Os músicos fazem shows. E os jornalistas?

Cada vez mais o jornalista, pelo menos aquele que nasceu e cresceu na internet, é conhecido como um DJ da informação. Ou seja, em meio ao caos de super-informação do qual muita gente ainda tem medo, essas pessoas filtram, fazem conexões, pesquisam, interpretam, criam narrativas, contextualizam e apresentam para nós, meros mortais, uma matéria, um post, um artigo, um vídeo.

São jornalistas culturais, que fazem curadoria de discos e músicas, jornalistas políticos, que cobrem pautas específicas, jornalistas comunitários, preocupados com o lugar onde vivem, jornalistas de moda, de comportamento, e mais uma infinidade de categorias. Se eles se chamam jornalistas ou não, isso não importa.

Não há dúvida de que esse é um papel fundamental para a nossa sobrevivência em rede. Sem essas pessoas, a profecia dos meus velhos professores de jornalismo se tornaria realidade: o excesso de informação só geraria desinformação. É preciso ter esses pontos focais, onde uma grande quantidade de informação é canalizada e recodificada de forma sintética e contextualizada. Sem isso ficaríamos loucos.

Talvez seja redundante ficar aqui reforçando como o papel do jornalista é importante, mas talvez algumas pessoas não se dêem conta. Ou, ainda, algumas pessoas pensem que, na internet, como todo mundo tem as ferramentas, todo mundo é um jornalista, já que nem de diploma precisa mais. Espere aí! Dê uma guitarra na mão de toda a população e não teremos uma nação de guitarristas. Dê um blog na mão de todo mundo e não teremos uma nação de blogueiros!

Quer dizer que continuamos nos informando através da visão parcial dos jornalistas? Sim, mas a grande diferença agora é que não temos apenas uma dúzia de filtros possíveis, temos uma infinidade. E podemos escolher em quem confiamos e quais fontes consultar quando quisermos formar nossa opinião sobre algum assunto.

Surge a possibilidade de reaparecer a figura de um jornalista que está cada vez mais difícil de ser sustentado dentro das redações: aquele que não trabalha apenas editando materiais enviadas pelas assessorias de imprensa; aquele que briga para botar uma pauta; aquele que sai na rua e vai ver com os próprios olhos o que está acontecendo.

E esse cara vive de quê?

Recentemente o Sakamoto publicou um post em que ele faz uma reflexão sobre a crise do “emprego” no jornalismo. Note a palavra destacada: emprego. Há uma crise no trabalho formal, remunerado, com ou sem férias, mas não no ofício do jornalismo.

E essa é realmente uma questão complicada, que vem atingindo um monte de gente que vive da produção do imaterial. Normalmente falamos dos artistas: dos músicos, dos escritores… mas e os jornalistas? e os blogueiros? Esses caras são fundamentais e nunca vi uma discussão (ou até uma preocupação) de novos modelos para que eles possam exercer suas atividades – pelo menos nenhum modelo que pensasse no sustento da atividade diária, e não se baseasse na arrecadação de fundos para reportagens especiais, documentários e coisas com começo, meio e fim.

Precisamos pensar em alternativas para financiar o trabalho diário dessas pessoas. E não há outra solução a não ser criarmos mecanismos para o surgimento de uma economia p2p. Ou seja, uma economia onde o meu dinheiro chegue no bolso desse jornalista ou daquele escritor, sem que eles precisem estar trabalhando numa editora e vendendo papel.

Além do mecanismo, é preciso que se crie uma cultura e uma consciência de que as pessoas precisam fazer o seu dinheiro circular diretamente entre as pessoas que produzem aquilo que elas consomem. Substituir assinatura de jornais por financiamentos em blogs.

Só assim esse cara vai poder se dedicar totalmente ao seu ofício .

No campo da música, o artista faz show. Quando ele faz um show e você gosta, ele te vende uma camiseta, ou até mesmo, quem diria, um CD. Mas e o jornalista? Ele não é um performer, ele não vai ter tantas oportunidades de interagir olho no olho com seu público que, ao ver que aquela quantidade imensa de informação de qualidade que ele consome são produzidas por uma pessoa de carne e osso, e não simplesmente brotam na tela do computador, vai se sensibilizar e comprar algum merchandising dele.

Repito meu mantra: O dia que dar R$1 pra alguém pela rede seja tão simples e rápido quanto dar um click, a economia na internet vai dar uma reviravolta. Blogueiros vão ganhar dinheiro. Músicos vão ganhar dinheiro. Enfim, todos os criadores vão receber pelo seu trabalho. Vamos construir isso?

Tenho que citar aqui a experiência da Itsnoon, que é a primeira que conheço que coloca isso em prática!

Enquanto esse dia não chega, os blogueiros podem pelo menos botar um botão para receber doações, usar o flattr, receber bitcoins, enfim… abrir canais de recepção. O máximo que pode acontecer é ganharem algum dinheiro.

 

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