar um modelo de gestão, processos administrativos. É preciso ganhar agilidade, é preciso largar o amadorismo.

E onde as ONGs vão buscar seus modelos de gestão? Nas empresas!

Vamos lá:

Crie um setor administrativo, contrate especialistas e segmente o trabalho. Agora tudo funciona.

O que resta agora é conseguir manter essa estrutura. E, de repente, o trabalho passa a ser feito em função de projetos, e não o contrário. “o que estão financiando agora? Eu faço.”.

Para aprovar os projetos é preciso ter uma boa imagem. Invista energia para falar bem de você mesmo. Faça vídeos, sites, folders. Vai ser muito difícil você conseguir ter dinheiro pra fazer isso, então pegue os profissionais que estão contratados para executar alguns outros projetos e faça eles pararem pra fazer isso um pouco.

Capte dinheiro junto a empresas e se torne o braço social de uma corporação, que te cobra agilidade, eficiência, transparência e, o mais importante, resultados em forma de material de comunicação que ela possa usar em sua próxima campanha publicitária. E os investidores vão ficar felizes: “eu invisto em uma empresa com responsabilidade social”. E isso pode incentivar também novos investidores, alguns até dessa nova geração, com “consciência” e “atitude”, que vão se sentir bem melhor em investir em uma empresa assim.

Pronto, você caiu na armadilha. Agora você não pode mais parar. Você tem uma estrutura para manter e funcionários para pagar. Feche aquele projeto e já corra atrás de outro. Ganhe escala! Ninguém quer financiar um projetinho pequeno.

Agora os resultados de suas capacitações e intervenções são quantificáveis e quantificados como sabonetes em uma linha de produção.

Bom, claro que agora você não poderá ser totalmente coerente, já que deve ter eficiência empresarial. Talvez você opte por usar copos descartáveis, mesmo sendo uma ONG ambientalista, ou talvez, já que trabalha muito, passe a consumir bens e serviços que, na teoria, desaprova.

E não se preocupe com o distanciamento entre a equipe que realmente executa o trabalho e a diretoria. Normalmente são jovens idealistas que nunca vão enteder a complexidade e a responsabilidade da sua posição. Deixe-os reclamar. E também não esquente a cabeça com a apatia de outros, afinal, agora você oferece empregos e tem gente que está com você simplesmente por isso, não ache que todos vão abraçar a causa de sua ONG. Aliás, é mais fácil lidar com essas pessoas, pois trabalham quietas.

As contas estão sendo pagas? Os financiadores estão felizes? então está indo tudo bem. parabéns!

Leo,,

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