Do que vive o músico afinal?

31 ago

Desde que começamos a discutir as mudanças trazidas pela tecnologia no campo da música, uma questão sempre vem a tona: como o músico vai se sustentar se a música dele circula livremente na internet? Muitas  teorias são expostas, tem gente que diz que ele vai viver de shows, tem gente que diz que se um músico tiver 1000 fãs verdadeiros ele consegue se sustentar, tem gente que diz que vão continuar vendendo CDs e merchandising…

Todo mundo fica tentando adivinhar como que esses atistas vão se sustentar em um futuro próximo. Mas há um tempo eu venho cultivando algumas dúvidas que eu nunca vi ninguém responder:

1. Como vive o músico hoje? Sem teorias, sem hipóteses. Qual a porcentagem média da renda dessas pessoas que vem de shows, de venda de música, de ensaio, de gravação, de composição, etc.

2. Como viveram os músicos durante todo o século XX e o auge da indústria?

3. Como viviam os músicos antes da era da gravação e reprodução mecânica?

Essas perguntas me motivaram a escrever um projeto (que, como muitos outros, nunca saiu do papel) de web-documentário que iria entrevistar uma série de músicos, por todo o Brasil, atrás dessas informações. A proposta era entrevistar artistas da música dos mais variados segmentos (interpretes, bandas independentes, bandas famosas, compositores, músicos eruditos, maestros, músicos populares, etc) desde que todos eles vivessem, de uma forma ou de outra, exclusivamente de música.

Em paralelo a isso seria feita uma pesquisa para mostrar como os músicos se sustentaram durante todos esses séculos até chegarmos a era da indústria cultural, e assim arejar as nossas ideias para pensarmos em novas possibilidades par ao futuro.

Cada episódio seria composto por uma entrevista, e uma exposição sobre como os músicos botavam comida na mesa em algum período da história. Depois de muitos episódios acredito que teríamos um belo panorama do cenário atual, baseado em fatos reais, e não em suposições.

Acredito que um dos motivos pelo qual não fui em frente com isso até hoje é a dúvida de saber se as pessoas estariam dispostas a falar sobre isso, respondendo perguntas do tipo: qual a porcentagem da sua receita que vem de direitos autorais?

E aí descubro que tem gente fazendo isso!

Até que semana passada eu vou ao debate sobre Música, Cultura Digital e políticas públicas e recebo um exemplar da revista “Repensando a Música” editada pelo Auditório Ibirapuera. Nela tomo conhecimento de um projeto de pesquisa da FMC (Future of Music Coalition) chamado Artists Revenue Streams que tem exatamente as mesmas motivações e objetivos que eu tinha no meu projeto de fundo de quintal, mas com uma pegada mais de pesquisa científica e com um método muito mais estruturado. A pesquisa deles é dividida em 3 estágios:

1. Entrevistas com artistas

2. Análise de dados financeiros dos artistas

3. Pesquisa on-line, aberta para qualquer artista responder

Para eles terem sucesso com os passos 1 e 2, os artistas que se dispuserem a participar ficarão anônimos, assim não tem receio de abrir sua vida financeira para os pesquisadores.

A pesquisa já está em andamento e alguns resultados preliminares já estão sendo publicados. Você pode fazer download da revista “Repensando a Música” aqui (link direto para o pdf). O artigo sobre esta pesquisa é o último da revista e traz gráficos e trechos das entrevistas. Recomendo fortemente a leitura.

Alguns resultados interessantes já publicados são referentes ao estudo da vida financeira de 3 músicos: um compositor-instrumentista-líder de banda de jazz, um instrumentista-compositor-sideman de indie rock e uma orquestra de câmara. Veja a distribuição da fonte de renda bruta dessas pessoas:

Interessante também são relatos genuínos que nos ajudam a entender a realidade dos músicos. Veja esse exemplo:

“O que é frustrante neste ano é que eu ganho mais dinheiro fazendo pro-dução de vídeo, mas eu lucro mais quando componho. A coisa menos lucrativa que faço é gravar em estúdio. Se eu cobro 40 dólares a hora [no estúdio] é uma hora em que eu estou realmente trabalhando, e não estou ganhando os 60 ou 80 dólares a hora que ganharia dando aula, e não estou ganhando os 75 a hora que ganharia editando vídeo, e não estou ganhando o que ganharia compondo – e a faixa de preço é, às vezes, 125 ou 200 dólares a hora se estou compondo. Mas o trabalho que está ao meu alcance algumas vezes é o estúdio. A coisa mais lucrativa é composição, e a maior parte da minha renda vem de uma combinação [dessas coisas].”
Compositor de trilha de filme.

Sobre meu projeto… até que me motivei mais, até porque já teria mais material para usar. Por exemplo, eles fizeram uma lista com 29 maneiras possíveis de um músico ganhar dinheiro. Isso poderia enriquecer bastante as entrevistas. Será que os músicos estão abertos a falar disso, será que a abordagem mais acadêmica (e anônima) é mais adequada? Será que essa vai ser só mais uma ideia que fica pelo ar?….



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3 Comentários to “Do que vive o músico afinal?”

  1. Caio Bosco 31/08/2011 at 23:19 #

    Também me ofereço para essa pesquisa.
    É só chamar se precisar

  2. Rodrigo Fonseca 31/08/2011 at 18:28 #

    Me ofereço pra fazer parte das entrevistas, Leo. Manda bala!

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  1. Literatura e direitos autorais | wille.blog.br - 12/10/2011

    [...] alguns meses li um post no blog do Leo Germani sobre uma projeto de pesquisa a respeito de como os músicos se sustentam financeiramente. Os [...]