Download é crime? Impressões sobre o debate

Assisti o debate que rolou na MTV com o títutlo: “É crime baixar músicas e filmes?”. O debate foi tenso, com muita carga emotiva na fala do pessoal que defendia a cultura livre, Sergio Amadeu e Marcelo Branco, e muita ironia no pessoal da indústria. Lobão surpreendeu como péssimo mediador, tomando as dores e se tornando um quarto elemento da ‘turma do deixa-disso, a indústria é legal’.

O debate pode ser assistido aqui.

Apesar das ótimas e viscerais intervenções de Sergio e Marcelo, queria puxar aqui alguns pontos que considero essenciais e que ficaram de fora do debate. Acho que são importantes para organizarmos a ideia quando formos entrar numa conversa dessas:

1. Diferenciar pirataria física de download: Em nenhum momento no debate foi pontuada a diferença entre o pirata que cria uma máfia para duplicar CDs e DVDs e vendê-los pela rua da pessoa que faz downloads para uso pessoal. Estavam todos no mesmo balaio durante a discussão. Apesar da divisão ser senso comum para muitos, acho que isso deve ser sempre pontuado explicitamente. (essa confusão acontece logo no início do debate, quando Sergio dá o exemplo das fias k-7 e Lobão o interrompe dizendo que antes a fita k-7 não tinha valor de venda como tem os CDs piratas hoje…. Sergio se referia a fita pra uso pessoal, Lobão fala do comercio…)

2. O download dá acesso a quem não tem acesso: O debate aconteceu em São Paulo, cheio de pessoas que moram em grandes centros urbanos, têm acesso a bons cinemas, boas lojas de discos, banda larga e etc. Nesses debates temos que nos lembrar dos maiores beneficiados pelo acesso ilimitado a cultura.

Vamos tomar por exemplo a cidade de Santarém, no Pará. Com mais de 400 mil habitantes, é o principal centro urbano do Oeste do Pará e da região do Tapajós. Lá não há nenhuma sala de cinema, e as locadoras e lojas de discos não contam com um catálogo muito extenso. A internet dá a possibiilidade a população dessa cidade, e de milhares de outras, de terem acesso a cultura de igual para igual aos grandes centros. A pergunta que deve ser feita aos representantes da indústria é: “Você acredita que as pessoas que moram nessas cidades (que são maiorira no país) não devem ter acesso a todos esses bens culturais apesar de terem a possibilidade?”. E note que essas pessoas não causam prejuízo a indústria, já que, mesmo que elas quisessem, não tem como consumir esses conteúdos!

E as pessoas que vivem nas cidades e comunidades há 3, 6, 12 horas de barco de Santarém? Também devem abdicar da possibilidade de se integrar ao mundo? “O senhor, representante da indústria, realmente acredita que o melhor a ser feito é excluir todas essas pessoas? Estamos falando da maior parte do território nacional.”

E eu? que moro em São Paulo, mas nunca teria acesso a filmes chineses, turcos, holandeses ou croatas e posso ter. Também devo vendar meus olhos? E ao acervo de filmes e músicas históricas, da década de 50, 60, que não teria outra oportunidade de ver a não ser pela internet. Devo fechar meus olhos e assistir Tela Quente?

Se não trouxermos essas questões a tona, parece que tudo o que queremos é poder assistir Lost ao mesmo tempo que os americanos…

3. Não há comprovação de prejuízos a indústria decorrentes do download, ao contrário, há estudos que mostram que ele é benéfico: Mais de um estudo já foi publicando trazendo números que mostram que o compartilhamento de arquivos de músicas e filme befeficia a indústria, uma vez que a maior parte das pessoas que fazem o download já não comprariam o produto de qualquer maneira. Além disso, muitas pessoas compram o CD ou o filme depois de terem tomado contato com um novo artista através do download.

Isso é essencial pois relativiza o que é colocado como uma premissa: ‘O download gera prejuízo’.

4. Cadê os músicos? Acredito que, como falamos tanto a respeito da eliminação do intermediário, não podemos mais fazer debates desse gênero sem a participação do artista: do músico, do escritor, do diretor, etc. Começa a ficar estranho executivos, advogados, intelectuais e ativistas se debatendo para defender o interesse de alguém que não está ali.

Leo,,

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Download é crime? Impressões sobre o debate

4 comentários sobre “Download é crime? Impressões sobre o debate

  1. AC disse:

    Vou contar um caso que é um exemplo do que penso. O lancamento de Tropa de Elite foi precedido por um “derrame” de cds piratas pela cidade toda. Os jornais ouviram “especialistas” academicos que profetizaram o fracasso de bilheteria do filme POR CAUSA da pirataria. UM repórter teve a intuição de ouvir um vendedor de cds piratas da Cinelândia que, com a segurança de quem é do ramo, mandou o seguinte: “Olha, pelo volume de vendas que eu tenho feito e comparando com outros lançamentos, é bilheteria para mais de um milhão de espectadores”. Agora adivinhe quem acertou? O negão, claro.

    Enfim, p2p é divulgação e até arrisco dizer, acompanhando o negão, q até pirataria é divulgação. E a medida q a internet for aproximando mais o público dos seus autores preferidos (em cinema, musica, literatura) vai se criar uma espécie de “mecenato popular” ou seja o autor será sustentado por seus fãs mais fiéis. O que falta são formulas confiáveis, eficientes, rápidas de se operar com pequenas quantias de dinheiro na internet. Esse pra mim é o grande nó. É preciso q as operadoras (talvez elas) criem uma moeda virtual – que não seja dinheiro diretamente mas possa ser convertido em… já pensei em créditos telefonicos como moeda, por exemplo.

    Mas eu vim aqui para outra coisa: elogiar o Post Tabs! rs

    Fica então o elogio e a promessa de voltar para papos mais longos, pq o tema me interessa.

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    1. leogermani disse:

      Salve Antonio,

      Cara, pensamos exatamente a mesma coisa. Pra mim, o grande gargalo para emergir uma “economia p2p” eh a desburocratizacao da troca de pequenas quantias de dinheiro entre as pessoa no ciberespaço. Quando for facil e rapido passar um real para o autor de um blog, ou para uma banda, etc. o moeda vai correr freneticamente. Tem que ser algo simples como um clique, ou como dar um peteleco para o alto numa moeda.

      Estamos tentando fazer isso hoje com o que eh possivel em http://traquitana.org . La vc pode “dar uma força” para o artista pelo pagSeguro, que ateh onde eu sei hoje no Brasil eh o jeito mais facil e rapido de pagar qq coisa na net.

      E aproveito pra dizer q gostei do teu blog tb (http://www.cafeimpresso.com.br/), e vou passar a acompanhar.

      abs

      Leo,,

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  2. AC disse:

    Oi, Leo! Que bom ganhar mais um leitor. O visual do Café é provisório. Estou quebrando a cabeça com o WP e o Atahualpa para criar um novo visual. Se quiser dar uma olhada no andamento da coisa, dê um pulo em (www.pequenosprazeres.com). Gosto muito do Atahualpa sobretudo pq é o unico tema facilmente “customizável”(puxa, qual a palavra em português pra isso? me fugiu) para não inicados em php. Minha idéia é criar uma revista de fato, com capa de abertura e organizado não como um papiro “de trás pra frente” como são os blogs, mas fazendo um uso mais efigaz de categoras e tags. Mas esbarro em cada peqeuo problema q vc nem imagina. Agora estou quebrando a cabeça para descobrir pq só no lá no prototipo aparece o cabeçalho “Archive for the ‘x’ Category” cada vez q vc manda organizar por categoria.
    Quanto a questão da grana, o problema de transferir quantias mínimas é o custo do processo. Por isso acho q será preciso inventar uma moeda virtual que por hora, repito, me parece q pode ser “tempo de conexão”, algo que seria “administrado” pelas operadoras de banda larga. Imagine, carregar um cartão de crédito com “bytes de tempo” e comprar coisas com isso… Não seria genial?
    Outra hora, narro pra vc minha visão do futuro próximo sobre internet e digitalização do mundo. Só adianto uma coisa: o mundo virtual será o mundo dos pobres e excluídos. Ou: para moedas sem lastro, produtos imateriais.
    Ah, vamos usar e-mail e msn para nos comunicarmos. É mais fácil do que ficar voltando a esta caixa de comentários. O meu e-mail é esse mesmo e o msn tb.
    Abração, feliz natal atrasado e feliz ano novo adiantado.

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