Relatos Amazônicos

Esse é o diário de bordo de minha viagem pela amazônia em dezembro/2002 janeiro/2003.

Isolados pela selva, unidos pela água

25/12 – Belém

A primeira coisa que me chamou a atenção quando saímos do sistema de ar-condicionado dos aviões e do aeroporto foi a umidade do ar desse lugar.
Já tinha ouvido falar disso sobre Manaus, mas aqui já fiquei impressionado.
O ar parece mais denso, a sensação nas mãos é de como se elas estivessem meladas, especialmente entre os dedos. Respirar também é diferente, mais difícil. É um efeito parecido com o das saunas úmidas. Em certas horas me senti realmente capaz de mastigar o ar.

De cima, do avião, tivemos uma prévia do que será a floresta. E do que será o rio. Gigante. De baixo, no chão, de volta a nossa condição humana, onde não podemos subir acima das nuvens e observar a floresta a distância e a salvo (a salvo!??), tivemos um gostinho de estar em uma das portas de entrada para a maior floresta tropical do mundo e as margens do maior rio do mundo.

Chegamos ao centro e depois de bater muita perna encontramos um hotel bem barato – Novo Lis – numa travessa da Av. Pres. Vargas. Fica perto do mercado Ver-o-Peso, onde acreditamos ser o centro nervoso do comércio local, mas que está deserto, afinal, é dia de natal. R$25,00, quarto com cama de casal e gancho para rede, com ar condicionado. (mas sem uma boa janela)

Saímos para dar uma volta e paramos para comer no ver-o-peso, na barraca da Socorro. Comemos uma refeição por R$4,00: arroz, feijão, farofa, macarrão, vinagrete, alface e frango frito. Tudo Junto. De colher.

Um frango vivo custa R$3,00.

Fomos ver o preço das passagens de barco para Macapá e Manaus. 80 e 220 reais respectivamente. No caminho para o galpão 10 (terminal hidroviário) sentíamos o cheiro forte das intermináveis pilhas de madeira que esperavam para embarcar para o exterior. Ainda não terminaram de tirar todo o pau-brasil daqui, que agora sai com o carimbo do Ibama.

26/12 – Rio Amazonas – barco de Belem para Macapá

O navio (como são chamados os barcos maiores, esse em que estamos com 3 pavimentos mais um depósito embaixo, junto ao motor. Em cada pavimento barras de ferro cruzam o teto da proa à popa, ao lado dos coletes salva-vidas e das luzes fluorescentes. Nelas que se prendem as redes) passa rapidamente pelo rio, deixando para trás as casas dos ribeirinhos e as canoas onde as pessoas esperam que joguemos alguma coisa, como roupas, bolachas ou mantimentos.
Uma das canoas está bem perto do trajeto do navio. O homem (já homem apesar da pouca idade) fica com um remo na frente, com os olhos atentos no navio que se aproxima. No meio um menino, e atrás uma mulher com outro remo.
Os três não tiram os olhos do navio, que não muda em nada sua trajetória ou velocidade por causa deles. O homem com o remo tem que ser preciso agora, quando o navio está bem perto ele dá uma, duas, três remadas fortes, como um surfista que vai pegar uma onda, e lança o bico da canoa em direção à proa do navio, emparelhando os dois em uma briga desigual. Quando a canoa está muito proxima ao navio ele pula e se agarra ao pneu amarrado na lateral, trazendo uma corda que tem que prender muito rápido e segurar com força.
O menino se segura na canoa que acaba de levar um tranco e já está sendo arrastada pelo navio. A mulher a equilibra com o remo enfiado na água, funcionando como uma quilha.
Alguns passageiros se assustam com o barulho e a agitação, poucos levantam para ver o que está acontecendo.
Finalmente o homem puxa a canoa para perto de si, longe das ondas formadas pelo motor do navio e amarra o seu bico para cima, deixando só a parte traseira na água.

Ele vende camarão e açaí a R$2,00 o saquinho bem servido.


Saímos de Belém sentido Macapá. Penduramos nossas redes junto com mais outras 30 no andar de baixo do navio. No segundo andar ficam outras redes e uma pequena lanchonete na popa. No terceiro andar, descoberto, fica o bar. Luzes piscantes e uma potente aparelhagem de som.
Comemos na lanchonete um belo arroz e feijão com farofa (e que farofa!!! Amarelinha..). Tomamos uma cerveja no bar e fomos dormir.
Acordamos quando o barco aportou em Breves, ao som dos prantos de uma menina que estava ao nosso lado.
Ela vinha tristonha durante toda a viagem. Vez ou outra vinha alguém da tripulação ver como ela estava, chegamos a achar que estava doente. O problema, na verdade, estava a bordo também, bem ao nosso lado. O volume que vinha debaixo de sua rede, enrolado por uma grossa lona, descobrimos, era o caixão de sua filha.
Primeiro vieram busca-la.
Duas mulheres tiveram que a puxar, pois ela se recusava a sair de perto do caixão. Elas vieram decididas, gritando palavras
de força e ordem. No entanto, uma delas, talvez por ter o coração mais mole, não agüentou quando a segurou e a viu desmanchar-se em lágrimas, e chorou também. Chorou e ia andando ao seu lado, com um braço por trás de seus ombros, mas mantendo o rosto para trás da menina, para que esta não visse que outra pessoa também chorava, e que, portanto, de nada valiam as palavras de força que a outra continuava gritando, e melhor seria chorar em cima do caixão até que as lágrimas inundassem o convés e a levassem junto com a filha para o fundo do Amazonas.

Por fim, vieram buscar o caixão, e seguimos viagem.

27/21 – Macapá

Aportamos em Santana. Na beira do cais nos esperavam dezenas de carregadores de malas que, com o barco ainda longe, já ganhavam os seus clientes com gritos e acenos. Com o navio mais próximo, já com a corda amarrada, eles pularam e invadiram o barco, aos montes. Os primeiros vieram decididos, entrando, pegando pacotes e malas e passando para terra firme, com o navio ainda a mais de 1 metro de distância do cais. Depois vieram os que ainda não tinham clientes certos, olhando para os lados, tentando ver se encontravam alguma senhora com malas muito pesadas ou alguém que vinha com mudança.
Depois ainda chegaram as crianças e outros perdidos. Alguns pareciam mesmo entrar no barco só por entrar, como se nunca tivessem entrado em um antes.

Nos hospedamos como convidados na pousada da mãe de Gael, Cecíla. Ótima. Eles também têm uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, com uma grande área preservada às margens do rio Amazonas.

28/12 – Macapá

Decidimos voltar da maloca na beira do rio e apanhar o ônibus da reserva de volta para a pousada. No meio da trilha, um homem com uma peixeira chegou para mim, que era o último da fila, pedindo a mochila. Nervoso e olhando para trás a todo momento, disse para eu falar pra Gael, que já estava mais a frente, parar, se não ele me cortava.
Aquele facão realmente mete medo. Ele o levantava, insinuando um impulso para me dar uma bela facada, mas não fez nada. Gritei para ela parar e procurei acalmar o ladrão, dizendo que estávamos calmos e que não faríamos nada.
Ele continuava olhando para trás, até que chegaram mais dois caboclos. Me mandou ficar de costas e manteve o punho do facão fazendo pressão na minha nuca.
Antes de tudo isso acontecer, quando estávamos na maloca, três homens passaram andando pela grande praia que se forma quando a maré está baixa. Um deles carregava um carangueijo. Eu os cumprimentei e eles pediram água, que eu dei.
Meia hora depois, um deles estava xingando o Fernão de filho da puta e o mandando deitar no chão.
Foi um ‘filho da puta’ meio artificial, não convenceu. Para mim, não havia raiva ali. Não a raiva que normalmente um ‘filho da puta’ expressa. Ali a coisa não era pessoal. Ou simplesmente não era um ladrão profissional, era um daqueles que ainda ficam hesitantes, olhando para trás em busca do suporte dos amigos. Talvez não estivessem assaltando três pessoas específicas, mas uma classe, um ‘tipo’. “A gente vive trocando de papel”, e , naquela hora, éramos os turistas desavisados.

“Não é nada… é só porque a gente é pobre”, disse o que me segurava. O Fernão protestou, dizendo que aquela câmera era o trabalho dele. “Ah é!? E eu sou cantor”, o mesmo respondeu.

Levaram as máquinas fotográficas da Gael e do Fernão, todo meu equipamento de gravação (um gravador de fitinha pequena e um digital, alem de microfone, fitas, etc..) e dinheiro. Mas deixaram o resto (roupas, redes, cadernos, carteiras, documentos, etc…)

Voltamos para a pousada e comemos Fieau Gras (patê de fígado de ganso).

30/12 – Macapá

Ontem Fomos colher acerola na reserva e registrar a ocorrência na delegacia. Nos disseram que talvez nossos netos consigam recuperar alguma coisa, mas foram muito gentis.
No fim da tarde fomos ao Curiaú – antigo quilombo, hoje uma comunidade de negros. Uma paisagem linda, imensos campos verdes, planos e alagados, com pequenos igarapés que os caboclos atravessam com suas canoas.
Garças e mergulhões não paravam de chegar, aos montes, a uma ilha no meio do campo alagado, cheia de árvores altas.

Na mesma ilha onde morava o pequeno Joelson, que colocava a rede para pegar pequenos peixes no quase-seco igarapé em frente ao bar que estávamos. Seu pai tinha acabado de ir para casa de canoa, orgulhoso, dizendo que atrás daquela ilha ainda havia outra, que não se podia ver, com outra casa e energia elétrica, levada por um frágil cabo suspenso.
Foi a primeira vez que sentimos muita falta de nosso equipamento. O lugar daria fotos maravilhosas, ainda mais ao fim da tarde. E Joelson, um menino falante, nos contava como era viver por ali, conviver com as garças e mergulhões, pescar nos igarapés, etc..
A noite comemos Tacacá. Uma sopa de origem indígena, um pouco forte, um pouco estranho. A base do Tacacá é o Tucupi. Que vem da mandioca.
Vale a pena explicar. Praticamente tudo que os índios comem tem mandioca. E, com certeza, tudo o que nós comemos que tem mandioca, vem da cultura indígena.
O processo tradicional de produção da farinha de mandioca é o seguinte: Descascam e ralam a raíz. Depois colocam tudo dentro do Tipiti, um grande canudo feito de palha trançada com uma alça em uma das pontas. Penduram o tipiti com um peso na parte de baixo, dessa maneira ele estica e afina, prensando a mandioca que está dentro. Embaixo colocam o uma cuia para armazenar o caldo que escorre, o Tucupi, que é a base do Tacacá que comemos hoje e do Caxiri (a cerveja dos índios). Depois de seca, retiram a mandioca to tipiti e torram em um grande panelão.
01/01/2003 – Macapá

Ontem almoçamos Maniçoba. Que são as venenosas folhas da mandioca fervidas por, uns dizem, 2 dias, outros, 4, outros, 5 dias. Muito bom.

Assisti a posse de Lula e vi todo o país feliz. O sentimento no Brasil é de uma esperança por mudança, O povo está otimista; eu estou otimista. Um otimismo semelhante, talvez, ao que tomou conta do país ao fim da ditadura e em outros momentos da história. Como nas outras vezes, pensamos “agora vai ser diferente”.
Mas o que sinto mais falta nesse momento são das pessoas tristes. Só se fala em mudança e em reforma mas, ao mesmo tempo, vejo todos felizes e satisfeitos quando, no meu entender, deveriam haver pessoas descontentes. Vejo Fidel Castro e Hugo Chávez juntos com o representante norte-americano.
Quando um ar-condicionado resfria um ambiente, solta, por outro lado, um ar quente. Tão mais quente quanto mais frio se quiser o ambiente. No Brasil, milhões de pessoas vivem no sufocante calor liberado pelos ares-condicionados que refrescam a vida de poucos. O que Lula promete, e a expectativa do Brasil, é refrescar a vida do povo, diminuindo a potência desses ares e, eventualmente, desligando alguns. E quem está acostumado ao conforto não quer abrir mão, não quer nem tirar o ar do máximo e colocar um ou dói níveis a menos.
Talvez seja simplesmente cedo, mas espero, para citar um exemplo, ver latifundiários tristes, pois não há outra maneira de se fazer reforma agrária no Brasil hoje. E espero ver a firmeza do governo em prejudicar alguns para beneficiar a maioria. Ele já se provou capaz de agradar a todos, agora quero ver se vai se mostrar capaz de desagradar alguns.

Dia Internacional da Paz.
Deve ser por isso que as ruas estão tão desertas. Uma ressaca mansa toma conta da cidade. O calor equatorial faz com que fique mais difícil qualquer movimento.
Ainda assim fomos a reserva levar comida para os animais. Mas foi tudo o que fizemos.
Amanhã termina essa primeira etapa da viagem. Inesperada, não-planejada, mas muito, muito boa.

Esta pousada em que estamos é muito freqüentada durante o ano por pesquisadores e intresados na Amazônia que, em sua maioria, vêm a trabalho. Nessa época ela fica vazia, o que foi muito bom, Cecília pôde nos receber sem nenhum problema.
Aqui tivemos ótima comida, muitos pratos típicos. Tivemos passeios. No dia do roubo tínhamos feito um passeio de barco pelo rio e almoçados um peixe (tambaqui) preparado na folha de bananeira na maloca à beira do rio.
Delicioso.
Na reserva vimos de perto macacos, quatis, um veado, cotias, porcos do mato e mais alguns bichos.
Amanhã embarcamos para Santarém. 36 horas, duas noites e um dia.

02/01/2003 – barco Macapá-Santarém

Realmente nos acostumamos mal nesse início de viagem. O barco de Belém para Macapá tinha sido muito bom.
Mesmo no andar de baixo, que é pior pois é mais perto do motor, a viagem tinha sido muito confortável. Além disso, a estadia em Macapá tinha sido 5 estrelas, quarto, comida, cama e roupa lavada.
Agora voltamos para a estrada, ou melhor, para o rio. Logo que chegamos ao barco já sentíamos que essa viagem não seria tão tranqüila quanto a primeira. O andar de cima já estava tomado por redes e, no de baixo, ainda terminavam de carregar caixas de sabão em pó e pilhas no porão.
E demoraram.
Um senhor em uma mesinha acertava as últimas contas das pessoas que queriam mandar algum pacote. Fechavam uma caixa e escreviam em caneta grossa o nome do destinatário, que deve pegá-la na chegada do navio em algum porto no caminho ou em Santarém.
Depois de esperar muito, terminaram de carregar, e nos permitiram pendurar as redes. Um dos homens que supervisionava o carregamento, creio que um dos donos da carga, quando veio falar comigo não tinha certeza se eu era brasileiro, então fez apenas um gesto com as mãos. Eu, para tirar essa dúvida, disse “pode colocar?”. Ele disse que sim mas não parou de me olhar com a mesma expressão de dúvida de antes. “Você fala inglês?”, perguntou. “Falo”, e, então me disse que precisava de uma ajuda em um jogo no videogame que trazia instalado no camarote do barco. Durante a viagem devo ajuda-lo.
Minha rede já estava colocada e achei que estávamos indo embora – já estávamos mais de uma hora atrasados – e que não carregariam mais nada. Já tinham inclusive fechado com tábuas de madeira o buraco no chão que é a porta para o porão, justamente embaixo de nossas redes.
Mas, ainda antes de sairmos, um homem entrou com uma moto.
Mal sabíamos que ainda não estávamos partindo. O barco fez a volta e encostou com o outro lado, em outro lugar do porto. Pediram que mudássemos nossas redes de lugar pois iam “entrar com um carro ali”.

Um carro.

Só depois de entrarem com uma caminhonete D20 (cabine dupla) no barco é que fomos embora. Já com céu escuro.
Serviram uma sopa. A passagem dá direito a café, almoço e janta.
O barulho deste barco é muito maior. Além disso o motor libera um forte calor e um pouco de fumaça que me incomodou no início da noite. Mas, por fim, dormi muito bem.

03/01/2003 – barco

Todo mundo levantou assustado quando o barco deu um tranco no fundo e inclinou para um lado. Mais um pouco e ele tombava, levando homens, mulheres, crianças, cachorros, carros e carga pra água.
Mas foi só um susto, o barco logo voltou ao prumo, mas estava de frente para uma praia, em um lugar raso e, ao tentar fazer a manobra para sair, atolou.
Ele tinha chegado para a beira para deixar um ribeirinho, que antes mesmo do barco balançar pela primeira vez, conhecedor de todas as marés da praia de sua casa, já se atirou na água, sabendo o que ia acontecer.
O navio forçou uma ré, que o fez girar 180 graus no seu próprio eixo, e travou novamente. O ribeirinho chamou seus amigos que vieram ajudar a tentar desencalhar o navio, empurrando a proa para fora e cavando embaixo do casco mas de nada adiantou.

A parte de trás do navio estava enterrada uns 20cm em uma lama dura. O leme não se mexia.
Na proa do barco cada passageiro tinha a sua receita para sair daquela situação: “é jogar a popa para fora”, “é continuar forçando o motor que ele vai cavando um buraco no chão até soltar”, “se continuar forçando só vai atolar mais”, “se descer uns 50 homens o barco sai”, “é esperar o rio encher”. Foi lá que conhecemos o seu Nazareno, velho experiente da navegação, com um chapéu escrito H-44, seus dentes prateados e relógio e anéis dourados. Era a ele que vinham pedir opiniões, que todos respeitavam.
Mas o comandante, que não ouvia a tantas sugestões, e nem a todos os que questionavam sua competência a boca miúda, tinha seu próprio plano.
Os ribeirinhos indicaram o caminho por onde ele tinha que sair. Mas como não conseguia virar o leme, iria esperar outro barco que puxasse a proa para fora. Antes, pediu a todos os passageiros que fossem para a proa do barco, para tentar desencalhar a popa.
Não demorou a chegar os primeiros a nos ajudar. Uma canoa a motor, com um menino no comando, uma criança, uma mulher grávida e um bebê de colo. Junto deles veio um outro barco um pouco maior, mas igualmente pequeno perto do navio. O comandante saltou para a canoa e colocou seu bico empurrando o bico do navio para fora, o outro barco fez a mesma manobra e os dois aceleraram tudo o que podiam durante um tempo, mas o navio não se mexeu.
“Nossa esperança é o Magno Barroso, mas ele ta muito longe”, desabafava o comandante depois de fazer uns contatos pelo rádio.
Ainda veio um outro barco tentar ajudar, mas de nada adiantou. Encalhamos por volta das 3 horas da tarde, e já eram mais de 6 quando o tal Magno Barroso apontou no horizonte. O rio não tinha enchido nem um centímetro. Se não desse certo dessa vez, não saberíamos quanto tempo ficaríamos ali.
O Magno Barroso era um barco do mesmo modelo do nosso, mas menor, muito menor. Também trazia um carro no seu pavimento inferior, um Uno, além de um grande carregamento de cebolas e pessoas, com suas redes trançadas entre as cargas.
Amarraram a corda e puxaram. Finalmente o barco se soltou do chão, mas como puxaram o barco para o lado, e a parte de trás estava encalhada em uma lama dura, alguma peça que faz parte do leme quebrou.
Seguimos viagem rebocados pelo Magno Barroso.
Antes da lama dura a viagem vinha tranqüila. Cruzamos uma daquelas imensas balsas que as vezes se vê no rio. Na primeira viagem tínhamos cruzado duas carregadas de troncos de árvores imensos, no meio do rio, no meio da floresta. Dessa vez ela vinha carregada de conteiners de caminhão, daqueles grandes, compridos. Eram 6 fileiras de 11 conteiners. Gigante.

04/01/2003 – Santarém

Tivemos um a prévia do que é uma viagem de 5 dias nesses barcos. Por causa do encalhe, acabamos atrasando umas 5 horas, deixando a viagem com 2 noites e 2 dias de duração. No meio do último dia a coisa ficou bem cansativa. O barulho incessante do motor, agora dobrado por causa do barco que nos guinchava, o calor insuportável e inúmeros fedores não identificáveis que surgiam pelos cantos deixavam a viagem cada vez mais desconfortável.
Na popa do segundo andar, onde ficava a lanchonete, era possível sentar a sombra, longe do barulho do motor. Em compensação, o que fazia os ouvidos doerem era o som alto, tocando brega e sertanejo, com aquela distorção que parece fazer parte dessas músicas, já que são sempre ouvidas em aparelhos pouco potentes ligados no último volume.

No teto do barco, vento fresco, ambiente silencioso. Mas um sol de rachar. Ou seja, não havia um lugar realmente agradável para ficar.

Chegamos em Santarém junto com o pôr-do-sol. Conforme nos aproximávamos do porto, o sol se aproximava do chão, e refletia mais forte nas águas agora esverdeadas do rio Tapajós.

Até então, tanto o rio Pará quanto o Amazonas, traziam a cor predominante da região. Um marrom barrento, claro. Cor que se repete na pele dos homens e mulheres, descendentes de negros, índios e colonizadores europeus. Cor que se repete também no açaí, brotando em abundância pelas margens dos rios e nas cumbucas de todos, que o comem desde crianças com açúcar, farinha, sal ou peixe frito.

O povo vive em função do rio. O rio é vida, alimento e transporte. E além do gigante Amazonas, toda a floresta é cortada por centenas de rios e igarapés, que abrigam ribeirinhos por todos os cantos. Isolados pela selva, unidos pela água.

Da corda e do nó. É a terra da água. Da força no braço e do jeito no remo. É o povo da água.

A chegada no porto de Santarem foi parecida com as demais. Aquela bagunça, dezenas de carregadores nos esperando. Alguém da tripulação joga a corda e não há um funcionário ali esperando, mas a pessoa que estiver mais perto pega a corda e amarra; muitas vezes é uma criança.

A diferença essa vez é que atracamos ao lado de um barco, e para descer tivemos que atravessar outro barco vazio. As pessoas que vinham no Magno Barroso ainda tinham que atravessar o nosso barco antes, com malas, caixas e crianças.

Em terra ajudei uma mulher a descarregar umas malas e duas crianças do segundo andar do barco.

Fomos com Glen (australiano que conhecemos, escritor, autor do livro “Latin America by Bus and boat, an odd journey”) achar um hotel para ficar. R$25 o quarto para duas pessoas no Hotel Brasil, um sobrado antigo de pé direito alto com portas estreitas e compridas. Nosso quarto é o da esquina, e tem quatro grandes janelas, finas e compridas como as portas. Todos os cômodos respiram juntos, já que as paredes de madeira não vão até o forro do teto, só os dividem em uns 3,5 metros de altura.

Na recepção há uma mesa onde servem o café da manhã. Nas paredes altas atrás do balcão e acima da porta do escritório, bonés e pôesteres de vários grupos e cantores de brega: Beto Douglas, Joh Massay, Marcello Wall, Cícero Rossi, Raphael Soares, Banda Pantacuia, Los Breggas, Banda Frisson, Selma Lemos, Ocion Costa, Sakolejo, Lairton, e a pimentinha do brega, Eryvanya Barros, que devia ter uns 12 anos.

Comemos surubim (peixe) no escabeche (molho com legumes, pimentão, cebola, tomate, etc..). Muito bom.

10/01 – Alter do chão

Bartek já vinha mal do intestino há alguns dias, e hoje eu estava indo para Santarem tirar dinheiro, checar e-mails e comprar a passagem para Manaus.
Antes de sair, ele tinha dúvidas se vinha comigo ou não para ver um médico. Há dias ele não comia bem. Pediu para que eu esperasse um pouco e foi para o mato com um rolo de papel higiênico. Voltou com uma cara assustada e decidido a me acompanhar, ou melhor, para que eu o acompanhasse ao hospital.
Ele veio comigo e o levei ao PS. Até que não esperamos tanto. Depois de fazer a ficha sentamos por 1h30 ou 2h. Fomos chamados e ainda esperamos um pouco em pé.
Um senhor forte entrou todo ralado, com o ombro em carne viva e a testa pingando sangue.
Depois de ficar numa sala um tempo, saiu cambaleando com um curativo meio solto na testa e o ombro ainda aberto. O homem que cuidava dele saiu com as luvas nas mãos viradas para cima. O chamaram lá fora e ele foi conversar com alguém. O senhor, perdido, foi atrás.
Saiu, voltou, e ficou se arrastando pelo CS. Entrando em um corrderor por um lado, e saindo pelo outro.
Fazendo força para ficar em pé e não raspar o ombro nos azulejos velhos das paredes.
Mas raspou.

A médica que nos atendeu, simpática e sorridente, achava graça das minhas perguntas: O que ele deve evitar de comer durante o tratamento? Esse remédio tem algum efeito colateral? …
A suspeita era hemorróida, porque, além de diarréia, ele reclamava de uma ferida ali por perto. A médica pediu para que o ajudante a arrumasse uma luva e depois para fechar a porta. Ficamos na sala: eu, a médica, Bartek já de bunda pro teto, e mais dois ajudantes.
A doutora vestiu as luvas e foi ao exame. Eu sentei do outro lado. ‘Ah, não é nada disso!’, ela disse. E eu e os dois ajudantes fomos lá ver a bunda do Polonês que não devia estar entendendo porque de repente sua bunda interessava a tantas pessoas.

Compramos as passagens para Manaus para o dia seguinte as 11:00.

11/01 – barco Santarem Manaus

Da corda e do nó. É a terra da água. Da força no braço e do jeito no remo. É o povo da água.

5 da manhã. Céu ainda escuro. Pulo da rede, areia no pé. Mala fechada, mais nada no chão. Andar apressado até a canoa de nome cor-de-rosa.
Cruzamos para a vila e corremos para o ponto. Perdemos o ônibus da 6h. O peixe de ontem não caiu muito bem.
Ônibus das 7. Quente e balançando. Peso da mochila no colo. O peixe de ontem não caiu muito bem nem para mim, nem para o Fernão.

Docas de Santarém. Nosso barco está lotado e não podemos entrar. Houve um acidente com outro navio durante a noite e a Capitania dos Portos está em cima, é o que diz quem nos vendeu os bilhetes.

Vemos outro barco encostar. Seguindo o mesmo ritual de tantos outros barcos: Carregadores e vendedores entram, pessoas saem, crianças são descarregadas do andar de cima, caixas são arremessadas por cima do vão alto entre o cais e o navio. Pouco tempo depois de tudo isso, abrem a porta e colocam a prancha de desembraque.

O esquema de vendas de passagem é uma bagunça. Especialmente quando o barco já vem de outra cidade com passageiros. Nosso barco vinha de Belém e já estava lotado. O agente que nos vendeu disse que os outros dois barcos que sairiam também estavam lotados, e que a única opção seria a lancha rápida, 20 reais mais cara.
Outros dois agentes diziam ter passagens para os barcos que o nosso disse estar lotado. Melhor coisa nessas horas é ir perguntar direto no barco. Descemos no cais e um toizinho em uma mesinha improvisada, cheio de notas fiscais na mão, dizia que se vendessem teriam que devolver, pois realmente estava lotado.

Bem, pensei então que nosso agente estava sendo honesto o tempo todo, e, entre esperar 2 dias pelo próximo barco ou pagar 20 reais de diferença por uma viagem 3 vezes mais curta, resolvemos pegar a lancha rápida.
Falei umas boas para os agentes que queriam nos vender passagens para os barcos lotados e levantei a bola do nosso. Quando ele terminava de tirar as passagens para a lancha, chegou um outro agente, com uma mulher desesperada. ‘Troca ela pro Nicolas que ela tá sem dinheiro’. Havia um outro barco normal, que nosso agente dizia desconhecer. Ele se embananou todo e nos deu a passagem para o Couraçado Nicolas.

Outro navio de ferro. Grande. Muito maior do que qualquer outro que já pegamos.

Ele encostou e a primeira coisa que se ouviu de alguém na embarcação foi: “Ninguém embarca! Nem carregador.”

A capitania dos portos iria inspecionar o barco e contar os passageiros. Se ainda houvesse lugar, embarcaríamos.

O peixe caiu ainda pior para o Fernão, que ficou esperando à sombra, em um galpão. Eu tive que ficar de plantão, debaixo de sol, em cima do asfalto.

Enquanto nada se resolvia, carregadores puxavam o saco do chefe do barco para conseguirem entrar. Vendedores, de repente, apareciam já dentro do barco, que estava ancorado com a popa afastada do cais, exatamente para evitar que eles entrassem.

Depois de umas 3 horas (das 11 as 2), 3 oficiais da Capitania dos Portos pediram para o comandante tirar todos os passageiros para o cais para contagem.

Perguntei para um deles, só para conferir, qual seria o processo. Contariam, e se ainda tivesse vaga, embarcaríamos. “Você já tem passagem? Então seu lugar está garantido. Eles não venderiam passagem se não tivesse lugar.” Parecia que ele vinha de outro mundo. Depois de tudo o que já tinha passado, visto e ouvido falar dessas agências de passagem.

Os passageiros saíram e fizeram uma fila enorme para entrar. Contaram umas 245 pessoas. “Ok, vamos fazer a rapa agora”, disse um dos três oficiais com um gesto de quem pega o resto dos temperos que sobram na táboa e joga para dentro da panela com uma faca.

Embarcamos.

Não sabemos o que aconteceu depois na conversa entre os responsáveis pelo barco e o pessoal da capitania dos portos, mas o barco ainda demorou para sair.

Nesse tempo, corremos (literalmente) para achar um lugar para nossas redes. O barco estava completamente lotado e, mais uma vez, ficamos no andar de baixo, perto do motor. Só que dessa vez muito mais espremidos.

Cansado de esperar tanto tempo no sol, tomei um banho apertado e dormi. O Fernão, passando mal, também dormiu.
Como tivemos que ficar ali perto do barco esperando o que ia acontecer, não comemos nada. Acordei faminto, sem saber a que horas serviam a janta. Como o sol já estava quase se pondo, subi para a mesa para esperar por lá.

Outro dia, em Santarem, fui ao banco com o Bartek e nos esprememos na porta do caixa eletrônico para conseguir entrar. ” Não seria muito mais fácil as pessoas deixarem primeiro as que estão dentro sair para depois entrar?”. Essas coisas de europeus… simples…

A comida aqui no barco também rende muitos comentários. Sentamos em uma mesa para umas 25 pessoas e, primeiro, dão os pratos de alumínio. Todos se acotovelam para pegar o seu o mais rápido possível, como se corressem o risco de ficar sem.

Depois os talheres. As colheres são são as mais concorridas. Depois as bendejonas com arroz, macarrão, feijão e carne com batatas. E as pessoas sempre brigando e se acotovelando. Assim como no banco, na entrada e saída dos barcos, como os carregadores em busca de clientes, os vendedores em busca de fregueses, etc…

* Deitei de costas para a água pois era o único jeito que dava, do outro lado me espremeria demais por um lado e ficaria com o pé de uma velha pelo outro.
Fiquei olhando para trás a água clara do Tapajós, virei para frente por algum motivo e, quando voltei a olhar para o rio, ele estava novamente marrom.

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