Entrevista com Fabianne Balvedi

Entrevista que eu tava devendo há um tempo de publicar aqui. Ainda em relaçao ao artigo que mete o pau no Brasil como um país que fala muito de software livre, mas faz nada ou muito pouco.

Fabs, ou Fabianne Balvedi, já dava aula de software multimidia quando linux ainda era muito menos difundido e amigável do que hoje. É uma das idealizadoras do estudiolivre.org e também trabalhou, junto comigo e muita gente, no projeto Cultura Digital, do Ministério da Cultura.

“o software livre soh funciona pq tem a força de uma grande rede impulsionando o seu uso e desenvolvimento. Para que essa rede consiga se manter eh preciso haver retorno de todos que se utilizam dela…
As pessoas baixam um software da internet e não se importam em saber porque aquilo chega tão fácil ao seu computador”

Texto (levemente) editado de uma papo no IRC.

leogermani: http://www.linux.com/article.pl?sid=07/01/17/2018227
leogermani: q achou?

fabs.jpgfabs: discordo do tom de acusação usado em alguns momentos, mas eu concordo que precisa haver uma revisão urgente na maneira como o governo tem tratado esta questão. a migração precisa ser feita com muito mais seriedade.

discordo principalmente disso aqui: “A lot of government institutions, NGOs, and companies are using the FOSS appeal and its arguments with the masses to do what a Brazilian does best (after playing soccer),” Franco says bluntly: “Corruption.”

achei que ele pegou pesado demais

prefiro o que o kov fala: “is mostly related to free riders and people who are good at communicating stuff that they don’t actually do. I wouldn’t go so far as implying corruption. I have seen no evidence of such a thing related to free software. I’d mention incompetence, free riding, and unawareness, though.”

leogermani: vc falou q concorda com a mudança de postura do governo, vc acha q esse problema do uso sem retorno à comunidade – da apropriação do discurso aliada a uma técnica fraca – é um problema exclusivo do governo?

fabs: não é exclusivo do governo de jeito nenhum. isso também é atitude de pessoas que baixam um software da internet e não se importam em saber porque aquilo lhes chega tão fácil ao seu computador

leogermani: vc pode falar um pouquinho disso? q atitude eh essa? quais sao as consequencias dela?
fabs: eu acho que falta a muitas pessoas um questionamento básico de entender como as coisas funcionam em rede.

o software livre soh funciona pq tem a força de uma grande rede impulsionando o seu uso e desenvolvimento. Para que essa rede consiga se manter eh preciso haver retorno de todos que se utilizam dela

Numa relacao unilateral, produtor/consumidor, por exemplo, vc vê o retorno do produtor com o capital, nao há envolvimento do consumidor; mas nem esse tipo de relacao hoje estah funcionando mais – do produtor impor seus produtos ao consumidor. hoje minha mãe comentou comigo como isso mudou, pq agora ela consegue conversar com seus fornecedores, dar sua opinião e eles cada vez mais abrem isso aos seus clientes e eu acredito que isso soh estah acontecendo pq eles também estao se dando conta de que as relações unilaterais jah nao têm mais lugar em nosso mundo tao interativizado (essa palavra existe?) no caso da rede, este princípio de feedback eh o básico.

leogermani: numa relacao consumidor/produtor, um paga para outro e há uma troca… com o software livre vc acha que as pessoas acabam nao trocando por nao saber como retribuir algo se nao for comprando?

fabs: sim, isso pode ser listado como um dos motivos – com certeza nao o unico, mas acredito que um dos principais. Outro tambem acredito que seja o tal do ‘unawareness’ que o kov fala

leogermani: eh uma mudanca cultural entao

fabs: É sim, com certeza. uma mudança cultural que se faz necessária. É preciso uma mudanca de postura diante das relacoes existentes

leogermani: na prática, como vc imagina uma rede saudável? qual seria a postura de um usuario domestico, e qual seria a postura do governo?

fabs: bem, o usuario domestico deveria tentar de aguma forma colaborar com a rede, e o primeiro passo para isso eh se conectar com uma comunidade relativa as ferramentas que ele mais utiliza. Ele mesmo se beneficiaria muito com este contato, pois poderia receber solucoes para problemas que ele esteja tendo com uma ferramenta especifica.

É uma ilustracao muito tecnica, esta acima, mas funciona pra um primeiro contato. A partir daih, quando se comeca a interagir, eh que as fichas vao caindo. comigo aconteceu assim.

Quanto a questao governamental aih o problema eh mais complexo pq envolve a maquina burocratica, e ela eh cruel. Eu acho que nas relacoes do governo, eh sempre aquela coisa de ‘se correr o bicho pega, se ficar o bicho come’ por um ado vc precisa de tempo para desenvolver uma plataforma, e por outro, vc tem que gastar toda grana que veio pro teu projeto ate o fina do ano, pq caso contrario ela voltará para os cofres da uniao e teu orcamento no ano que vem serah menor.

Vc sabe que a plataforma nao ficará pronta neste tempo – nao com a devida qualidade. Aí o que fazer? nao faz e perde a verba? faz e depois tenta consertar os problemas no meio do caminho, com um monte de gente businando no teu ouvido que a coisa nao funciona? O pioneirismo tb eh complicado. Se uma solucao nunca foi implementada antes, como saber quanto tempo ela tomar para ser feita? e o governo exige prazos, numeros… tudo isso eh incompativel com experimentacoes eh aih que eu acho que entra a universidade

leogermani: queria q vc compartilhasse a experiencia q vc teve na faculdade

fabs: Eu dava aulas para o curso de comunicacao a ESEEI de Curitiba. Em comunicacao a coisa era complicada pq o foco dos alunos quase sempre eh o mercado, e nao a pesquisa eu procurava passar conceitos de ferramentas para eles mas eles exigiam algo mais focado no uso. Dificil contornar isso, principalmente quando se estah usando ferramentas livres que nao estavam ainda no mercado, e hoje muitas delas ainda nao estao…

leogermani: pois eh.. isso era 2001?

fabs:
sim, eu comecei a dar aulas na ESEEI em 2001

leogermani: e usavam SL pra producao multimidia.. coisa q hoje ainda eh dificil.. isso eh pioneirismo por um lado… como vc ve essa postura da eseei?

fabs: bem, dificil falar agora pq nao sei o que hoje estao fazendo por lah, pois pedi licenca em 2004 para ir trabalhar no projeto dos pontos de cultura em Brasilia, mas na epoca isso realmente foi muito bravo da parte deles. Eles iniciaram numa epoca muito muito dificil pra multimidia e sei que contribuiram muito para como ela estah hoje. Só que o preco do pioneirismo muitas vezes eh bem alto

leogermani: como eles contribuiram?

fabs: ainda contribuem. O site internacional mais antigo da comunidade blender eh hoje hospedado por lah. Os tecnicos, usuarios e porfessores que trabalham nos estudios e na configuracao de equipamentos, sempre estao dispostos a ajudar a comunidade eles compartilham o conhecimento deles nao soh com os alunos, mas tb interagem nas listas de discussao dos softwares e tal, ajudando a melhora-los. Eu sou um exemplo de contribuicao da ESEEI pra comunidade 🙂 vc tambem, vc foi lah, lembra?

leogermani: lembro sim, e a galera abriu as portas

fabs: isso eh a rede funcionando :))

leogermani: eu sei que eh muita coisa.. mas conta um pouco do q vc viu la na espanha, daquela ditribuicao do governo de extremadura (eh de la?) como eh a relacao do governo la com isso?

fabs: bem, sobre extremadura eu acho eles maravilhosos em todos os sentidos. Eles realmente estao empenhados em fazer a coisa acontecer. A vantagem deles eh que sao pequenos e mais autonomos, tem mais mobilidade em relacao a burocracias. Tem uma fundacao que cuida do desenvolvimento da distribuicao LINEX, ela eh diretamente ligada ao governo e trata de entender como o uso do SL pode ser feito nas escolas e em outras instancias.Tem tb o lance de ser europa, de ter mais bagagem historica e talz.

Eles tb tem dificuldades, nao se iluda mas, na minha opiniao, tem conseguido fazer um bom trabalho.

leogermani: como eh a relacao deles com a comunidade?

fabs: entao, soh o fato deles terem dado suporte ao nosso projeto de intercambio na espanha jah dah uma ideia de como eh o relacionamento deles com a comunidade SL. Soube que nao soh a nossa iniciativa eles apoiaram, mas tb outra da comunidade debian…

leogermani:
nesses dois casos (eseei) e extremadura, o “feedback” eh mais de participacao na rede, contribuicao com a rede, documentacao, incentivos e etc… mas e código?

fabs: sim mas no caso do linex (extremadura), eles tb investem em desenvolvimento. Aliás, o GNU/LinEX eh o carro chefe da ação deles. As soluções implementadas tem muita qualidade tecnica, que eh o que o artigo que vc mencionou anteriormente critica na postura brasileira e eu concordo.

leogermani: entao voltando ao brasil. Em relação ao projeto q tivemos contato, pontos de cultura. Como vc vê as contribuicoes concretas para o desenvolvimento do SL (moobuntu, estudiolivre, converse, documentacoes no EL)? Você acha que as falhas nesse processo foram por culpa da “maquina”, da dificuldade burocratica de se montar um projeto agil dentro do governo… Oi foi uma coisa deliberada de não considerar essa area uma area estrategica (falando do macro) e se contentar usar o software gratis simplesmente. Uma acao consciente de nao priorizar um feedback concreto, uma ajuda ao desenvolviemnto

fabs: hmm.. acho que pode ter sido uma mistura dos dois. o MinC não tem verba pra suportar desenvolvimento de software e tb nao sei das dificuldades burocraticas para consegui-lo, mas a real eh que a verba do MinC é uma vergonha. Aí tenta parcerias com outros ministerios e a coisa fica emperrada na briga por espacos politicos.

serio, eu nao sei muito bem como se resolve issopq aih entra numa seara que nao eh privilegio da tramento dado ao sl pelo governo, eh o tramento dado a quase todas as areas do nosso governo. Tem muita coisa estrategica as quais nao se estah dando a devida atencao. Todo dia vc ve no jornal que alguem suspendeu uma votacao por conta de nao aprovar tal coisa sob o ponto de vista de tal partido
leogermani: politica…
fabs: eh, politica…

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