Archive | janeiro, 2008

Uma receita de ONG

23 jan

Muitas ONGs começaram com um trabalho pontual, bem feito e coerente. Mas ninguém gosta de trabalhar muito tempo na precariedade, então é natural as ONGs irem atrás de financiamentos, parcerias com o governo, projetos com a iniciativa privada ou qualquer outra forma de garantir um sustento para seu trabalho.

E logo a organização começa a ficar mais complexa: mais pessoas entram no time e a força de um coração apaixonado não é mais suficiente para gerir a instituição.

É preciso criar um modelo de gestão, processos administrativos. É preciso ganhar agilidade, é preciso largar o amadorismo.

E onde as ONGs vão buscar seus modelos de gestão? Nas empresas!

Vamos lá:

Crie um setor administrativo, contrate especialistas e segmente o trabalho. Agora tudo funciona.

O que resta agora é conseguir manter essa estrutura. E, de repente, o trabalho passa a ser feito em função de projetos, e não o contrário. “o que estão financiando agora? Eu faço.”.

Para aprovar os projetos é preciso ter uma boa imagem. Invista energia para falar bem de você mesmo. Faça vídeos, sites, folders. Vai ser muito difícil você conseguir ter dinheiro pra fazer isso, então pegue os profissionais que estão contratados para executar alguns outros projetos e faça eles pararem pra fazer isso um pouco.

Capte dinheiro junto a empresas e se torne o braço social de uma corporação, que te cobra agilidade, eficiência, transparência e, o mais importante, resultados em forma de material de comunicação que ela possa usar em sua próxima campanha publicitária. E os investidores vão ficar felizes: “eu invisto em uma empresa com responsabilidade social”. E isso pode incentivar também novos investidores, alguns até dessa nova geração, com “consciência” e “atitude”, que vão se sentir bem melhor em investir em uma empresa assim.

Pronto, você caiu na armadilha. Agora você não pode mais parar. Você tem uma estrutura para manter e funcionários para pagar. Feche aquele projeto e já corra atrás de outro. Ganhe escala! Ninguém quer financiar um projetinho pequeno.

Agora os resultados de suas capacitações e intervenções são quantificáveis e quantificados como sabonetes em uma linha de produção.

Bom, claro que agora você não poderá ser totalmente coerente, já que deve ter eficiência empresarial. Talvez você opte por usar copos descartáveis, mesmo sendo uma ONG ambientalista, ou talvez, já que trabalha muito, passe a consumir bens e serviços que, na teoria, desaprova.

E não se preocupe com o distanciamento entre a equipe que realmente executa o trabalho e a diretoria. Normalmente são jovens idealistas que nunca vão enteder a complexidade e a responsabilidade da sua posição. Deixe-os reclamar. E também não esquente a cabeça com a apatia de outros, afinal, agora você oferece empregos e tem gente que está com você simplesmente por isso, não ache que todos vão abraçar a causa de sua ONG. Aliás, é mais fácil lidar com essas pessoas, pois trabalham quietas.

As contas estão sendo pagas? Os financiadores estão felizes? então está indo tudo bem. parabéns!

Leo,,

É tudo uma miscelânea

18 jan

1959268.jpgBem legal esse livro de David Weinberger. “A Nova desordem digital” (Everything is Miscellaneous) dá um panorama em como o homem e a mulher vêm classificando e organizando suas coisas ao longo da história; e como os modelos tradicionais de classificação simplesmente não funcionam no mundo digital.

Ele extrapola a simples questão da taxonomia, e aborda também as informações implicitas que toda informação carrega: Uma ficha de biblioteca amassada e castigada indica que aquele livro é bem procurado, assim como um histórico imenso de alterações em um artigo na wikipedia pode indicar que aquele é um assunto polêmico. Um trecho bem significativo:

A confiança que temos na [Enciclopédia] Britannica permite que sejamos conhecedores passivos: é preciso dar uma simples olhada em um tópico para encontrar informações sobre ele. Mas a Wikipedia fornece os metadados que envolvem um artigo – modificações, discussões, advertências, links para outras modificações feita por colaboradores – porque ela espera que o leitor esteja ativamente envolvido, atento aos sinais.

Esse ônus deriva diretamente da própria natureza da miscelânea. Se nos apresentarem um artigo da Britannica escrito por especialistas que filtram e pesam as provas para nós, poderemos absorvê-lo passivamente.

Mas se nos deixarem soltos em uma pilha de páginas tão grande que não tenhamos condições de enxergar seus limites, precisaremos de uma quantidade cada vez maior de metadados para que encontremos nosso caminho.

Decidir no que acreditar é hoje nosso ônus. Sempre foi, mas em um mundo comandado pela ordem do papel, em que a publicação era tão dispendiosa que precisávamos de pessoas que executassem a filtragem, era fácil pensar que nossa passividade fazia parte inevitável do aprendizado; achávamos que o conhecimento funcionava desse jeito.

Vale a pena a leitura. Fabiano Caruso indica esse vídeo com uma apresentação na íntegra do autor falando sobre seu livro. Interessante.
Eu, particularmente, fiquei impressionado de achar temas e afirmações que eu mesmo vinha fazendo há algum tempo. Nos meus rabiscos sobre temas pra um possível mestrado, escrevi:

Quero falar do receptor ativo não só como o cara que agora tb tem a oportunidade de ser emissor, mas do cara que, para ser receptor, tem que fazer um movimento em busca daquilo que ele vai receber. As coisas não chegam até ele mais em um horário certo, sempre no mesmo canal. É preciso que as pessoas aprendam como ir atrás do que querem. É preciso que as pessoas criem suas próprias redes de confiança, baseadas nas coisas que elas querem… Indo mais fundo: É preciso que as pessoas saibam o que elas querem.

Falava aqui daquilo que ele se refere como o ônus de nossa geração: saber o que quer, saber no que acreditar.

Leo,,

Steal this film II: nada de novo

16 jan

Ontem, depois de mais de uma semana tentando, consegui terminar o download de Steal This Film II, segundo documentário de uma serie que faz barulho na internet.

O filme, assim como o primeiro, é bom. Mas do meio do filme em diante, não pude deixar de ficar com a sensação de que não havia nada de novo ali.

Mais do mesmo

Deve ser porque eu estou envolvido com todos esses temas há vários anos, mas o filme não me trouxe nenhuma grande revelação ou insight. Ao contrário, se mostrou monótono e repetitivo.

Me pareceu também um filme um pouco desatualizado. Pensei aqui comigo que, na verdade, ele poderia ter sido produzido em 2003, na mesma época em que eu produzi o meu “A Música é de quem?” que trata sobre o mesmo tema.

Novas experiências em modelos de produção e negócio para música; exemplos de conflitos e contradições interessantes que a indústria está entrando; fatos sobre diferentes posturas que os atores envolvidos estão tomando – fabricantes de computador, desenvolvedores de software, portais de conteúdo, etc; nada disso é tratado no filme, que se resume a falar, mais uma vez, o que todo mundo já sabe: “Não é possível impedir o compartilhamento p2p e existe uma nova forma de produção colaborativa emergindo”.

Os Europeus

Assistir ao filme me reforçou uma sensação que tenha já há algum tempo: Que, muitas vezes, o pessoal do primeiro mundo tem uma visão bastante limitada da real transformação que o digital traz. As vezes me parece que só enxergam o fato de ter acesso livre ao entretenimento e não muita coisa além disso. Não há uma percepção das trasformações sociais que podem acarretar uma descentralização radical dos meios de comunidação. Para nós aqui no Brasil isso é mais importante do que poder assistir ao Homem Aranha de graça. (Estou sendo radical e generalizando aqui, mas as vezes é bom ser radical e generalizar)

Digo isso porque, na prática, a rede p2p ainda é dominada pelas grandes produções. Hoje o arquivo Top do Pirate Bay é o filme “Juno”, uma típica produção de Hollywood. E entre os Top 100 figuram todas (e talvez apenas) as grandes produções, incluindo Harry Potter e Homem Aranha.

Apenas dois softwares figuram na lista, o pacote Office e o jogo Age of Empires, ambos da Microsoft.

Em certa altura do filme, é dito que sempre haverá produções de massa, como novelas e filmes multi-milionários. Mas, ao meu entender, isso é colocado como uma questão a parte, com a qual não precisamos nos preocupar, pois o que interessa, e é esse o gancho que o filme faz, é que agora temos autonomia de produção, e teremos uma variedade muito maior.

Será que é isso mesmo? Será que uma produção descentralizada e uma distribuição gratuita é compatível com super produções como o homem aranha? Caso não seja, será que o cidadão usuário de bitTorrent atual está disposto a abrir mão do homem aranha (ou da grande quantidade de super produções) em detrimento de uma diversidade de produções “independetes”?

Acho que a discussão tinha que se aprofundar mais, se não corre o risco de cair na velha “Atitude MTV”: “Parem a guerra, protejam o meio ambiente, liberem os downloads e não atrasem a entrega da pizza!!”. Ou seja, jargões sem profundidade nenhuma.

Tanta coisa interessante acontecendo por aí, inclusive a própria maneira como eles financiaram o filme, recebendo doações, mas tudo isso pra falar a mesma coisa. De novo.

Leo,,

Estão apelando pro misticismo

16 jan

figa.jpgDeu na Folha online:

Diante deste panorama [do alto índice de pirataria], o presidente nacional do conselho [nacional de combate a pirataria], Luiz Paulo Barreto, negocia com emissoras de televisão a inclusão, em uma novela, de um personagem que, por conta de usar piratas, será a encarnação do azar.

Leo,,

Novo plugin do wordpress – Quick Subscribe

9 jan

De uns tempos pra cá venho desenvolvendo e mantendo alguns plugins pro wordpress. Essa semana lancei mais um, o Quick Subscribe! Logo mais vou instalá-lo no site do seychelles

Leo,,

Futuro bizarro

8 jan

Só uma pequena nota. Imagine só como seria bizarro ler essa notícia há 10 anos atrás (saiu ontem na Reuters):

NOVA YORK (Reuters) – O Napster, uma das maiores varejistas de música digital dos Estados Unidos, afirmou nesta segunda-feira que começará a vender downloads no formato MP3 a partir do segundo trimestre deste ano, numa tentativa de evitar o compartilhamento de cópias de músicas compradas online.

Leo,,

Computadores compartilhados

7 jan

Olha que interessante esse serviço de Disco Virtual. Você paga para ter espaço de armazenamento na internet, mas pode ganhar mais espaço em troca de algum espaço no seu HD para outras pessoas usarem.

Um exemplo: se você oferecer 10 Gbytes do seu disco local e ficar on-line 70% do dia, ganhará 7 Gbytes a mais. Dessa forma, seu disco passa a fazer parte do sistema de armazenamento do site. (da Folha Online)

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Muito bacana isso. Mas vai ser ainda mais legal quando as pessoas fizerem isso diretamente umas com as outras, sem depender de um serviço (na verdade isso já é possível). Na hora me lembrei do texto Computação Soberana, que conta a história de um futuro onde as pessoas são livres para compartilhar informações e recursos – e muito mais, vale a pena uma lida, o texto é muito bom. Um trecho:

Para sermos verdadeiramente soberanos, devemos ser capazes de nos associar livremente e compartilhar o espaço de nossas HDs. O mesmo se aplica à nossa memória RAM, nossos processadores e nossos links de internet.

Com isso, podemos dizer adeus aos hospedeiros de internet, tais quais os conhecemos hoje.

Se você, minha mãe e eu formarmos um cluster de 3 máquinas, teremos presenças na internet mais robustas e com maior disponibilidade que 99% dos sites comerciais de hoje, mesmo sem fazer backup.

E não precisa parar por aí. Quantos amigos você tem que possuem máquinas em casa com internet rápida?

Federando-se a seus amigos soberanos, você pode estabelecer uma presença praticamente invulnerável na internet.

Mesmo que sua máquina seja desligada, sua presença virtual continuará viva e perfeitamente bem, hospedada nas máquinas das pessoas em quem você confia.

Tecnicamente falta um passo muito pequeno para isso acontecer. O grande salto que precisa ser dado mesmo é de conscientização e postura dos usuários em relação a internet e o que ela pode ser. Mas isso é tema pra um outro post que já está no forno sobre nossa autonomia digital!

Leo,,

ps – achei bom pôr um link aqui pra um outro post sobre um tema relacionado. é o do pessoal que compartilha conexões wifi